Trilhos Serranos

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OLIMPÍADAS

Mitos, lendas, heróis

Louros, tudo coisa antiga

Vinda de outros sóis,

Outras terras e gentes.

A GRALHA (2)

Em 18 de Janeiro deste ano (2013)  prantei neste meu "estado" o texto com título "A GRALHA". Não resisto a repescá-lo novamente para aqui, por me parecer que "gralha" já não é escrever ERROBOGÁBEL em vez de IRREVOGÁVEL. Isto porque se as palavras viraram "parolas" sem sentido, construindo-se com elas argumentos e textos sem nexo, também podem perder a ortografia, com ou sem acordo ortográfico.

APAGÃO

Sempre que nuvens negras de saudade

Pairam sobre a minha alma solitária e fria

Ela do triste estado se alivia

Transformando em versos a tempestade.

MANIFESTO ANTI «DANTES»

O «Dantes» julga-se rei

Tem a dinastia na alma

Tem a corte na família, compadres e amigos

Não admite sucessores em vida

Ocupa as funções por herança.

PENEDO FÁLICO NA SERRA DA NAVE

Numa sociedade de tabus, onde é pecado falar de sexo, mamas e cus, foi assim mesmo que, levantada a pino, torre sem sino, do chão erguida, no meio da penedia espalhada a esmo na serra da Nave, um dia, descobri um penedo e ledo corri a observá-lo e a pô-lo aqui mesmo.

MUNDO FEITO DE MUDANÇA


Quando estava no activo

Na minha profissão docente

Usava vocabulário decente

Pois da missão era cativo.

INSTANTÂNEO

Um instantâneo 

Oportuno

Será Poeisedon

Será Neptuno?

Ele das ondas sai

E pés na areia

Num momentâneo

Olhar, eia!

Parece-me conhecê-lo.

E a sê-lo,

Eu vos digo,

É um amigo

Visto por outro amigo

Os dois primeiros

Que comigo

Fazem os “três mosqueteiros.”

Abílio/2020

 

TAMBORES

Estou em Tete. Saio da cidade. Sozinho, à espinheira atento,

sigo o meu caminho e penetro mato  dentro. 

Temerária é a mocidade!

Escravo do tempo,

Pintor

Sem dono

Nem senhor,

O outono

Puxou

Da paleta

Pincéis e tinta

E assim 

Pintou

O jardim

Que vejo

E mostro aqui.

GLÓRIA À CIÊNCIA

Década de setenta.

Século vinte.

HISTORIADOR

Mais do que relator

Do passado

O historiador

É o pensador

Do não dito, nem pensado.

CRENÇA E  TENÇA

Toma o romeiro o seu cajado

E segue rumo ao santo 

Afastado

Da sua devoção

O santo da sua crença.

COISAS SIMPLES

 

Por históricas escolhas,

No meio urbano ou rural

Dividida ao meio

Na horizontal

A janela

De guilhotina

Tem duas folhas,

De tamanho igual.

DA SUA NATUREZA

Olho aberto

Muito aberto 

Tem o esperto

Tem a esperta.

É assim,

Gosta

Porque gosta

É da sua natureza.

LEDO ENGANO

Se algum dia

Alguém lhe disser

Homem ou mulher

Que sangria

É vinho

E você acreditar...

Bem o souberam enganar

E por esse andar

Você mostra falta de tino.

JARDIM  MUNICIPAL

(21-07-2020)

Aqui sentado no banco do jardim, em Castro Daire, com o rio Paiva ao fundo a deslizar sob a Ponte Pedrinha, depois de São Domingos, pousa junto de mim esta boinha, boieira, lavandisca, galinha de Nossa senhora...tanto nome...e, nesta sua lida, faz-me ver, aos pingos,  a fita do tempo e do espaço. E nela vejo o que escrevi em 2013 sobre esse Rio e tudo em redor dele. Um pedaço de vida e de vidas.

Amoras

Minha amora madurinha

Quem foi que te amadourou

Foi o sol de manhazinha

E a mão que me acariciou.

RUGIDO DO LEÃO

Ó leoa, leoazinha
Que, acordada
Na tua caminha,
Pela selva te passeaste
E, pisando mata e chão
Em corrido andamento,
Por onde tens tu andado?

GRATIDÃO

O escultor Coelho Pinto

Que das pedras faz gente

(Meu amigo

De há muitos anos)

Nos seus ledos enganos

De artista

Trabalhou diligente

Uma escultura

(Está à vista)

Que, simbolicamente,

Diz ser o meu retrato

Chapado.

RELÓGIOS DE CORDA

Abandonados,

Pelos cantos das casas esquecidos

Descartados,

Sem corda, parados

Sem ninguém lhes ligar pevide,

(Que mal agradecidos!),

Eis que chegou a Covide

E fechou todo o mundo em casa

Lembrando tempos idos. (ver mais)

ABRIL

Palestras, manifestações

Águas separadas dia a dia

Nas ruas, nas instituições

Questiona-se a democracia.

Abílio Pereira de Carvalho

 20 de abril de 2014 ·


PÁSCOA FELIZ

Páscoa feliz
É como quem diz,
Conheço-a de vender pinhas
Pela vizinhança
Apanhadas no pinhal
Alheio, pois de herança
Não tem nada de seu.

CORONA

Foi criada uma PLATAFORMA ONLINE onde os cientistas podem trocar ideias e projectos conducentes ao combate do CORONAVÍRUS.

CORONAVÍRUS

Históricos Impérios?

Eles são tantos

Na cronologia,

Na fita do tempo.

Longa é a lista

Não são de agora 

Os prantos

E os mistérios

Da pandemia

De domínio e de conquista,

Tal como outrora.
PEQUENINO

Invisível

Inteligente

A gente

É o seu império.

A seu critério

Mata

Sem clemência

E escapa

Ao domínio da Ciência.

O MEDO

Neste tempo de clausura

Tudo bota faladura

A falar do que não sabe.

Fala o Papa, fala o cura

O sacristão e o abade

O civil e a autoridade.

...NOVA QUALIDADE...

Quando estava no activo

Na minha profissão docente

Usava vocabulário decente

Pois da missão era cativo.

TENTAÇÕES

Na nossa cultura e viver coletivo tudo o que se desvia do social normativo, põe na boca da generalidade das pessoas um "credo", um "abrenúncio" ou a expressão "coisas do demo".  

ORIGENS

Tambores Moçambique/1963

Estou em Tete. Ano de sessenta e três. A noite promete e saio mais uma vez da cidade. Sozinho, à espinheira atento, sigo o meu caminho e penetro mato dentro. Temerária é a mocidade!

MITOLOGIA HODIERNA

Minotauro se dizia

Daquele monstro que havia

Na antiga ilha de Creta.

NATAL

Cumpre o mundo seu fadário

No fio do tempo rolando

Presépios vão recordando

O que morreu no Calvário

A FORÇA DA MEMÓRIA

Estranho é o ser humano

Nestas suas andanças pela terra

Basta estudar o passado

De tanto século, dia ou ano.

ONDAS DO MAR

Em 2014 publiquei no meu mural do Facebook a versalhada que se segue. Dei-me conta, hoje mesmo, que não estava alojado neste meu espaço. Passa a estar.

CHAIMITE

Viva o Chaimite,...Pim!

A viatura

Que pôs fim

À ditadura.

BERETTA


De pé, na vertical ou deitada,

Inclinada,

Na horizontal que seja

NATUREZAS MORTAS

Saídas da paleta e pincéis
De artistas de nomeada
Emolduradas 
Pintadas
Segundo os gostos seus
Enchem as galerias e museus
Do mundo.

POESIA POPULAR

Retomo as "décimas populares" às quais me referi há dias, desta vez para mostrar que, muito à maneira medieval das "cantigas de amigo", o poeta assumiu o papel feminino e falou como se mulher fosse. Nesta "décima" refere-se aos "três vinténs" que uma moça, contra a vontade da sua mãe, deu ao "guedelhudo" que lhe apareceu e de quem se agradou. Já em crónicas anteriores referi que os "TRÊS VINTÉNS" eram um tesouro que toda a menina e família que se prezasse "devia levar ao altar". Outros tempos....outros tempos...outros tempos. Olhem, reparei agora que repeti a expressão TRÊS VEZES!

O FOGO 

Relâmpago ocasional
Caído do céu
Ofuscando o sete-estrelo,
Ou raio de pensamento
Australopiteco ou Neandertal…

AGASALHO DA SERRA

Aquilino Ribeiro filiou a capucha serrana no capuz turdetano. E, seja verdade ou não, eu usei esse agasalho, enquanto fui serrano.

SEMENTES DE AMOR

Nesta margem do rio

Agarrado

À rabiça do arado

Lavro a terra 

Cansada de pousio

Cheia de vida

Ansiosa por ser arada

E produtiva.

OLHAR DE VER, CONHECER E SENTIR

PARTE - I

Rodeado de flores, olhos ébrios de cores, narinas afogadas em odores amarelos, lilases, brancos, castanhos, cinzas e pútegas por perto a espreitar na terra, ocultas sob esta casaca de toureiro e dalmática cristã, eis-me, nesta ode pagã, remoçado pegureiro, lembrado do prazer de correr e explorar os montes, vales, rios, fontes e serras...a doçura delas, mamas cheias prontas a chupar, corpos dispostos à entrega e a regalar quem regalos não tem. E nesta minha idade de 79 anos, rio-me disso tudo. Carrancudo? Nem pensar.

OS SEIOS

Aos olhos do poeta o seios são sempre belos.

TELAS

 

São da minha autoria

Cada fotografia

Que mandei passar à tela.

Fê-lo a Elisabeth, pintora

Uma senhora

Que conheci há pouco tempo.

NATUREZA VIVA

 

Saída da paleta e pincéis

De artistas de nomeada

Pintada

Segundo gostos seus

Enche galerias e museus

Do mundo.

FRUTOS DA TERRA

GERINGONÇA

Com significado pejorativo

Uns certos amigos da onça

Batizaram de geringonça

O actual processo governativo.

No mundo há de tudo,

Há o feio e há o belo.

Há a alegria e a tristeza

Há o sonho bonito-surpresa 

E também o pesadelo.

 FILHA DA MONTANHA

Gerada e criada 

Longe da afetividade humana

A filha da montanha

Despede-se da mãe

Inicia a caminhada

Disposta a enfrentar

Ventos e marés

Para não mais parar

E, por carreiros e caminhos,

Receber pontapés

E também,

Afagos e carinhos.

CARRINHO DACTÍLICO

 

Fingem que não ouvem, nem leem

Todos eles perderam a vergonha

Mas p’ra mim de carrinho vêm

Pois bem lhes conheço a ronha.

GUICHÊ

Com o título em epígrafe, no longínquo ano de 1968, na não menos longínqua cidade de Lourenço Marques, irritado com o desempenho de algumas repartições públicas, escrevi um texto onde expus o que ouvia, via e sentia. Isso prova que a minha luta contra BUROCRACIA e BUROCRATAS tem barbas. Assim:
NATAL


Natal!

Todos sabemos que é Natal.

Não passaram já outros Natais?
ELES ESTÃO A IR


Dia a dia

Eles estão a ir.

São eles

Aqueles

Que eu ouvia

Na telefonia

Enquanto estudava.

ORTOGRAPHIA

No mundo real

Do reino humano

Animal e vegetal

Em constante mutação

Não há sábias tretas,

Ilustrada cagança

Ou distinta opinião

Que, para reinar,

Possam aqueibar, 

O animal selvagem

Do reino das letras:

A ORTOGRAPHIA:

HIPOCRISIA SANTA

ENSINO À DISTÂNCIA

Passou-se algum tempo sem eu ter "novas" do meu ex-professor e saudoso MESTRE DR. Francisco Cristóvão Ricardo. Foi, portanto, com grande alegria e proveito que recebi na minha caixa do correio, um "Olá, Abílio, há muito que não nos "vemos", para me penitenciar deste silêncio, envio-lhe o meu último "passatempo", em anexo, um abraço". 

E sabem qual era o anexo? Qual era o passatempo a que ele alude? Tirando as figuras que o ilustram (que fui buscar ao GOOGE) e os sublinhados a negrito que são da minha lavra, para melhor destaque, era a lição que vos deixo, aqui, tal qual, para cada um de vós ajuizar por si, se é exagero meu, tratá-lo por MESTRE. É-o e, seguramente, assim será até ao fim dos meus dias. Já tenho 78 anos de idade. Olhem só para isto!

TAMANCOS

Sentado

Na escada 

Da minha casa

Montado na asa

Do tempo 

O pensamento

Leva-me ao passado

Distante

Da minha mocidade.

HISTÓRIA VIVA -7

Se vai a caminho da igreja

Na Rua de S. Benedito

Antes de chegar ao fim

Olhe  e veja

O que ninguém viu

Nem foi dito

Antes de mim:

No muro da brasonada

Casa Aguilar

(É só olhar!)

Aparece a amuralhada

Sombra do crasto

Que em Castro  existiu

E, sem deixar rasto,

O tempo engoliu.

MENSAGEM

De repente,

De todo inesperada,

Caiu-me na caixa do correio

Uma mensagem

Gentilmente

Assinada

Por Arménio Vasconcelos,

Cidadão

Poeta

Com obra feita

TRILHOS DA VIDA

Assim, bordado

Para mim

Num palmo de linho

Fino

Um lenço de namorado

Encerra o carinho

O afeto e o sentimento

Que o destino

Desviou do casamento.

SEM FRONTEIRAS

Sem fronteiras

Se diz ele, o aniversariante.

A CAPUCHA

Quem vai ali
Agasalhada assim
Naquele manto de burel?

A PETISCADA -1 

Nestas últimas, penúltimas e antepenúltimas crónicas cirandámos pelo último quartel do século XIX. Falei da poesia popular, de autor anónimo, métrica e rima descuidadas, temas vários por si tratados, nomeadamente o ano em que ele assentou praça (1871) ao serviço de D. Luís, como soldado. Claro que, poetando ele daquela maneira (a sua obra excluída estaria, seguramente, de entrar nos manuais escolares, ainda que escola fizesse no auditório português popular e nele perdurasse até hoje, como referi, sobretudo na zona alentejana) e ao situar-se neste ano de 1871, lembrei-me logo das «Conferências do Casino», de Antero de Quental, dos seus sonetos, textos sociais, de literatura pura, que ele cantou e a mim me encanta. Depois falei do tabelião (Antero, poeta e escritor de renome, outro escrivão anónimo de província)  que, passada uma década (certamente filho da mesma escola coimbrã) assentou arraiais nesta vilória de Castro Daire, para daqui, no desempenho do seu ofício, viajar até aos Açores, dali para Tabuaço e, depois, retornar a esta santa terrinha.

TUDO O QUE VEM À REDE É PEIXE

Há anos que cirando por trilhos e veredas serranas, que visito aldeias e povoados, falando com toda a gente à procura de documentos orais  e escritos, papéis velhos, manuscritos ou impressos. E foi nessa minha romagem pelo concelho que, em 1995, me chegou às mãos um maço de folhas, formato 34x22,5 cm, nas quais, de alto a baixo, estão manuscritas, em duas colunas, umas tantas décimas populares, isto é, composições poéticas constituídas por um mote (quatro versos) glosado em estâncias de dez versos, rematando cada uma delas com um verso do mote. Composições ainda muito em uso nos meios populares alentejanos (procedi a alguma recolha delas quando estive em Castro Verde) mas não tanto por estas bandas do Montemuro. As últimas que conheci por cá, e delas já fiz uso algures nos meus escritos, são atribuídas ao Mestre Zé Aveleira, (de Cetos) já falecido há muito.

A NORA

A nora, esse engenho de outrora vindo das arábias, desse povo de coisas sábias
ligadas às matemáticas e à exploração da água de beber e de rega, escondida nas profundezas da terra. Assim o aprendi e assim ensinei com muita simpatia pela inteligência na luta dos povos pela sobrevivência. Um poço aberto num areal, aberto num descampado, dentro ou fora de Portugal, uma roda munida de alcatruzes (é isso que eu sei) não havia deserto que esse povo, arredado das cruzes, deixasse por esventrar e trazer à superfície o líquido que rega e mata a sede. Que dá vida, antónimo de morte. E quem me impede de ler poesia naquela vida dura de burro, de burra ou de camelo, sempre à roda do poço, de coleira metida no pescoço e a geringonça que encanta adulto e criança, no seu monocórdico "chiu...chiã...chiu...chiã", desde manhã cedo à noite escura, quem vai sabê-lo, se chora, se canta? Chiu...chiã...chiu...chiã...
No Alentejo havia noras e poços espalhados pelos montes. A água não gorgolejava livre e cantante das fontes, como aqui no norte. Um balde preso à ponta de uma corda, sempre ali ao lado, convidava o viandante, o caçador, o criado e o senhor sedentos a servirem-se. Eu me servi. E lá como cá (que ousadia minha) sempre que bebo água, bebo poesia.

(Publicado no Facebook em 3 de setembro de 2014)

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 ANTIGAMENTE ÉQUE ERA BOM

Nunca me tinha lembrado

Mas tinha que ser um dia

No cumprimento deste meu fado

Escrever em poesia

Uma impensável ode à fome

E nela cantar a barriga vazia

A felicidade de quem não come.

 

VÉU DE NOIVA


Uma vez,

(Foi há muito tempo)

Procurei a minha professora Inês

E soube que ela se metera

E morrera

Num convento.

Sete filhos teve Gabrielina Pereira

Esposa de Salvador de Carvalho

Todos lhes deram muito trabalho

Desde o último até à primeira.

 

PARTIDO SOCIALISTA

O momento político que se vive no PARTIDO SOCIALISTA, partido cujos trilhos nunca perdi de vista e de afectos, leva-me a transcrever para aqui algumas OITAVAS que Luís de Camões dirigiu a Dom António de Noronha sobre «O DESCONCERTO DO MUNDO». Para melhor actualidade alterei algumas palavras que ponho entre aspas e em letra maiúscula, já que este espaço não aceita o itálico. Assim


Fui nova e cortante enxada

Desbravei e cavei o chão

Sou sucata abandonada

Metida assim neste paredão.

Nas tendas de Cujó fui forjada,

Nas tendas dos Camelos e Ramalhos

Todos hábeis a manejar
Ferro, martelos e malhos
Invernos seguidos sem parar.

 

 CRIATIVIDADE VIVA

Que felicidade a minha viver  num tempo em que, tão asinha, a criatividade e o pensamento surgem em meu redor como  escalracho em terreno lavrado: ele  é o poeta, ele é o escritor, ele é o historiador a deixarem-me deslumbrado com tanto labor, com tão variegado saber nestas  cousas de contar, de ler, de escrever e, de forma lesta, divulgar e vender o que presta e o que não presta.



De há uns tempos a esta parte
Surgiu uma vaga de poetas
E escritores dispostos a renovar a arte
De comunicar com as letras.


ABRIL
Liberdade, igualdade, fraternidade
Bandeira de esperança de muitas cores
Qu'é dela?
Que foi feito dessa primavera
Desse jardim de mil aromas, mil flores
Que murcharam, mirraram, morreram
Em quarenta anos apenas?
Onde estão as minhas Tróias, as minhas Helenas?

 

 

SOBE, SOBE, BALÃO SOBE...

 

MÁ LÍNGUA

Já foi há muito tempo.
Um dia
Na compra do jornal
A empregada
Que mal sabia
A gramática
Disse-me "obrigado"
Em vez de "obrigada"
Como lhe cabia.
Era a prática
No seu a dia a dia
E assim fora ensinada.


Ai amigo

Tenho andado perdido

Na poesia medieval,

Nas cantigas de amigo

De escárnio e maldizer.

Ai amigo,

Tenho andado perdido

Na poesia medieval

Nas cantigas de amigo

De escárnio e maldizer.

Ai amigo

Tenho andado perdido

Nas poesias medievais.

E como nunca é demais

Beber as influências provençais

É por lá que tenho andado.

LUZ QUE ALUMIA - HUMBERTO ECO

Acordado, olho aberto, ligo a rádio e sou informado da morte de Humberto Eco.
Disseram a idade: oitenta e tantos. Não fixei. Só sei que se afastou uma luz dos meus encantos, uma luz que me alumiou e me fez rir no "Nome da Rosa", aquele livro onde falou a sério do livro que o riso proibia: o riso, esse mistério. Fiquei triste.


Letras? Que longo caminho, o delas. Ora galopando, ora trotando, ora a sós ou a granel, atravessaram espaço e tempo, até chegarem a nós, silenciosas ou em tropel.  Caminhada longa e séria. A arqueologia, que acorda o que enterrado dorme, trouxe-nos da Antiguidade a escrita cuneiforme da Suméria e territórios do Crescente, a deslocação de animais e gente, as Tábuas da Lei, a Pedra de Roseta, cunhadas ou manuscritas, visíveis ou apagadas, chegaram-nos em papiros, em pergaminho e papel, sempre cuspidas por cunhas, espátulas, estilos, bicos das penas de pato ou aparo de canetas, com recurso a tintas e a cera. Falo de história. As letras nunca foram tretas. Gravadas, desenhadas, hieroglíficas demóticas ou cursivas, a par de factos autênticos passados, carregados de glória, elas registaram vidas, sentimentos, afectos, amores, sofrimentos, paixões, declarações de guerra, tratados de paz, formação e queda de impérios, muitas fintas, muitas lendas e muitas petas, ditas e inauditas.

 

O FACEBOOK É UMA LIÇÃO

ORA ENTÃO DIGA LÁ AO QUE VEM...

Calado, deitado no sofá, mãos cilhadas na nuca, cotovelos afastados à semelhança da proa e da ré de um barco rabelo atracado, desgrenhado o cabelo, queixo ferrado no peito, ao jeito de Trinitá, o cawboi insolente, perna cruzada, tornozelo com tornozelo, estendido na padiola puxada para cá e para lá pelo seu cavalo, um regalo, ouço a voz amiga do psiquiatra, aquele médico (um tanto ou quanto quadrado) que há anos me me trata das maleitas da mente, aquele que entra em nós e como nós sente, aquele que tudo faz para me tirar das nuvens, para me fazer descer do céu à terra e, na terra pensar e agir como toda a gente: diga!?

 

Misterioso é o cérebro humano. Quando menos esperamos, passado tanto ano, num só momento, o pensamento conduz-nos de repente a caminhos andados, distantes esquecidos e, sem pedirmos, lembrados.

ESTÓRIA  POÉTICA - O BORDEL

Creio não haver homem no mundo, homem que se preze de sê-lo, que, gozando a mocidade, saboreando a vida, a saúde e a virilidade próprias de idade, não arrole no seu currículo a passagem por um bordel, a "casa das meninas" e nunca uma vez só. Creio não haver homem que tenha esquecido aquela imagem impressiva de entrada e de começo: uma grande sala, as meninas sentadas à roda, cada uma delas,  fazendo pela vida, a tentarem captar o cliente recém-chegado. De todas as raças e cores. Um arco Íris de corpos e de vestes, «partout, everywhere, por toda a parte». Sorrindo, o acabrunhado caloiro nessas lides, logo se tornava alvo de mil olhares, mil desejos e mil perguntas: «quem escolherás tu?»
Ao fundo, num canto, junto da janela, um papagaio atento à clientela, ensinado a bater as asas e a palrar como quem fala: "meninas, quarto ou rua,... vida..., vida,... aqui não se quer sala". Um pássaro avisa quem procura pássara que o espaço não é sala de estar mas somente sala de espera.



Lá longe...em Moçambique, na cidade de Lourenço Marques (hoje Maputo) numa das aulas de Literatura Portuguesa, analisando um poema de Reinaldo Ferreira (filho) guardei para toda a vida a opinião do meu professor, Dr. Francisco Cristóvão Ricardo: "só este poema faz de Reinaldo Ferreira um poeta". E acrescentava que, para se ter essa categoria, não era preciso escrever muito: "um simples poema valia por um livro inteiro".


Corre o mundo seu fadário
No fio do tempo rolando
A Língua foi-se mudando
Dicionário após dicionário.

MEMÓRIAS MINHAS - POESIA, ONDE ESTÁS TU 

 

Nada é, pois, como outrora: «nada é igual». E ao sol-por das minhas «infâncias distantes», infâncias na maioria iletradas, condenadas à cultura da terra, a vida, nas suas mudanças constantes, contrapõe-se, agora, o chilreio da pequenada nos jardins de infância, da criançada nas escolas primárias, preparatórias e secundárias.




De olho bem aberto, disse Portas descontente: nem de longe, nem de perto quero a esquerda pela frente. As costas à esquerda viro, não a quero à minha vista, e tudo o que é socialista, ai...ai...ai... está no gozo de meto e tiro, no jogo do entra e sai.

Iooonnnn......iiooonnn...brrruuuu...
 
A esquerda cooperativa
Deu dois coices no telhado
E ela, que tem sido burra,
Mostrou, enfim,  o nunca visto:
São Bento ficou sem telha
E o Céu abriu-se à Terra.
E agora, vejam só quem zurra
E rincha por todo o lado:
- Vem aí o Anticristo.
É a direita velha e relha.


Ó Luis, 
Ó Luis de Camões
Mesmo sem carne, nem cabelo

Nem  olho,

Quero lá sabê-lo

Levanta-te da tumba



Estava eu em Milange, Moçambique, para onde tinha sido transferido de Tete por via de um processo disciplinar. Era indisciplinado e não me vergaram, como ainda hoje é patente no que digo e faço. Os militares de Vila Junqueiro, terras de chá, tal qual Milange, resolveram fazer uns Jogos Florais, aos quais podiam concorrer também civis residentes na Zambézia. 



Onde é que eles já vão

Com muita alegria e fé

O distrito Cavaquistão

Cavaquistão já não é.

Quem é que sabia que em Lisboa havia a rua Abade Faria? E o que faria o Abade Faria para ter a rua que merecia?

Pouca gente sabia. Tal como pouca gente sabe quem foi esse abade e o que na vida fazia. Hoje já assim não é. E num país de muita fé, de monges, clérigos, abades (e também muitos alarves)  a rua Abade Faria converteu-se num santuário, a pontos de, noite e dia, jornalistas hipnotizados, dali debitarem notícias, comentários, mas não sobre o Abade Faria, nem sobre o que ele fazia, para ter a rua que merecia.


Fora do aparelho propositadamente

Por razões públicas conhecidas

(Deixei-as escritas, foram lidas) 

Eu ficaria muito contente

De ver o Partido Socialista

Na crista

Deste mar encapelado,

Confuso, embrulhado

Nas turbulentas ondas

Do mar de outubro.

A LUA

Dois mil e quinze, é o ano.
29 de agosto
É a noite, é o dia.

 

Radiante, aparece no horizonte

O Sol, atrás daquele monte

Além.



Eis aqui uma cabana
Vazia, vazia, sem nada
Assim perdida na montanha.

Todos os anos as andorinhas, na sua viagem migratória, repousam algum tempo nas linhas telefónicas e electricas presas aos postes que se levantam na povoação de Fareja.



Duas ou mais mulheres lavam aqui a roupa.
Eu ouço verdades, eu ouço balelas 
Pois falar da aldeia toda é cousa pouca
Neste pequeno espaço, somente delas.


Firme, hirto e aprumado
Assim se ergue o pinheiro,
De São João, bem lembrado
Na povoação de Fareja.


Ó gente, se eu fosse da corte poeta, se tivesse de Gil Vicente a veia, sem receio de passar por bobo, diariamente do Facebook fazia palco e plateia, simultaneamente.

 

Em 1987, corria o mês de Setembro, publiquei no "Lamego Hoje" (então um jornal mensário) o texto que se segue e que, face ao que se vai vendo por aí no tocante à liberdade do uso de palavra escrita, falada e desenhada (leia-se BD) me parece não ter perdido oportunidade. É que, em todos os tempos e lugares houve sempre quem, por convicção, por conveniência individual, divertimento de grupo (digamos de bando) ou da dita defesa dos valores instituídos (morais, políticos, artísticos e outros) fosse lesto a "cortar" o que de novo ou diferente, surgisse, ou surja. Mas, como o meu texto mostra, ninguém sabe o nome do CENSOR e todo o estudioso sabe o nome do CENSURADO. Assim:

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