Trilhos Serranos

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NOTABLE  PEOPLE

 

Mesmo que notável não seja

Entre os notáveis eu figuro

E bem sinto quanta inveja

Isso trouxe ao mundo escuro.

SOUTO DE D. DINIS

De castanhas se fazia pão

Caldo de  castanhas se fazia.

Bem o pode negar e dizer que não

Pessoa de pouca sabedoria.

DESILUSÃO

Seria ela? Vi-a, pareceu-me ser, mas não perguntei. Duvidei. Passaram muitos anos sem a ver. Aquela senhora, à minha frente, “tente não caias”, com calças, (sempre e vi de saias) com visível dificuldade na mobilidade, desempenada e robusta que foi outrora, tinha agora andar de ganso, ancas a pedirem descanso, sinais evidentes fadiga, de estarem velhas. Uma velha. Vista de frente, de trás ou de lado, as pernas lembram-me aduelas arcadas e desconjuntadas de pipa rejeitada, aros lassos a esguicharem em todas as direções o vigor e a vida que tiveram a cada passo dado, em tempos idos.

VERBO E VERSO

Sou avesso ao complicómetro

Simplificar tem sido o meu lema

Agito as águas como quem rema

Impelido pelo simplificómetro,

Isso, tirante o meu nascimento

Que já foi há muito, muito tempo

E dito fica, para não haver enganos,

Que foi há oitenta e três anos.

UM GESTO, UM OLHAR

Sentado

Pensativo

Dorido

Do dente tratado,

PRÍAPO "DEUS DA FERTILIDADE"

Lado a lado, ao comprido

O novo e o velho pinheiro

O novo, em breve, será erguido

E, em breve, o velho será braseiro.

A GUERRA

Qual Guernica, qual nada!

Essa Guarnica, uma cidade inteira

Uma cidade antiga

Totalmente destruída

Na  Segunda Guerra Mundial,

Essa guerra passada

Nem a última, nem a primeira.
MAR NEGRO


Mar negro, negro mar

Sempre teu nome assim ouvi.

As tuas cores nunca as vi

Nem nunca me interpelei a mim

O porquê de te chamar 

Tanta e tanta gente assim.

A INOCÊNCIA

Inocente

E eloquente

É o olhar desta criança

Ao colo da mãe.

Um instantâneo

Das redes sociais

Que registo para lembrança.

 


A ESTÁTUA



O sal

Mesmo que seja

Sal-gema

Fácil é de moldar

Pelo escultor que o maneja

E, na abordagem de um tema,

Qualquer que seja,

Troca o BEM pelo MAL

 


QUEM TRAVA A BESTA?

O mundo inteiro

Civilizado

Assiste pasmado

À destruição de cidade

Após cidade.

FORMAÇÃO E QUEDA DE IMPÉRIOS

 Neste anos de 2022 a Rússia, comandada por Putin resolveu pôr em prática a sua política de expansão imperial e daí rsultou a GUERRA com a UCRÂNIA. E como nestas coisas de formação e queda de impérios não há inocentes, sendo certo que quem mais sofre não são os seus mentores, mas as vítimas deles, eu, ao ver tanta destruição de habitações e os seus habitantes em fuga, adultos, crianças, cães e gatos, achei oportuno trazer a este meu site ativo um poema que escrevi e publiquei há muito nos jornais e no meu meu velho site desativado. Escrevi-o em Lourenço Marques, em 04 de novembro de 1974.

Há pegadas de vida que jamais esquecem e quando as vemos repetidas, perguntámo-nos, como é que a barbárie pode vencer a civilização?

A GUERRA

Tanto comentador

Todos eles muitos prudentes

Sim, senhor,

Imitando os presidentes.

SURPRESA
Já fiquei rouco
De gritar
A perguntar
Onde está o louco?

DEUS DORME


Ó gente,

Dirijo-me a todo o crente

A todo o que acredita em Deus

E lhes digo:

LITERATURA ORAL 

Ontem deixei as LETRAS e dediquei-me às ARTES. E no meu mural do Facebook deixei a justificação que abre o texto  do qual aqui apresento parte, assim:

Eu, modesto lenhador na floresta das letras que, de podão em punho, persiste em abrir clareiras de conhecimento e de humanidade (usando essa tosca ferramenta de antanho, bem adequada ao corte das silvas) à falta de inspiração para a escrita, desci aos fundos da moradia que habito e, botando mão ao RESTAURO da cabeceira da CAMA DE FERRO onde, em menino e jovem, dormi SONHOS E PESADELOS, cheguei ao fim do dia com o produto que mostro na fotografia ao lado.

TESTAMENTO


Neste tempo

Em que o lúcido pensamento

Está ausente

Na cabeça de tanta gente,

Quero deixar escrito

Bem claro e dito

Enquanto tenho alento

E tino

(Espécie de testamento)

Com vigor

Sereno e vero

Que, se lutador

Fui na vida inteira

Lutador morrer quero

Ao deixar a Terra.

AS ENXADAS

No tempo em que exerci funções docentes na vila de Castro Verde dei-me ao cuidado de fazer uma recolha exaustiva das ditas «décimas populares» não incorporadas nas antologias de LITERATURA institucional que me foi veiculada nos liceus e universidades. Fiz entrega dessa COMPILAÇÃO na secretaria da Câmara Municipal daquele concelho.

Já aludi a esta minha tarefa em escritos anteriores e sublinhei quanto eu aprendi ouvindo ou lendo essas «décimas» (ditas de 40 pontos) por serem composições que tinham à cabeça uma QUADRA a servir de MOTE. Este era depois glosado em QUATRO décimas, terminando cada uma delas, sequenciadamente,  com um verso do MOTE. Assim:

2022

Alguém pensou nisto?

Três PATINHOS e um OVO

É agora a numeração

Deste nosso ANO NOVO.

SENSIBILIDADE HUMANA

Que tem, Professor?

Pergunta-me alguém

Que olhos na cara tem

Para ver.

ENTERRO

No alto da esguia torre

Dobram dolentes os sinos

E a sua voz plangente

Dlem...dlam...dlem...dlam...

O VINHO É POESIA ENGARRAFADA”  (Robert Louis Stevenson)

 

Poesia não é só versejar

Não é só bem escrever

E pensar.

ARREDORES DE VILA POUCA

V.POUCANos arredores de Vila Pouca

Encontrei um velho souto.

O povo, que não é louco

E na tradição sabe o que diz,

Para gente que não é mouca

Afirma dever-se a D. Dinis.

PEDRAS COM ALMA

Engameladas

Puídas

Com séculos de história

Estão as escadas

Da minha moradia

Restaurada.

OLIMPÍADAS

Mitos, lendas, heróis

Louros, tudo coisa antiga

Vinda de outros sóis,

Outras terras e gentes.

A GRALHA (2)

Em 18 de Janeiro deste ano (2013)  prantei neste meu "estado" o texto com título "A GRALHA". Não resisto a repescá-lo novamente para aqui, por me parecer que "gralha" já não é escrever ERROBOGÁBEL em vez de IRREVOGÁVEL. Isto porque se as palavras viraram "parolas" sem sentido, construindo-se com elas argumentos e textos sem nexo, também podem perder a ortografia, com ou sem acordo ortográfico.

APAGÃO

Sempre que nuvens negras de saudade

Pairam sobre a minha alma solitária e fria

Ela do triste estado se alivia

Transformando em versos a tempestade.

MANIFESTO ANTI «DANTES»

O «Dantes» julga-se rei

Tem a dinastia na alma

Tem a corte na família, compadres e amigos

Não admite sucessores em vida

Ocupa as funções por herança.

PENEDO FÁLICO NA SERRA DA NAVE

Numa sociedade de tabus, onde é pecado falar de sexo, mamas e cus, foi assim mesmo que, levantada a pino, torre sem sino, do chão erguida, no meio da penedia espalhada a esmo na serra da Nave, um dia, descobri um penedo e ledo corri a observá-lo e a pô-lo aqui mesmo.

MUNDO FEITO DE MUDANÇA


Quando estava no activo

Na minha profissão docente

Usava vocabulário decente

Pois da missão era cativo.

INSTANTÂNEO

Um instantâneo 

Oportuno

Será Poeisedon

Será Neptuno?

Ele das ondas sai

E pés na areia

Num momentâneo

Olhar, eia!

Parece-me conhecê-lo.

E a sê-lo,

Eu vos digo,

É um amigo

Visto por outro amigo

Os dois primeiros

Que comigo

Fazem os “três mosqueteiros.”

Abílio/2020

 

TAMBORES

Estou em Tete. Saio da cidade. Sozinho, à espinheira atento,

sigo o meu caminho e penetro mato  dentro. 

Temerária é a mocidade!

Escravo do tempo,

Pintor

Sem dono

Nem senhor,

O outono

Puxou

Da paleta

Pincéis e tinta

E assim 

Pintou

O jardim

Que vejo

E mostro aqui.

GLÓRIA À CIÊNCIA

Década de setenta.

Século vinte.

HISTORIADOR

Mais do que relator

Do passado

O historiador

É o pensador

Do não dito, nem pensado.

CRENÇA E  TENÇA

Toma o romeiro o seu cajado

E segue rumo ao santo 

Afastado

Da sua devoção

O santo da sua crença.

COISAS SIMPLES

 

Por históricas escolhas,

No meio urbano ou rural

Dividida ao meio

Na horizontal

A janela

De guilhotina

Tem duas folhas,

De tamanho igual.

DA SUA NATUREZA

Olho aberto

Muito aberto 

Tem o esperto

Tem a esperta.

É assim,

Gosta

Porque gosta

É da sua natureza.

LEDO ENGANO

Se algum dia

Alguém lhe disser

Homem ou mulher

Que sangria

É vinho

E você acreditar...

Bem o souberam enganar

E por esse andar

Você mostra falta de tino.

JARDIM  MUNICIPAL

(21-07-2020)

Aqui sentado no banco do jardim, em Castro Daire, com o rio Paiva ao fundo a deslizar sob a Ponte Pedrinha, depois de São Domingos, pousa junto de mim esta boinha, boieira, lavandisca, galinha de Nossa senhora...tanto nome...e, nesta sua lida, faz-me ver, aos pingos,  a fita do tempo e do espaço. E nela vejo o que escrevi em 2013 sobre esse Rio e tudo em redor dele. Um pedaço de vida e de vidas.

Amoras

Minha amora madurinha

Quem foi que te amadourou

Foi o sol de manhazinha

E a mão que me acariciou.

RUGIDO DO LEÃO

Ó leoa, leoazinha
Que, acordada
Na tua caminha,
Pela selva te passeaste
E, pisando mata e chão
Em corrido andamento,
Por onde tens tu andado?

GRATIDÃO

O escultor Coelho Pinto

Que das pedras faz gente

(Meu amigo

De há muitos anos)

Nos seus ledos enganos

De artista

Trabalhou diligente

Uma escultura

(Está à vista)

Que, simbolicamente,

Diz ser o meu retrato

Chapado.

RELÓGIOS DE CORDA

Abandonados,

Pelos cantos das casas esquecidos

Descartados,

Sem corda, parados

Sem ninguém lhes ligar pevide,

(Que mal agradecidos!),

Eis que chegou a Covide

E fechou todo o mundo em casa

Lembrando tempos idos. (ver mais)

ABRIL

Palestras, manifestações

Águas separadas dia a dia

Nas ruas, nas instituições

Questiona-se a democracia.

Abílio Pereira de Carvalho

 20 de abril de 2014 ·


PÁSCOA FELIZ

Páscoa feliz
É como quem diz,
Conheço-a de vender pinhas
Pela vizinhança
Apanhadas no pinhal
Alheio, pois de herança
Não tem nada de seu.

CORONA

Foi criada uma PLATAFORMA ONLINE onde os cientistas podem trocar ideias e projectos conducentes ao combate do CORONAVÍRUS.

CORONAVÍRUS

Históricos Impérios?

Eles são tantos

Na cronologia,

Na fita do tempo.

Longa é a lista

Não são de agora 

Os prantos

E os mistérios

Da pandemia

De domínio e de conquista,

Tal como outrora.
PEQUENINO

Invisível

Inteligente

A gente

É o seu império.

A seu critério

Mata

Sem clemência

E escapa

Ao domínio da Ciência.

O MEDO

Neste tempo de clausura

Tudo bota faladura

A falar do que não sabe.

Fala o Papa, fala o cura

O sacristão e o abade

O civil e a autoridade.

...NOVA QUALIDADE...

Quando estava no activo

Na minha profissão docente

Usava vocabulário decente

Pois da missão era cativo.

TENTAÇÕES

Na nossa cultura e viver coletivo tudo o que se desvia do social normativo, põe na boca da generalidade das pessoas um "credo", um "abrenúncio" ou a expressão "coisas do demo".  

ORIGENS

Tambores Moçambique/1963

Estou em Tete. Ano de sessenta e três. A noite promete e saio mais uma vez da cidade. Sozinho, à espinheira atento, sigo o meu caminho e penetro mato dentro. Temerária é a mocidade!

MITOLOGIA HODIERNA

Minotauro se dizia

Daquele monstro que havia

Na antiga ilha de Creta.

NATAL

Cumpre o mundo seu fadário

No fio do tempo rolando

Presépios vão recordando

O que morreu no Calvário

A FORÇA DA MEMÓRIA

Estranho é o ser humano

Nestas suas andanças pela terra

Basta estudar o passado

De tanto século, dia ou ano.

ONDAS DO MAR

Em 2014 publiquei no meu mural do Facebook a versalhada que se segue. Dei-me conta, hoje mesmo, que não estava alojado neste meu espaço. Passa a estar.

CHAIMITE

Viva o Chaimite,...Pim!

A viatura

Que pôs fim

À ditadura.

BERETTA


De pé, na vertical ou deitada,

Inclinada,

Na horizontal que seja

NATUREZAS MORTAS

Saídas da paleta e pincéis
De artistas de nomeada
Emolduradas 
Pintadas
Segundo os gostos seus
Enchem as galerias e museus
Do mundo.

POESIA POPULAR

Retomo as "décimas populares" às quais me referi há dias, desta vez para mostrar que, muito à maneira medieval das "cantigas de amigo", o poeta assumiu o papel feminino e falou como se mulher fosse. Nesta "décima" refere-se aos "três vinténs" que uma moça, contra a vontade da sua mãe, deu ao "guedelhudo" que lhe apareceu e de quem se agradou. Já em crónicas anteriores referi que os "TRÊS VINTÉNS" eram um tesouro que toda a menina e família que se prezasse "devia levar ao altar". Outros tempos....outros tempos...outros tempos. Olhem! reparei agora que repeti a expressão TRÊS VEZES!


O FOGO 

Relâmpago ocasional
Caído do céu
Ofuscando o sete-estrelo,
Ou raio de pensamento
Australopiteco ou Neandertal…

AGASALHO DA SERRA

Aquilino Ribeiro filiou a capucha serrana no capuz turdetano. E, seja verdade ou não, eu usei esse agasalho, enquanto fui serrano.

SEMENTES DE AMOR

Nesta margem do rio

Agarrado

À rabiça do arado

Lavro a terra 

Cansada de pousio

Cheia de vida

Ansiosa por ser arada

E produtiva.

OLHAR DE VER, CONHECER E SENTIR

PARTE - I

Rodeado de flores, olhos ébrios de cores, narinas afogadas em odores amarelos, lilases, brancos, castanhos, cinzas e pútegas por perto a espreitar na terra, ocultas sob esta casaca de toureiro e dalmática cristã, eis-me, nesta ode pagã, remoçado pegureiro, lembrado do prazer de correr e explorar os montes, vales, rios, fontes e serras...a doçura delas, mamas cheias prontas a chupar, corpos dispostos à entrega e a regalar quem regalos não tem. E nesta minha idade de 79 anos, rio-me disso tudo. Carrancudo? Nem pensar.

OS SEIOS

Aos olhos do poeta o seios são sempre belos.

TELAS

 

São da minha autoria

Cada fotografia

Que mandei passar à tela.

Fê-lo a Elisabeth, pintora

Uma senhora

Que conheci há pouco tempo.

NATUREZA VIVA

 

Saída da paleta e pincéis

De artistas de nomeada

Pintada

Segundo gostos seus

Enche galerias e museus

Do mundo.

FRUTOS DA TERRA

GERINGONÇA

Com significado pejorativo

Uns certos amigos da onça

Batizaram de geringonça

O actual processo governativo.

No mundo há de tudo,

Há o feio e há o belo.

Há a alegria e a tristeza

Há o sonho bonito-surpresa 

E também o pesadelo.

 FILHA DA MONTANHA

Gerada e criada 

Longe da afetividade humana

A filha da montanha

Despede-se da mãe

Inicia a caminhada

Disposta a enfrentar

Ventos e marés

Para não mais parar

E, por carreiros e caminhos,

Receber pontapés

E também,

Afagos e carinhos.

CARRINHO DACTÍLICO

 

Fingem que não ouvem, nem leem

Todos eles perderam a vergonha

Mas p’ra mim de carrinho vêm

Pois bem lhes conheço a ronha.

GUICHÊ

Com o título em epígrafe, no longínquo ano de 1968, na não menos longínqua cidade de Lourenço Marques, irritado com o desempenho de algumas repartições públicas, escrevi um texto onde expus o que ouvia, via e sentia. Isso prova que a minha luta contra BUROCRACIA e BUROCRATAS tem barbas. Assim:
NATAL

Natal!

Todos sabemos que é Natal.

Não passaram já outros Natais?

ELES ESTÃO A IR


Dia a dia

Eles estão a ir.

São eles

Aqueles

Que eu ouvia

Na telefonia

Enquanto estudava.

ORTOGRAPHIA

No mundo real

Do reino humano

Animal e vegetal

Em constante mutação

Não há sábias tretas,

Ilustrada cagança

Ou distinta opinião

Que, para reinar,

Possam aqueibar, 

O animal selvagem

Do reino das letras:

A ORTOGRAPHIA:

HIPOCRISIA SANTA

ENSINO À DISTÂNCIA

Passou-se algum tempo sem eu ter "novas" do meu ex-professor e saudoso MESTRE DR. Francisco Cristóvão Ricardo. Foi, portanto, com grande alegria e proveito que recebi na minha caixa do correio, um "Olá, Abílio, há muito que não nos "vemos", para me penitenciar deste silêncio, envio-lhe o meu último "passatempo", em anexo, um abraço". 

E sabem qual era o anexo? Qual era o passatempo a que ele alude? Tirando as figuras que o ilustram (que fui buscar ao GOOGE) e os sublinhados a negrito que são da minha lavra, para melhor destaque, era a lição que vos deixo, aqui, tal qual, para cada um de vós ajuizar por si, se é exagero meu, tratá-lo por MESTRE. É-o e, seguramente, assim será até ao fim dos meus dias. Já tenho 78 anos de idade. Olhem só para isto!

TAMANCOS

Sentado

Na escada 

Da minha casa

Montado na asa

Do tempo 

O pensamento

Leva-me ao passado

Distante

Da minha mocidade.

HISTÓRIA VIVA -7

Se vai a caminho da igreja

Na Rua de S. Benedito

Antes de chegar ao fim

Olhe  e veja

O que ninguém viu

Nem foi dito

Antes de mim:

No muro da brasonada

Casa Aguilar

(É só olhar!)

Aparece a amuralhada

Sombra do crasto

Que em Castro  existiu

E, sem deixar rasto,

O tempo engoliu.

MENSAGEM

De repente,

De todo inesperada,

Caiu-me na caixa do correio

Uma mensagem

Gentilmente

Assinada

Por Arménio Vasconcelos,

Cidadão

Poeta

Com obra feita

TRILHOS DA VIDA

Assim, bordado

Para mim

Num palmo de linho

Fino

Um lenço de namorado

Encerra o carinho

O afeto e o sentimento

Que o destino

Desviou do casamento.

SEM FRONTEIRAS

Sem fronteiras

Se diz ele, o aniversariante.

A CAPUCHA

Quem vai ali
Agasalhada assim
Naquele manto de burel?

A PETISCADA -1 

Nestas últimas, penúltimas e antepenúltimas crónicas cirandámos pelo último quartel do século XIX. Falei da poesia popular, de autor anónimo, métrica e rima descuidadas, temas vários por si tratados, nomeadamente o ano em que ele assentou praça (1871) ao serviço de D. Luís, como soldado. Claro que, poetando ele daquela maneira (a sua obra excluída estaria, seguramente, de entrar nos manuais escolares, ainda que escola fizesse no auditório português popular e nele perdurasse até hoje, como referi, sobretudo na zona alentejana) e ao situar-se neste ano de 1871, lembrei-me logo das «Conferências do Casino», de Antero de Quental, dos seus sonetos, textos sociais, de literatura pura, que ele cantou e a mim me encanta. Depois falei do tabelião (Antero, poeta e escritor de renome, outro escrivão anónimo de província)  que, passada uma década (certamente filho da mesma escola coimbrã) assentou arraiais nesta vilória de Castro Daire, para daqui, no desempenho do seu ofício, viajar até aos Açores, dali para Tabuaço e, depois, retornar a esta santa terrinha.

TUDO O QUE VEM À REDE É PEIXE

Há anos que cirando por trilhos e veredas serranas, que visito aldeias e povoados, falando com toda a gente à procura de documentos orais  e escritos, papéis velhos, manuscritos ou impressos. E foi nessa minha romagem pelo concelho que, em 1995, me chegou às mãos um maço de folhas, formato 34x22,5 cm, nas quais, de alto a baixo, estão manuscritas, em duas colunas, umas tantas décimas populares, isto é, composições poéticas constituídas por um mote (quatro versos) glosado em estâncias de dez versos, rematando cada uma delas com um verso do mote. Composições ainda muito em uso nos meios populares alentejanos (procedi a alguma recolha delas quando estive em Castro Verde) mas não tanto por estas bandas do Montemuro. As últimas que conheci por cá, e delas já fiz uso algures nos meus escritos, são atribuídas ao Mestre Zé Aveleira, (de Cetos) já falecido há muito.

A NORA

A nora, esse engenho de outrora vindo das arábias, desse povo de coisas sábias
ligadas às matemáticas e à exploração da água de beber e de rega, escondida nas profundezas da terra. Assim o aprendi e assim ensinei com muita simpatia pela inteligência na luta dos povos pela sobrevivência. Um poço aberto num areal, aberto num descampado, dentro ou fora de Portugal, uma roda munida de alcatruzes (é isso que eu sei) não havia deserto que esse povo, arredado das cruzes, deixasse por esventrar e trazer à superfície o líquido que rega e mata a sede. Que dá vida, antónimo de morte. E quem me impede de ler poesia naquela vida dura de burro, de burra ou de camelo, sempre à roda do poço, de coleira metida no pescoço e a geringonça que encanta adulto e criança, no seu monocórdico "chiu...chiã...chiu...chiã", desde manhã cedo à noite escura, quem vai sabê-lo, se chora, se canta? Chiu...chiã...chiu...chiã...
No Alentejo havia noras e poços espalhados pelos montes. A água não gorgolejava livre e cantante das fontes, como aqui no norte. Um balde preso à ponta de uma corda, sempre ali ao lado, convidava o viandante, o caçador, o criado e o senhor sedentos a servirem-se. Eu me servi. E lá como cá (que ousadia minha) sempre que bebo água, bebo poesia.

(Publicado no Facebook em 3 de setembro de 2014)

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 ANTIGAMENTE ÉQUE ERA BOM

Nunca me tinha lembrado

Mas tinha que ser um dia

No cumprimento deste meu fado

Escrever em poesia

Uma impensável ode à fome

E nela cantar a barriga vazia

A felicidade de quem não come.

 

VÉU DE NOIVA


Uma vez,

(Foi há muito tempo)

Procurei a minha professora Inês

E soube que ela se metera

E morrera

Num convento.

Sete filhos teve Gabrielina Pereira

Esposa de Salvador de Carvalho

Todos lhes deram muito trabalho

Desde o último até à primeira.

 

PARTIDO SOCIALISTA

O momento político que se vive no PARTIDO SOCIALISTA, partido cujos trilhos nunca perdi de vista e de afectos, leva-me a transcrever para aqui algumas OITAVAS que Luís de Camões dirigiu a Dom António de Noronha sobre «O DESCONCERTO DO MUNDO». Para melhor actualidade alterei algumas palavras que ponho entre aspas e em letra maiúscula, já que este espaço não aceita o itálico. Assim


Fui nova e cortante enxada

Desbravei e cavei o chão

Sou sucata abandonada

Metida assim neste paredão.

Nas tendas de Cujó fui forjada,

Nas tendas dos Camelos e Ramalhos

Todos hábeis a manejar
Ferro, martelos e malhos
Invernos seguidos sem parar.

 

 CRIATIVIDADE VIVA

Que felicidade a minha viver  num tempo em que, tão asinha, a criatividade e o pensamento surgem em meu redor como  escalracho em terreno lavrado: ele  é o poeta, ele é o escritor, ele é o historiador a deixarem-me deslumbrado com tanto labor, com tão variegado saber nestas  cousas de contar, de ler, de escrever e, de forma lesta, divulgar e vender o que presta e o que não presta.



De há uns tempos a esta parte
Surgiu uma vaga de poetas
E escritores dispostos a renovar a arte
De comunicar com as letras.


ABRIL
Liberdade, igualdade, fraternidade
Bandeira de esperança de muitas cores
Qu'é dela?
Que foi feito dessa primavera
Desse jardim de mil aromas, mil flores
Que murcharam, mirraram, morreram
Em quarenta anos apenas?
Onde estão as minhas Tróias, as minhas Helenas?

 

 

SOBE, SOBE, BALÃO SOBE...

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