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sábado, 21 abril 2018 19:17

FILHA DA MONTANHA

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FILHA DA MONTANHA

Gerada e criada longe da afectividade humana a filha da montanha despede-se da mãe, inicia a jornada disposta a enfrentar ventos e marés, para não mais parar de, por carreiros e caminhos, receber pontapés e também afagos e carinhos. 

 

 

E também

Afagos e carinhos.

Nessa sua solitária andança

Tocam-na mãos delicadas de criança.

E os adultos

Letrados e incultos

Quando dela fazem uso

Em qualquer canto escuso

Depois da necessidade cumprida

Própria de toda a gente

Logo a devolvem à vida

Não magoada, não dorida

Mas de tal modo manchada

Que a tornam ao cheiro e a vista

 Repelente.

Corre mundo anos a fio,

O monte, a ravina, o vale

E nua, tal qual

A mãe a pariu

Banha-se extasiada no rio

Indiferente a tudo

(se é que alguém a viu!)

E deixa-se aproveitar

Dócil e mansa

Por peixe graúdo e miúdo

Sem de nada se pagar.

Sem tecto nem abrigo

Aqui se arruma, ali se amanha

E quase nunca descansa.

Não receia o perigo

Nem de noite, nem de dia.

Áspera, rude, serrana

A rolar sem rumo nem tino

Pelo mundo

O tempo e o destino

Se encarregam lentamente

De torná-la mais macia

Mais maneirinha

Mais atraente.

Desgastada e polida

Em qualquer sítio perdida

Chega ao fim da caminhada.

Passa por ela um poeta,

Que sendo, por certo,

Discípulo de Demócrito

Epicuro ou Zenão,

Para além

De fundir o verso

Num cadinho de estilo erótico,

Na sua relação com a natureza

E da natureza amante,

Ao vê-la

Imediatamente pára.

Olha-a de perto

Inclina-se sobre ela

Delicia-se com o achado

E, com sensibilidade rara,

Na sua natural e rústica sageza

Sem curar do seu passado

Leva-a feliz para casa.

E num só instante da sua vida

Aquela pedra polida

Não sendo preciosa ametista

Digna de incrustar anéis,

Colares de príncipes e de reis

Viu-se com beleza bastante

Para aumentar a lista

E enriquecer a colecção

Que o poeta tem

De singulares pisa-papéis.

Deixando a vida vária

Que tantos anos levou 

Naquela vida errante

Agora, que tudo passou,

Algo, porém, lhe dói.

Assim estimada e recolhida

Ela, que sempre livre foi

A rolar pelo chão

Repousa, agora, numa secretária

Ou numa estante

A dividir a meias,

A ingrata missão

De agrilhoar palavras e ideias

Mas as da sua vida

NÃO.

NOTA: transcrito do velho site, onde está publicado há anos.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.