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sexta, 20 outubro 2023 16:28

O HOMEM E A NATUREZA

Escrito por 

GLOSA DA BALADA «A NEVE» DE AUGUSTO GIL

Bate forte, fortemente

Como quem chama por mim

É a chuva, não é gente

E só a chuva bate assim

Quando cai num repente.

chuva

Ainda há pouco, poucochinho

Quando na biblioteca eu lia

Nada em redondo bulia

E eu em silêncio seguia

O enredo do romancinho.

 

Quem bate, assim, fortemente

Com tão estranha natureza,

Que tão bem se ouve e sente? 

É a chuva, não é gente, 

E vento também com certeza.

Fui ver. A chuva forte caía 

Em bica do plúmbeo céu

Abundante, puxada e fria... 

- Há quanto tempo a não via! 

E que saudades, Deus meu!

 

diospiros no chãomostajos no chãoOlho-a através da vidraça. 

Pôs todos os frutos no chão

Não passa gente e se passa

Ocorre-lhe ao pensamento

Algo estranho, uma desgraça

De ver caídos, fora de tempo

Diospiros e mostajos, no chão.

 

 

Fico olhando esses sinais 

Das climáticas mudanças

E noto, sem notas mais

Aquelas belezas naturais

De tamanho adulto e de criança.

Sem folhas, ali caídos

A terra deixa inda vê-los

Redondinhos e coloridos

Espalhados a esmo no chão.

 

melropassarinhMas nos tempos que lá vão

Alimento eram de passarinhos.

A chuva as árvores despia 

Mas os frutos ficavam nela

De cor laranja ou amarela

O gado alado de longe via

O manjar da noite e da ceia.

 

comer-3Que eu, militante pecador, 

Deixe de comê-los, enfim…

Mas os passarinhos, Senhor

Porque lhe dobrais o labor

Porque os matais assim?

 

Sem sair deste meu chão

Vejo o globo terreal

E nada do que vejo me encanta.

Cai chuva no meu quintal

Caiem bombas na terra santa

Bíblico campo do Armagedão.

 

rosaE uma infinita tristeza, 

uma funda turbação 

entra em mim, fica em mim presa. 

Mata o homem a Natureza 

O  homem a si mesmo se mata

E ante tanta crueldade

De olhos postos em Gaza

Pergunta o meu coração.

Onde está a HUMANIDADE?

Abilio/19/10/2023

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.