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quinta, 13 fevereiro 2020 09:56

NOITE AFRICANA

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ORIGENS

Tambores Moçambique/1963

Estou em Tete. Ano de sessenta e três. A noite promete e saio mais uma vez da cidade. Sozinho, à espinheira atento, sigo o meu caminho e penetro mato dentro. Temerária é a mocidade!

 

Arte-4A guerra não chegou ainda a esta terra quente e abrasadora. Cá, como se diz e eu já vi, não chegou a civilização, o combóio, a automotora, algo que deslize sobre carris como em Moatize, a vinte quilómetros daqui, onde há minas de carvão. Abeiro-me do Zambeze, rio cheio de jacarés com os olhitos de fora, atentos a quem passa. Corro alguns perigos! Mas não. Não vou à caça. Não me meto na savana à procura de palmarés. Não vou caçar troféus para exibir aos amigos dos outros e meus.

Vou sondar os segredos, a magia e os medos da noite africana. Longe ruge o leão. Perto chora a hiena, volta e meia a rondar a casota, aldeia, a palhota grande e pequena: o desatento mufana bem pode servir-lhe de ceia. Algures, o tambor, no seu rufar constante é o coração palpitante da noite fascinante de quem a vive e a sente: tantam...tum...tantam... tantam...tum...tantam.. Longe, muito longe, no firmamento eterno, estão os astros celestes. Que imensidade! Penetrar no escuro quente de uma noite destas é voltar ao útero materno, ao berço da Humanidade. Tambores... tambores... tantam...tum... tantam.. tantam...tantam....

mulher.2É batuque? É mensagem? Que queixumes, que dores, que apelo, que açoite, que sinal propagam, que parto anunciam a esta hora da noite? Nada sei de comunicação. Nada sei de semiótica. Para mim, ignorante, esse som distante é somente animação: é corpo bamboleante, a cheirar a catinga. É corpo que não se cansa, que se contorce, que ginga, que salta, que dança a dança erótica da iniciação, do casamento, da tradição tribal banta em estranho movimento. É dança que embebeda, que inebria, que encanta (do terreiro ninguém arreda) que põe os dançarinos, velhos e meninos em delírio, delírio profundo, e nesse seu estado os antepassados trazem do outro mundo, regressados por essa via ao seio da tribo, ao seio das seitas, retornados do exílio, sem passaportes carimbados, os espíritos que não mentem, o passado recriam e os vivos aliviam das angústias e maleitas que bamboleando sofrem, que bamboleando sentem.

Tambores... tambores... Tantam...tantam.. É batuque? É mensagem? Que queixumes, que dores, que apelo, que açoite, que sinal propagam, que parto anunciam nesta hora da noite?

NOTA: PUBLICADO HÁ ANOS NO MEU VELHO SITE «TRILHOS SERRANOS.COM» E «MIGRADO» HOJE MESMO PARA ESTE NOVO ESPAÇO.

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.