Trilhos Serranos

Está em... Início Poesia CALDO DE AFETOS
quarta, 09 novembro 2022 13:42

CALDO DE AFETOS

Escrito por 

DESILUSÃO

Seria ela? Vi-a, pareceu-me ser, mas não perguntei. Duvidei. Passaram muitos anos sem a ver. Aquela senhora, à minha frente, “tente não caias”, com calças, (sempre e vi de saias) com visível dificuldade na mobilidade, desempenada e robusta que foi outrora, tinha agora andar de ganso, ancas a pedirem descanso, sinais evidentes fadiga, de estarem velhas. Uma velha. Vista de frente, de trás ou de lado, as pernas lembram-me aduelas arcadas e desconjuntadas de pipa rejeitada, aros lassos a esguicharem em todas as direções o vigor e a vida que tiveram a cada passo dado, em tempos idos.

 

ganso-muler-2Não. Não era ela. Aquele corpo frágil não podia ser daquela menina, aquela donzela ágil e bela que beijei e que amei na mocidade, idade em que eu e ela, sem relutâncias nem medos, pinchávamos como cabritos por cima dos penedos, lá, na serra, nesse tempo distante, ignorante da chatice, das dores e sinais de velhice, o ranger das articulações dos joelhos e quadris a chiarem uis e ais como gonzos de dobradiças ferrugentas de portais de Igreja, de castelo ou alcaria serrana abandonadas, sem bafo de animal ou de gente.

Não. Não podia ser ela, aquela figura esculpida com peso, conta e medida, escorreita, levantado o peito, senhora do seu nariz, a defender agilmente, a seu jeito e arte, o tesouro que possuia de nascença, cofre forte de donzela, ela, qual Joana d’Arc a defender a fortaleza, o castelo, as ameias e mais entradas contra as investidas do invasor atrevido, o Cupido, sempre impedido de arremessar, vigoroso, a seta do seu arco retesado e amoroso. Nem ameias, nem seteira, nenhuma entrada. Com engenho, vontade e arte, sem elmo nem armadura de ferro, ela era mesmo a Joana d’Arc sozinha a defender a sua fortaleza, a sua riqueza, os seus bens, os valiosos “três vintêns” que valiam a honra delae da família.

Não tiro dela os olhos, lembro tudo isso e a dúvida persiste em mim. Seria ela? A ser, eu não queria acreditar. Não perguntei. Preferi na dúvida ficar, fixando-a e nela pousando o meu olhar ternurento de poeta. Não era ela. Era engano.

Todavia, sei lá, passado tanto ano, tanto dia sem nos vermos, sem sombra, nem risco ou traço humano na lembrança da mudança esculpida pelo tempo, esse escultor, esse artista que tudo martela e tudo risca,  sempre disposto a mudar, incansavelmente, o corpo da gente, sempre de escopro e maceta à mão de semear para alterar a obra feita, a toldar-nos a vista, a modificar-nos a nossa fisionomia e identidade (senão mesmo a personalidade), sei lá, seria ela?

ganso-homem-1Mirei-a de cima abaixo. E, pasmado, cheio de surpresa, de espanto, de ternura e dó, dei por mim a ver “dois num só”: eu e ela. Era isso. À minha frente estava um espelho andante e eu a ver e a ouvir o ranger das ancas e dos joelhos, dela e meus. E pela primeira vez, ó céus, senti que estava velho. Muito velho. Aquelas ancas, aqueles joelhos mimosos, pele de veludo, torneados que tateados, beijados e degustados foram por mim, tudo, pela polpa dos meus dedos, estão ali encarauilhados, trôpegos, arcados e doridos.

Sim. Longe vão os tempos que, saudáveis e cheios de elasticidade, de alegria e vigor, cavalgámos ambos, na mocidade, os sonhos do amor, dos desejos e beijos, bolas coloridas de sabão que não resistiram ao sopro do destino, atirando cada qual para diferentes e ignotos caminhos. Separados, partimos e nunca mais nos vimos. Uma eternidade.

Seria ela? Vi, mas não perguntei. Tinha andar de ganso, ancas a pedirem descanso, sinais evidentes de fadiga, de estar velha. Muito velha. Segui em frente. Mas, se ela espelho meu era, ele, espelho, tinha a idade de ambos e, deteorado com os anos, algo me dizia que ele distorcia a imagem refletida. Não. Não era ela, nem era eu. Velhos, assim? ó espelho nosso, ó espelho meu!

Tolo no meio da ponte, concluí hesitante, não sei se com laivos de senilidade: não é ela , a velhinha que ali vai andando ‘tente não caias’, aquela que eu conheci na mocidade sempre de saias. Não usavam calças as mulheres, nessa idade. Mas o espelho que me apareceu pela frente, inesperadamente, escondendo-lhe os joelhos com calças, toldando-me a mente, não estilhaçou as imagens que, ágeis, cheias de alegria e de vida, se amaram na juventude, as mesmas que, durante anos, naquela genuina e humana atitude (não importa a idade e caminhos andados) guardadas ficaram na eterna galeria das relações e dos afetos humanos.

Lennço-1 - redE, nesta minha galeria, figura também o sentimento retido num palmo de linho bordado, o rendilhado lenço do namorado. E mesmo cheio de dúvidas, sem ela o saber, nem eu saber ao certo se era ela, trópego nas pernas, mas na escrita lesto, lúcido e comovido, guardo a partir de agora também, a figura daquela velhinha que, podendo não ter sido namorada minha, foi seguramente esposa, mãe e avozinha certa, digna da minha atenção e ternura de poeta.

lenço-2redz-10De resto, que outra coisa era de esperar deste lenhador da FLORESTA DAS LETRAS que, de podão em punho, nesta minha lida, em prosa e em verso,  tenho procurado abrir trilhos e clareiras no denso matagal humano do pensar, do sentir e do agir, entrosando história, arte, literatura, poesia e vida?

Abílio/novembro/2022

 NOTA: Este texto é a versão musculada do esquelético e espontâneo poema que publiquei no meu mural do Facebook com o título “DESENGANO”, no dia 06 p.p.  Poema que até ao dia de hoje 09 do corrente mês, recebeu 14 “GOSTOS” e 2 “COMENTÁRIOS”.

O PRIMEIRO, vindo de um amigo de carne e osso que conheço de longa data. Homem do teatro que, há muito tempo, me prendou, em palco, com a peça “António Marinheiro” de Bernardo Santareno, sobre a qual escrevi extensa crónica na imprensa. Disse ele: “Belo texto dr. Abílio! Feliz reviver um pouco o passado de todos nós. Grande abraço, amigo”.

O SEGUNDO: "Muito belo! Parabéns", vindo de um SENHOR ACADÉMICO que já amigo era antes existirem as REDES SOCIAIS. Um daqueles amigos (a quem nunca tive o privilégio de apertei a mão) ele, juntamente com mais uns tantos de igual craveira inteletual e política, contribuíram para a construção das “escaleiras” sobrepostas que me levaram ao pódio «NOTABLE PEOPLE», disponível na INTERNET ( https://tjukanovt.github.io/notable-people) para honra minha e de todos os  meus amigos. Todos aqueles que GENEROSAMENTE reconhecem o MÉRITO ALHEIO, ignorando que, na minha escala de valores, para eles reverte o MÉRITO ATRIBUÍDO.

Para os DESPEITADOS com isso tudo,  deixo o meu complacente siêncio.

 

.
Ler 63 vezes
Mais nesta categoria: « RUGIDO DO LEÃO
Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.