Trilhos Serranos

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quarta, 22 julho 2020 14:04

INSTANTÂNEO POÉTICO

Escrito por 

JARDIM  MUNICIPAL

(21-07-2020)

Aqui sentado no banco do jardim, em Castro Daire, com o rio Paiva ao fundo a deslizar sob a Ponte Pedrinha, depois de São Domingos, pousa junto de mim esta boinha, boieira, lavandisca, galinha de Nossa senhora...tanto nome...e, nesta sua lida, faz-me ver, aos pingos,  a fita do tempo e do espaço. E nela vejo o que escrevi em 2013 sobre esse Rio e tudo em redor dele. Um pedaço de vida e de vidas.

 RIO pAIVA - CópiaUm rio, ora manso, ora bravio, mas sempre rio, a deslizar entre montanhas desde a nascente à foz, irriga terras, gira azenhas, gira mós e leva consigo, noite e dia, até  terras estranhas, a vida do lavrador, do moleiro, do lagareiro, do pastor que nasceram, viveram e morreram entre vales e montanhas.

E, nesse seu curso milenar a caminho do Douro, quanta praga, quanta raiva, levou e lavou o rio Paiva em todo esse tempo? Do lavrador, do moleiro, do lagareiro, do pastor, do camponês, cada um no seu afã, do romper da manhã à noite cerrada, quanto grito mudo e de raiva levou e lavou o rio Paiva até ao Douro?  Tanto trabalho, esforço de mouro, muita imprecação, muito ralho, às vezes mudo, para se ter nada, pois viver era ter tudo.

8Como era? O pastor de pés descalços na serra bravia, desde o romper do dia. O lavrador de tamancos agarrado ao arado na terra lavradia e ora desamparados, ora  agasalhados por uma sebe que aqueiba o vento, eles vivem o dia a dia, e deixam que rio e o vento levem o que na terra, que no rio e que no vento cantam, choram e escrevem.

Presos ao chão do nascimento à morte (eles são tantos) alardeiam o seu desfino, a sua sorte, exprimem o pensamento nas pragas e preces que fazem ao mesmo tempo. Digo-o, não temo. Pragas ao Demo, preces a Deus e aos santos. Basta para tanto que uma trovoada repentina, em Maio, interrompa a vessada; praguejam que nem raio por tudo e por nada,  e, nesse seu viver de praguejar e rezar, nem tempo têm para lerem a poesia da terra a fumegar, do cheiro a pó em júniorredor, da beleza da alvéola de cauda a dar a dar, que sim, que sim senhor, em cima do timão, atenta à larva do chão, atenta à leiva virada, à rima da folha lavrada, da folha escrita assim, nesse pergaminho de séculos a falar da vida camponesa, do amor, da raiva, da alegria e tristeza que ao rio Paiva chegam, deslizando das encostas da serra. Assim noutras eras, assim na minha era.

E assim, tal como disse, aqui mesmo no jardim, onde esgoto a velhice, esta boiínha, ligeitinha, faz pela vida, de rabinho a dar a dar. Ela, num instante, fez-me, voltar a esse tempo distante e lembrar muitos amigos, parentes dos outros e meus e  também, junto à cabine, mesmo à entrada do Jardim, aquele senhor Mateus, engraxador, a quem um dia a minha câmara captou o olhar sincero de um homem simples, de um homem amigo, de um senhor.

 

 

MATEUS-1 - Cópiahttps://youtu.be/9gNv2wIn6jI

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.