Trilhos Serranos

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HISTÓRIA VIVA

Folheio «O mundo de ontem» de Stefan Zweig e deparo imediatamente com uma dedicatória a exalar memórias, afetos,  sentimentos e lugares. Há quanto tempo! Uma centelha de história pessoal vivida na juventude, nunca dita nem publicada. Mas, nesta minha idade sénior, 78 anos de vida andados, a experiência consolidou em mim o ditado popular relativo ao relevo terrestre: «depois de uma montanha, outra logo vem», a dificultar ou a facilitar a jornada do caminhante que, por deveres de ofício, granjeio da vida, ou busca de conhecimento, forçado é a deslocar-se e a vencer distâncias entre sítios, gentes e culturas. O mesmo sucede no mundo íntimo das pessoas e no trajeto de sentimentos, de pensamentos, de amizades, de amores e afetos, quantas vezes rebeldes,  ondulados e desobedientes aos preceitos legais e morais estabelecidos. Não é preciso demonstração. Tudo o mundo sabe disso.

PRIMEIRA PARTE

1 - Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Foi colocado na Escola Preparatória de Castro Verde (Alentejo), fez o estágio na Escola Preparatória Mário Beirão, em Beja, voltou depois à de Castro Verde e, em 1983 regressou ao seu concelho de origem, Castro Daire para lecionar na Escola Preparatória da vila. Conciliando o exercício docente com a investigação voltada para a História Local colaborou em diferentes órgãos da imprensa regional e publicou, em crónicas e em livros, os resultados da sua investigação.

HISTÓRIA VIVA

Nos meados do século XX toda a criança da serra alternava os seus trabalhos de escola com os trabalhos do campo. Cedo se tornava mão-de-obra produtiva, fosse a pastorear o gado - vacas, cabras e ovelhas - fosse a executar qualquer outra tarefa por incumbência dos pais.

MEMÓRIAS VIVAS

De currículo académico e profissional disponíveis na Internet, nele está omissa  (por desnecessária) uma das tarefas que mais gostei de fazer na vida e durante a qual, a bem dizer, me tornei conhecedor dos REALIZADORES e PROTAGONISTAS das "fitas" (uso de propósito a palavra) exibidas nas salas de cinema, nos anos 60 do século XX. Fossem elas importadas da América, de França, da Itália, da Austrália, da índia e por aí fora. Não vou dizer nomes, pois longa e fastidiosa seria a lista. Mas direi que a diversidade cinematográfica a que eu estava habituado em Moçambique (onde não havia televisão) desapareceu do meu campo de visão, apetência e gosto, com a  exclusividade dos filmes americanos corridos na nossa RTP, quando era única e mesmo depois de  haver já outros canais, aqui, em Portugal. Vá lá, ultimamente a RTP1, em alguns domingos consecutivos, lá me levou novamente à India, permitindo-me apreciar aquelas coleantes dançarinas, desde os pés às pontas dos dedos das mãos, acompanhadas daquelas lânguidas e intermináveis canções, tão grandes como o país que é quase um continente. Chegou até mim aquele inconfundível odor a sândalo a que me habituei durante anos. Hei de voltar a eles, quando falar na CASA DAS BEIRAS em Lourenço Marques, onde fui membro da Direção e, em mandato nosso,  acoplámos ao solar da sede, uma sala de cinema, construída de raiz.

MEMÓRIAS


Foi com comoção que vi na SI NOTÍCIAS a homenagem que, na presença de António Costa, Primeiro Ministro, o Governo Indiano fez a MÁRIO SOARES, classificando-o "um estadista a nível global".
NEMÓRIAS

 Ainda eu estava em Tete, quando, lá no topo da cidade, na última rua asfaltada, no lado oposto à Casa Comercial "SEREJO" (com "S"),  foi aberto um BAR destinado a divertimento noturno. Se a memória me não falha (ou o BAR não mudou de nome) era o MAXIME. Ficava convenientemente fora de portas, pois sabido era que, em tal espaço, como é próprio de sítios que atraem a juventude, se misturam baile, sexo, álcoolmúsica, dança e banzé. Explicando melhor a localização:  para o lado do Rio Zambeze, a descer a colina, ficava a cidade de cimento e das ruas asfaltadas. Para o lado oposto, ficava a cidade do "caniço" e das ruas de terra batida. 

BOLO (LIVRO) DE MIL FOLHAS

Quando cada um dos "retornados", civis ou militares, das ex-colónias se põem a folhear o livro das suas memórias encontram, seguramente, saborosas folhas de juventude, de alegria, de amizade,  de confiança, de camaradagem, de esperança num futuro ridente e de sorte, de mistura com folhas de sabor amargo, hesitação, solidão, morte, desengano, velhice e futuro incerto.

O FACEBOOK É UMA LIÇÃO - PISCA-PISCA

Quando me criei, em Cujó, não havia energia elétrica. Mal caía a noite, fosse em trabalho ou fosse para divertimento num qualquer serão, todos nós, os habitantes, novos e velhos, rompíamos os tamancos a dar pontapés no escuro. Não sei se devo a essa realidade o facto de, ainda hoje, ter horror ao ESCURO. Só me sinto bem em lugares bem iluminados e, de certo modo, acompanhado de pessoas que resplandeçam alguma luz.

 

EPITAPHIUM VITAE

A expressão latina "pedibus calcantibus"  foi usada frequentemente por Aquilino Ribeiro nas suas obras com o fim de mostrar ao leitor a forma e a dificuldade do caminheiro serrano romper as distâncias através de trilhos, carreiros e atalhos até chegar aos destinos visados: uma romaria, uma feira, uma aldeia, uma vila, um negócio inadiável.


Pastorinho, monte acima, monte abaixo, nunca esqueci o passarinho empoleirado nos raminhos da urgueira: era o cartaxo. Equilibrado, a pouca altura do chão, naquela sua maneira, naquela sua postura, naquele seu trinado desconcertado natural «...chriu...chriu...chriu...» o cartaxo diferente era da cotovia.

MÁ LÍNGUA

Era uma vez...
Foi há muito, muito tempo quando eu, um artolas da gramática sabedor ensinava Português nas escolas, tal qual mandava o programa, nos cursos diurnos e noturnos. Certo dia, o assunto da lição, tinha de ser, lá recaiu sobre os sinais de acentuação:  o "acento agudo", o "acento grave", o "til" e o "circunflexo". Quatro apenas, quatro somente. Como e onde cada um deles caía ou cobria a letra. Tão simples como complexo era para quem na Língua se inicia e a escrever aprende que escrever não é nenhuma treta..

 

Sem rádio, sem televisão, sem boletim meteorológico informativo, o serrano adulto dos anos 50 do século XX, servia-se do saber de experiência feito para adivinhar o tempo do dia seguinte. E se era um daqueles que tinha aprendido a ler fora da escola, a complementar essa sapiência, botava mão ao "Borda d'Água" ou ao "Seringador" para ver as mudanças de Lua e certificar-se  da melhor altura do ano para sementeiras, plantio ou enxerto de árvores.

O meu padrinho de batismo era agricultor e negociante da gado. Chamavam-no João Caixeiro, mesmo que de apelido registado fosse Camelo. Casado com uma irmã de minha mãe, Maria Leonor, era um santo homem, baixinho, de bigodinho, estou mesmo  a vê-lo. Comprava e vendia vitelos e, por obrigação da tradição, vá-se lá saber as razões da dita, cada compra obrigava  a "beber a cabrita", modo de fechar, sem mais regateio, o negócio entre as partes, com ou sem "rachador" pelo meio.


Dia 25 de Dezembro de 2014. Estou em Lisboa e passeio-me entre o Cais das Colunas e a recém requalificada Avenida das Naus. Dia de sol. Gente para cá e para lá, distingui várias línguas desde as nórdicas às japonesas.


Aldeia  de Cujó. Ano de 1955. No chão uma tampa de chapa solta. Um rapaz de 16 anos de idade ao lado.. Uma ideia. Um caco de telha partida. Um desenho feito sobre a chapa. Uma ma safra. Uma maceta de pedreiro. Uma talhadeira afiada na «Tenda  dos Ramalhos» onde se faziam também enxadas, trilhos para carros de vacas, sovinas, pregos, cravos, brochas de cabeça piramidal, ferraduras para equinos, asininos e outras bestas, testeiras e chapas para tamancos.
Mãos calejadas, tenros músculos afeitos ao cabo da enxada, caneta com que se escreve, ainda hoje, a narrativa camponesa, cada vez com menos protagonistas disponíveis, sinal de que acabou, para muitos, a escravatura e o apego milenar à terra, à pastorícia e agricultura, escravatura que começava obrigatoriamente nos verdes anos de criança e se estendia à idade corcunda e enrugada da velhice. Gerações após gerações.
 
PARA QUEM SE DISPÕE A APRENDER

Na minha juventude, por terras de África, tive de compartilhar com outros colegas de aventura (o governo da vida, nas cidades ou no mato) os quartos que alugávamos em casas particulares que se prestavam a tal serviço, dando cama, mesa e roupa lavada, a mil escudos por mês.


Há muitos anos, para não dizer desde que me lembra, a QUADRA NATALÍCIA, bem ao contrário da alegria que resulta das cores, das luzes e luzinhas, das prendas e prendinhas que parecem alegrar o mundo inteiro, me deixa algo depressivo e ansioso que acabe a festança. Sinto-me rigorosamente um marginal. Quando me pergunto porquê, não encontro resposta a contento, mas creio atribuir isso à contradição detectada, logo em criança, entre o que se dizia do MENINO JESUS, que nascera para salvar o mundo das injustiças e eu não considerar JUSTO andar, descalço, roto, esfarrapado, remendado e às vezes com fome.

PALAVRAS CRENTES COM SENTIDO

"Quantos anos são passados? 
«A vida é um ai que mal soa». Agora, quase no fim da jornada, os dois filhos em Lisboa, criados e educados com respeito pela sua personalidade, tolerância bastante com a rebeldia de jovens sempre a quererem mudar o mundo, cabelos compridos a seu jeito, brinco na orelha segundo o seu estético conceito (tão indiferentes, quanto eu, à matriz do diz-que-diz sobre o pentear, o vestir, o ser e o estar, peças que não encaixam no lego da cultura paroquial), jovens de um tempo que vê ruir e emergir códigos de condutas e de valores diferentes, tempo de globalização, de fácil comunicação à distância (...) quantos anos são passados, perguntava eu? 



A palavra FILÃO anda por aí de mão em mão, de mente em mente, na boca de muita gente, escrevente e não escrevente, todos cheios de sabedoria, sem todavia, estou seguro, quaisquer deles jamais ter entrado no escuro, mina adentro, gasómetro aceso, em direcção à veia negra do volfrâmio, do minério que fez da geração anterior à minha, e da minha própria geração, toupeiras humanas a esburacar montes, fosse na horizontal ou na vertical.




AS PEDRAS DO LEGO (2)

É imperioso que retome o meu texto AS PEDRAS DO LEGO aqui alojado no dia 13-10-2015. Nele disse que: 

"(...) mal saídas das urnas, expostas sobre a mesa, o Presidente da República, que detesta a cor vermelha, estendeu a mão e ... zás, de uma assentada, pô-las fora de jogo. Estas não encaixam. Tem sido assim há quarenta anos e assim vai continuar a ser. E logo atrás de si, batendo palmas, foi a turbamulta de alguns politólogos, jornalistas, observadores, ólogos, istas e mais doutores. Pois. Essas não encaixam. Nunca encaixaram. Entoam os sábios em coro frenético".



AS PEDRAS DO LEGO (2)

É imperioso que retome o meu texto AS PEDRAS DO LEGO aqui alojado no dia 13-10-2015. Nele disse que: 

"(...) mal saídas das urnas, expostas sobre a mesa, o Presidente da República, que detesta a cor vermelha, estendeu a mão e ... zás, de uma assentada, pô-las fora de jogo. Estas não encaixam. Tem sido assim há quarenta anos e assim vai continuar a ser. E logo atrás de si, batendo palmas, foi a turbamulta de alguns politólogos, jornalistas, observadores, ólogos, istas e mais doutores. Pois. Essas não encaixam. Nunca encaixaram. Entoam os sábios em coro frenético".

LINGUAGEM CAMPESTRE NAS FÁBULAS HODIERNAS

O léxico camponês oral apetrechou a minha aprendizagem falante muito antes do léxico dicionarizado usado por professores, padres e advogados, gente sem calos nas mãos, lavrando e cavando chãos, profissões que não distinguiam enxadas de enxadões. Cedo aprendi o que era e o que significava um APEIRO. Cedo aprendi a lidar com todos apetrechos que o constituíam: o jugo, as molhelhas, as sogas e o tamoeiro. Cedo aprendi que nem todas as vacas davam boamente a cabeça ao jugo. Sobre bestas aprendi tudo. Veja-se a crónica que escrevi no meu velho site sobre a "VACA ROXA", um animal com personalidade e caracter, sinais evidentes de liderança. A companheira, a "Cabana" ia para onde ela ia, lameiras ou moitas, era uma autêntica "Maria, vai com as outras".


Pessoa chegada a mim, que votou PAN, dada a momentosa crise política pós eleitoral, segredou-me, desalentada, que eu estaria a ser injusto, nos meus escritos, excluindo esse partido da hipotética GOVERNANÇA À ESQUERDA. Eu tive de penitenciar-me por não ter aludido à SIGLA correspondente, mas lembrei-lhe que a natureza e os ANIMAIS estiveram sempre presentes naquilo que escrevi, desde a primeira hora. A questão era que eu ignorava e ignoro o posicionamento ideológico desse partido. Mas, para melhor juízo, remeti essa pessoa amiga para o texto que postei nesta página, no dia 24 de setembro, antes das eleições. Transcrevo:


Esta coisa do POVÃO fabricar, nas urnas, as PEÇAS do LEGO com as quais se forma a figura GOVERNO, tem sido um quebra cabeças para os comentadores encartados, sábios académicos e políticos do "staus quo", partidocratas e clientelares.



Esta coisa dos MENTORES clássicos (moldando a aprendizagem e o saber dos seus pupilos, ensinando e educando) persistirem nos nossos tempos através dos COMENTADORES ENCARTADOS, mas com objectivos diferentes, irrita-me. Em vez de ensinarem e educarem, deseducam e embrutecem. Isso irritar-me, mas que importa?



Desde o dia QUATRO deste mês que têm decorrido alguns acontecimentos importantíssimos no solo pátrio.



Como eles estão incomodados. Como lhes faz urticária a disposição de António Costa dialogar à ESQUERDA. Demitiu-se o jotinha Sérgio Sousa Pinto e logo os "comentaderos" ribombaram a notícia. O natural é o PS encostar-se à DIREITA, fazê-lo à ESQUERDA é "anti-natura".



No dia 07 do corrente, isto é, três dias após as eleições, deixei nesta minha página um texto sob o título "DIREITA/ESQUERDA" no qual preconizei o que a seguir transcrevo:


Curiosas são as coisas. E mais curiosas sãos as memórias retidas desde a infância e as associações que elas nos permitem ao longo da vida, curta ou comprida. 


«O hábito é a segunda natureza do homem», aprendi esta sabedoria, já adulto, nos compêndios de filosofia, feitos por doutores.

Navegando na WWW (olhem como as letras fazem lembrar as ondas do mar) só ontem descobri que António Rita-Ferreira, meu PROFESSOR que foi na Universidade de Lourenço Marques, faleceu o ano passado. Um amigo seu, que com ele privou aqui, em Portugal, depois da DESCOLONIZAÇÃO, faz disso circunstanciada notícia.

E a rematar esta série de apontamentos sobre Tete e feitos a propósito da foto de uma LOCOMÓVEL A VAPOR e da minha deslocação à Missão Jesuíta de Boroma, (Tete, Moçambique, em 1962) na categoria sócio-profissional de guarda-fios dos CTT, para pôr em funcionamento o telefone daquela Missão (telefone de manivela de uma só linha aérea!) a senhora Dona Lina Maria Zagalo Neves, que foi residente naquela cidade de África, além de postar a foto daquele equipamento industrial na página do Facebook «PICADAS DE TETE» sabedora da minha ida àquela Missão Religiosa, quis prendar-me gentilmente com uma fotografia, onde aparecem dois homens empoleirados numa escada, que tanto podem ser dois guarda-fios dos CTT como dois eletricistas. Duas categorias sócio-profissionais que, seguramente, eram responsáveis por darem luz ao mundo: uns, através das comunicações e troca de saberes e notícias à distância. E outros, através da energia elétrica que permitia ler e aprender coisas novas pela noite dentro.
  • No dia oito de maio de 2014 tive o privilégio de ser visitado por um casal amigo que conheci em Castro Verde, no Alentejo. Eis o registo que fiz desse dia e do nosso passeio pela Serra do Montemuro.

 

O texto de João Alagoa, do qual tive conhecimento através de Joaquim Santos e que muito gostei de ler, leva-me a fazer um registo relacionado com o MAINATO que tive durante o pouco tempo que residi numa das habitações dos CORREIOS DE TETE, sita nas traseiras do edifício, cuja fotografia foi posta nesta página, a meu pedido, por mão amiga.


Estou em Tete. Estaciono a mota (a minha Honda) na rua principal, dita Avenida, e de costas viradas para a rede que prende as colegiais no recreio, entre as quais uma delas me prende sem rede (passados tantos anos não há razões para que esconda esse anseio), costas viradas, dizia, vou matar a sede, lá arriba, naquele bar sobranceiro. Não há contacto, não há proximidade de meninas do Colégio com rapazes do mundo. Isso só quando, às vezes, em passeio pela cidade, em duas filas com as demais colegiais, vestidinhas de cima a baixo, meia branca a sair do sapato, por freiras acompanhadas, coisa pouca, os nossos olhos diziam o que nunca dizia a boca.

Em tempo que lá vai, era eu criança ainda (como estou bem lembrado) foi numa noite linda, céu muito estrelado, que o saber do meu pai sobre estrelas me foi luminosamente ensinado. Ele, os meus irmãos e eu, na eira da aldeia, ali mesmo à beira de casa, metidos no escuro, todos a olhar o céu, naquele tempo muito duro (vocês nem fazem ideia), braço estendido, ele, como se fosse dia, apontava as estrelas e dizia: 

A PONTARIA

1 - O ARCABUZ

Os meus primeiros treinos de pontaria ao alvo foram feitos com um brinquedo chamado "ARCABUZ", ou "ESTOIRA BALAS" que nós, meninos dos anos 50 do século XX, tínhamos de construir, servindo-nos das ferramentas e dos materiais disponíveis em redor.


1 - DIA DE NEVOEIRO


Um dia, um daqueles dias de nevoeiro, ora denso ora esfarrapado, acompanhado por chuvinha de molhar tolos, coube-me a mim levar o gado à serra. Moço de 10 para 11 anos de idade, capucha metida na cabeça, eu aí vou afoito a dar conta do recado para os lados do Picoto. Não fui para longe. Abriguei-me da chuva encostado ao penedo do Corucho. As cabras e ovelhas andavam perto. Encolhido de frio, nas redondezas não piava pássaro, nem ladrava cão. Só o tilintar das campainhas penduradas no pescoço das cabras e ovelhas rompiam o manto de nevoeiro, cada vez mais cerrado, cada vez mais um livro aberto onde eu lia narrativas de terror e medo.



Há uma expressão muito frequente entre os devotos de Diana (num contexto pagão) ou devotos de Santo Huberto (num contexto cristão) que julgo não ofender nenhum dos membros que integram o "CLUBE DOS CAÇADORES, PESCADORES E OUTROS MENTIROSOS",  expressão essa que se deve ao facto de acontecerem na caça (e com a caça) peripécias tais que, sendo autênticas, vividas e sentidas por qualquer desses protagonistas, a sós ou acompanhado, parecem inverosímeis ao mais comum dos mortais citadinos que nunca pisaram um tojo ou uma carqueja, afeitos que estão ao macio das passadeiras das grandes superfícies comerciais.
Claro que uma "estória" dessas, contada numa roda de amigos caçadores, tem imediato acolhimento, pois a experiência de cada um deles dita-lhes a veracidade dela. A coisa está, pois, em bem ou mal contá-la. 

 

A IMPORTÂNCIA DA URINA


A maioria dos cidadãos, senão quase todos, que hoje metem a mão no bolso, puxam do telemóvel, dedilham uns tantos números e se põem a falar com um amigo(a), ali mesmo ao lado ou a quilómetros de distância, não fazem a mínima ideia da dificuldade que era duas pessoas porem-se a falar ao telefone, há meio século atrás, em zonas afastadas dos grandes ou médios aglomerados urbanos.

1 - JULGAMENTO

Lá no outro hemisfério, mais propriamente na cidade de Lourenço Marques (que Maputo era e Maputo voltou a sê-lo, coisas da História!) o director de um estabelecimento de ensino particular foi assassinado pela sua própria esposa.
Sentado à secretária, a mulher, que trabalhava no mesmo estabelecimento, entrou escritório dentro e nem deu tempo ao consorte de lhe perguntar por que razões queria ela tirar as balas empilhadas no carregador do revólver e alojá-las no seu peito, dando-lhe reforma antecipada.

 «PÕE, RAPA, TIRA, DEIXA» - 1

Nos meus tempos de criança, qualquer terreiro da aldeia ou troço plano de caminho serrano, podiam servir de tabuleiro ao nosso jogo do "RAPA, TIRA, DEIXA E PÕE". As peças do jogo eram pedrinhas recolhidas nos montes e que guardávamos religiosamente nos bolsos, juntamente com uma piasca de madeira com quatro faces e uma letra escrita em cada uma delas.

SACANAGEM NA SÉ

Não são uns sapatos quaisquer. Comprados para serem usados num casamento, passou o casamento, passaram de moda os sapatos. Mas eles voltaram à moda e a moda perderam novamente guardados numa sapateira doméstica. Sempre novos a entrarem e a saírem de moda. Mas, para além dessa singularidade, tão própria dos nossos tempos (que é tudo passar de moda num ai), a eles se liga uma "estória" duradoura, pouco comum e nada católica, que aconteceu na Sé de Viseu. Uma sacanagem entre amigos.

A minha última foto de CAPA recebeu muitos GOSTOS e alguns COMENTÁRIOS. E ao nome PENICO e/ou BACIO que a minha irmã Elisa ali deixou, numa explicação necessária a muito gente moderna, acrescentei eu outro pelo qual também eram conhecidos estes recipientes domésticos: "DOUTORES".

Feita a 4ª classe na antiga Escola Primária, transitei imediatamente, sem exame de admissão, para o curso da Agricultura e da Pastorícia, sorte que estava reservada a todos os meninos da minha idade, nados e criados longe dos meios urbanos dos liceus e das universidades.
Sem furos, sem faltas e sem diplomas que registassem a avaliação de desempenho, cresci a ajudar os meus pais na luta pela sobrevivência. As cadeiras nucleares do curso incluíam as técnicas de cortar matos e lenhas, lavrar terras e estrumá-las, acarretar o milho e o centeio para as eiras, malhá-los e moê-los para que se pudesse fazer o pão.
Tornei-me nisso, tal como os meus irmãos, numa espécie de catedrático. Sei o que custa alombar com sacos de cereais para os moinhos hidráulicos do Rio Mau e do Rio Calvo e sei o que custa estar de joelhos agarrado a um moinho manual para «arreloar» um «surmil» de milho e fazer umas papas, quando a broa faltava no açafate. Iniciei-me também na arte de pedreiro. Foi assim até aos 18 anos de vida.
O amigo Carlos Lourenço, no Facebook, reagindo à fotografia recentemente postada a que dei o título «A FAMÍLIA», marcou a sua presença escrevendo: «Bons tempos professor, tempos esses em k ia aí para sua casa brincar com o Nuro e o Valter. Boas lembranças» e eu, sem menosprezo para os restantes que me deixaram palavras amistosas, sobretudo, referindo-se à minha esposa (falecida), respondi-lhe: «Tenho andado a mexer nos arquivos, desde fotos, a louça, pratos e garfos. O último achado foi um certo número de PIÕES bem usados e, se calhar, alguns deles entraram nas vossas brincadeiras, ó Carlos Lourenço. As pessoas dispersam-se, mas os afectos e memórias as unem. Um destes dias vou fotografá-los e postar aqui o estado em que ficaram. Baraços e e tudo».
Ora cá estão eles. E vê-se bem que os meus filhos e os amigos deles lhe deram bastante uso.

A lareira tradicional da casa serrana,  geralmente sem chaminé, estava encostada a um dos lados do pequeno espaço coberto de colmo, nomeadamente a dos meus pais, em Cujó. Ao lume dela se aqueciam as pessoas, cães e gatos.  Era uma espécie de alguidar quadrado, com piso de pedra, uma laje arrancada ao fraguedo dos arredores e assente em traves de carvalho colocadas a um nível inferior ao das outras traves onde assentava o sobrado, por forma a que este servisse de banco a toda a família.

Penso que era um Tecktel. De cor preta, pelo curto e luzidio,  orelhas de elefante caídas para o pescoço, face e lábios acastanhados, não era um baixote de pura  raça, igual aqueles que por aí andam a varrer o chão com a barriga, tal como os que vejo no Google, aqueles que lhes falta em altura o que têm a mais de comprimento.
O seu dono, João Codovil, era meu amigo e economista de profissão, a desempenhar funções na Câmara Municipal de Castro Verde.
Às vezes caçávamos juntos e ele, face ao olhar pasmado dos outros caçadores quando viam o seu estranho «perdigueiro», logo fazia questão de mostrar o que ele era capaz de fazer, já que, só de vê-lo e à partida, qualquer caçador de perdizes nunca imaginaria tê-lo por companheiro a atravessar lavradios e descampados de espingarda aperrada pronta a disparar sobre a peça de pelo ou de pena que lhe saltasse à frente e ficasse ao alcance da sua mira.


Diana, era o nome dela
Perdigueira, híbrida raça
E em tantos anos de caça
Nunca tive melhor cadela

RETORNO ÀS ORIGENS, DE AVIÃO

LOURENÇO MARQUES-LISBOA

Tudo começou em 1544, quando o navegador português Lourenço Marques, mandado a explorar a costa situada a sul de Sofala, ali aportou e ali deixou o seu nome de pioneiro. Mais nada. A partir daí, terra rica em marfim, foram cem cães a um osso: Austríacos, Holandeses, Ingleses, Franceses e outros que tais, tudo ali ia mercadejar. Os Austríacos fundaram mesmo uma feitoria. Aquilo era deles. Mas, em 1781, os Portugueses, navegam para lá na fragata Santa Ana e arrasam tudo. Fora daqui. E logo negoceiam com os régulos locais, Capela, Matola, Mafumo e, cada um usando da sua habilidade, acordam o senhorio, a vassalagem e a ocupação do lugar que seria o embrião da cidade. Foi ao pé do mar. Enfim, «terras da Coroa», monopólio comercial, capital Lisboa. No ano seguinte, foi fundado o primeiro «presídio» tendo por governador Joaquim Araújo. 
(...)
Cá de cima, de avião, eu vejo tudo, lá ao fundo. Que cidade! Que diferença passados que foram cerca de 200 anos. 

VIAGEM DE IDA (Moçambique)

Em Dezembro de sessenta, o «Pátria» da Pátria me leva rumo a Moçambique. Tive por cama um beliche no porão do navio e passei noites e dias a fio sobre as águas do mar. Ó mar salgado quantas lágrimas do teu sal são lágrimas de Portugal.
Debruçado na amurada, olho o horizonte e a vista perco na lonjura. Passada a linha tropical, navegamos na Zona Tórrida. Para trás ficaram na memória, repositório de tudo o que se narra, os turbilhões e as agonias vividos à saída da barra do Tejo. Agora é melhor. Nem uma onda. Em redor em uma gaivota voa ou ronda por perto. É tudo mar e céu. O ar sabe e cheira a mar. Lá, nos confins do horizonte, em sentido contrário ao meu, uma estrada branca rasga o manto azul do céu. Não é a Via Láctea, a Estrada de Santiago que me habituei a observar nas noites estreladas da minha aldeia, depois da ceia. Larga e esfumada no sítio onde se levanta, torna-se condensada, afunilada e na extremidade brilha a cabeça prateada de um alfinete em movimento. Quantas almas voam ali?  Quantas lá e quantas aqui? O mundo move-se no mar e no ar.

AUTÁRQUICAS EM 1993 E 1997

A minha colaboração no jornal «Notícias de Castro Daire», nos anos que vão de 1993 a 2000, não se limitou aos textos que versavam sobre temas de história local, usos, costumes, tradições, lendas e opinião. Nas suas páginas ficaram também alguns devaneios poéticos em nome próprio e sob o pseudónimo de «Rocha de Castro», o mesmo que utilizei em diversas crónicas no jornal «Lamego Hoje» e no «Horizonte Vilacovense», bem como nalgumas tiras de BD, em cujos balões deixei alguns apontamentos críticos de ocasião, que estão reunidas em livro arquivado no PC (a editar mais tarde ou não) de modo a que «tais preciosidades» não ficassem perdidos nos rodapés das páginas onde marcaram presença. 

Não. Não é o título do belo poema de Pedro Homem de Melo, cantado e recantado pelas grandes vozes portuguesas, que soa bem no ouvido de todas as pessoas da minha geração. Não. Este povo são as mulheres de Cujó que, nos meus tempos de criança, iam lavar a roupa para aquela poça do rio Calvo, a jusante da ponte que existia e existe no caminho que levava e leva aos terrenos de Vale de Carvalho, Touça, Rio Mau, Moirisca, e todos os montes que estavam para lá do Santo António e do Senhor da Livração. Sítio conhecido, agora, como então, por PONTE, aquela passagem que deu o nome ao moinho hidráulico que existe perto dela e, recentemente, ao templete que abriga uma imagem da Nossa Senhora, a SENHORA DA PONTE.
Perguntar-me-ão a razão por que, aos 74 anos de idade, faço esta incursão na memória. Eu dir-vos-ei que é a sina de quem, mergulhado no estudo do passado, esbarra não só com os documentos escritos, com edifícios, solares, castelos e igrejas, casas cobertas de colmo, choupanas espalhadas por lameiros e tapadas, património material construído, mas também com os documentos orais, artefactos arqueológicos de comunicação, tão frequentes nessa «ágora» feminina, onde as mãos das mulheres «bate-que-bate, esfrega-que-esfrega», lavando a roupas suadas do esforçado trabalho do campo, também «bate-que-bate» com a língua, lavavam a vida e os pecados da aldeia.

Lá nos longínquos tempos de minha mocidade, nas costas do Índico, um engenheiro responsável pelos serviços técnicos dos CTT, de Lourenço Marques, dando-se conta que os materiais de comunicação se esgueiravam, à socapa, dos armazéns onde eram guardados, resolveu reunir todo o pessoal técnico e, depois de um logo relambório sobre as responsabilidades de quem tinha de prestar contas por tudo isso, terminou dizendo, muito enfurecido: isto aqui não é nenhuma FALPERRA.

Foi palavra que entrou no meu vocabulário, mas creio que nunca a usei nos meus escritos. E não sei porque carga de água ela me ocorreu à memória nos tempos que correm em Portugal. Qual dos meus amigos poderá ajudar-me a encontrar a razão disso? Uma FALPERRA, vejam só, Portugal uma FALPERRA.

Abílio/Julho/2013

É sabido e consabido que a «descolonização» revestiu mil facetas e mil opiniões, tantas quantas foram os sujeitos por ela responsáveis e as vítimas apanhadas inocentemente na enxurrada. Para poucos, uma certeza, para muitos, surpresa inesperada. Perderam-se «teres» e «haveres», dispersaram-se e perderam-se amigos e outros que, dizendo sê-lo, mostraram pelos actos, que o não eram.    A carta que transcrevo, registada nos CTT, cujo recibo atesta que ela seguiu para o destinatário, mostra bem o comportamento de um desses «amigos», ainda por cima «Comissário da Polícia de Segurança Pública».

Na minha última crónica de memórias falei da recuperação total que fiz de um baú,  não sei se ele era de «torna viagem» do Brasil, ou se era de «retornado» de África. Falei da documentação que nele arquivei, bem no fundo, cujo conteúdo resolvi agora trazer à luz das páginas do mundo.

Falei da exposição que fiz, em 1976, ao Ministro da Justiça de Moçambique e ao Consulado Geral de Portugal, em Lourenço Marques, bem como da ausência de respostas e decisões sobre o caso exposto, que foi a «retenção» do meu carro pelas autoridades moçambicanas, proibindo o seu embarque, depois de cumpridas todas formalidades alfandegárias em vigor e pagos os respectivos impostos de exportação.

Num dos canais pagos da TV, não me lembro, de momento, qual deles (sei é que, por enquanto, ainda me dou ao luxo de tê-lo)  existe um programa com o título "COMO SE FAZEM AS COISAS". É garantido, posso jurá-lo, que esse programa ainda não existia, não tinham ainda sido postos à disposição do mundo estes sofisticados meios de comunicação social, e já eu tinha aprendido a fazer muita coisa, já eu tinha a ideia,  não de saber tudo e de fazer tudo,  mas, com ferramentas muito rudimentares, fazer algumas coisas novas e  recuperar outras fora de uso. Pois a tanto me impelia o gosto, a imaginação e, sobretudo, a necessidade.

Do terraço ou da varanda da minha casa, em Lourenço Marques, vejo o mundo apressado, cada um na sua, confuso a correr pela rua, pelas avenidas, de lado para lado, de banda para banda. Carros camionetas camiões carregados de mobílias roupas almofadas colchões mesas cadeiras famílias inteiras refugiadas dos subúrbios da cidade chegam de todas as partes temerosas da fúria exaltada da multidão negra excitada. Confrontam-se negros e brancos. Que pensamentos que angústias que sentimentos movem tanta gente conhecida que se desconhece? É racismo é ódio recalcado pelo tempo nunca ultrapassados por colonizadores e colonizados apesar de conviverem séculos nos bancos dos jardins nas ruas e esplanadas nas casas?

Cores? Elas são tantas. Tantas quantas os amores e humores da gente que no mundo vive, que o mundo sente.

Das giestas, o amarelo e o branco aveludados. Do carvalho, dos sargaços e de mais arbustos rasteiros, por todos os lados dispersos, o verde nos tons diversos, de aromas, de odores impregnados, à mercê de quem quer que seja, de quem os olha, cheira e vê, pois certo é que há quem olhe e não veja.

O tempo! Que coisa estranha é o tempo! Esse fio invisível e infindável que, de braço dado com o espaço, do infinito vêm e no infinito se perdem. Quem os vê? quem os alcança? quem os mede?