Trilhos Serranos

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quarta, 02 julho 2014 14:16

SACANAGEM NA SÉ

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SACANAGEM NA SÉ

Não são uns sapatos quaisquer. Comprados para serem usados num casamento, passou o casamento, passaram de moda os sapatos. Mas eles voltaram à moda e a moda perderam novamente guardados numa sapateira doméstica. Sempre novos a entrarem e a saírem de moda. Mas, para além dessa singularidade, tão própria dos nossos tempos (que é tudo passar de moda num ai), a eles se liga uma "estória" duradoura, pouco comum e nada católica, que aconteceu na Sé de Viseu. Uma sacanagem entre amigos.



O caso foi que, quando o núbil casal chegou ao altar e se prestava a fazer o juramento do costume, precisamente no momento do enlace, prestes a dizerem o sim, eis o trim...trim...trim...trim...do telemóvel do pai da noiva que tocou, mesmo ao lado dela. Imaginem a situação naquele momento de pompa e circunstância e gozem-na ou condenem-na conforme o vosso grau de ironia e de humor, amigos meus.
Eu vos conto. Dois convidados, com linfa humorística q.b. a correr-lhes nas veias, ambos combinados, resolveram pregar-lhe essa partida: vê-lo atrapalhado no momento em que levou a filha ao altar, ao altar da Sé, tudo em grande solenidade, dava ocasião a comentários "a posteriori". E deu. Naquela altura, nem toda a gente dispunha de telemóvel e foi uma atrapalhação para ele e uma surpresa para os restantes convivas quando ouviram o grilo a cantarolar naquele momento. Não durou muito tempo essa atrapalhação, pois os amigos, atentos aos jeitos e trejeitos da vítima, desligaram oportunamente.
A brincadeira passou, mas ela nunca se desligou destes sapatos, nem vai desligar-se, agora que passou a escrito. Eles passaram de moda e ao que se vai vendo por aí, parece que também passaram de moda os casamentos pela igreja. Não são, pois, uns sapatos quaisquer. Não tarda, por certo, a estarem novamente em moda, pois assim roda este mundo, sempre em mudança. E já agora, amigos meus, com espírito de humor e de ironia q.b., gostam mais dos sapatos ou da brincadeira?

Calados? Pois, pois, isto não tem piada nenhuma, isto foi uma SACANAGEM e, ainda por cima, dentro da SÉ de Viseu. Tal não se fazia naquele momento solene e naquele espaço sagrado. Foi até uma afronta a dois valores pátrios: a primeira atitude, contra os valores cristãos, revela algo de ímpio e cheira a ateísmo militante. E a segunda, a palavra SACANAGEM, para além do sentido, tresanda a telenovela brasileira, «linguage» que é uma afronta à língua pátria. Nem uma coisa, nem outra têm piada alguma. Pois é. É tudo uma «malandrage» o que se vai desenrolando à nossa volta. Tanta cruz de Malta ao peito, um Comendador em cada esquina, isto sem ironia e sem humor, apetece dar corda aos sapatos e cavar daqui para fora, pois, como disse Almada, «isto não é um país. Isto é um sítio. E ainda por cima mal frequentado».

Abílio/julho/2014

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.