Trilhos Serranos

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quinta, 23 maio 2013 17:21

ESPAÇO E TEMPO

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O tempo! Que coisa estranha é o tempo! Esse fio invisível e infindável que, de braço dado com o espaço, do infinito vêm e no infinito se perdem. Quem os vê? quem os alcança? quem os mede?

 

Filhos de deusas, deuses, fadas, parcas, ou de qualquer coisa, sei lá o quê, que todos imaginam, mas ninguém vê, eles deixam as suas marcas por todo lado e em todo o lado põem o seu dedo, o seu pé. Ele é o Sol a marcar o dia; ele é a Lua, a marcar a noite e, unidos ou separados, deram origem ao calendário. O homem, átomo perdido neste universo real e imaginário, dando asas o pensamento, no fadário de medir o tempo, ansioso de agarrá-lo, de espartilhá-lo momento a momento, dividi-lo em segundos, minutos e horas, inventou o relógio. Primeiro o relógio de sol com a geografia, geometria, longitude, matemática e latitude incorporadas em números e graus medidas. Depois outros relógios, outras máquinas, cordas, rodas, engrenagens, mecanismos de precisão sem rodas nem cordas, a marcarem, ao instante, a vida dos povos civilizados, agarrados aos horários dos comboios, das carreiras, dos empregos, das profissões. 

Mas como se entende, então, que, assim dividido e medido o tempo, ao mesmo tempo seja, paradoxalmente, para toda a gente, um fugaz instante ou uma infindável eternidade? Que medida distingue o momento de alegria e felicidade do momento de tristeza e ansiedade? Uma hora converte-se num segundo, um segundo numa eternidade. Quem diz que é o mesmo tempo? O tempo, se calhar, fruto do pensamento, varia com o lugar, com o sentimento e com a idade. Demorado é ele na juventude, acelerado é ele na senectude. Na puberdade, ansiosos de liberdade, desejosos de querermos imitar os adultos, de sermos como eles viajados, livres, vividos e cultos, puxamos apressados pelo fio do tempo. Ignoramos, ou não lembramos, que nesse nosso anseio encurtamos a vida. E, já crescidos, tudo continua assim. Desejamos, apressados, o fim-de-semana, para descansar; desejamos, apressados, o fim do mês para receber o ordenado; ansiamos, apressados, pelas férias anuais, ir às praias, viagens, visitas à família, às mães e pais; desejamos, apressados, o pagamento das últimas prestações do carro e da casa; ditos pessoas livres, dos bancos nos tornámos escravos; desejamos, apresados, ver os filhos criados, crescidos, formados, independentes, felizes e realizados.  

Enfim, feito isso tudo, sempre a esticar o fio do tempo onde se inscreve o ritmo apressado do mundo, calcorreadas todas as estradas da vida, vencidos todos os obstáculos e arrancados todos os espinhos, puídos todos os caminhos, contornados todos os trilhos e quelhos, chegámos ao fim da picada e damo-nos conta de que estamos velhos. E o fio que tanto esticámos, cheio de nós e de laços, o fio onde deixámos marcados os passos, repositório de todos os nossos sonhos e realizações, o fio que enrolou todas as nossas aspirações, alegrias e tristezas, promessas e frustrações da vida, da mentira e da verdade, rompeu-se, acabou, caput, end, chegou ao fim e alguém, vivo ainda, dá o nó cego final, último laço, põe fim à nossa idade.
Mas o tempo e o espaço, é verdade, essas coisas estranhas que do infinito vêm e no infinito se perdem, prosseguem a sua viagem na senda da eternidade. 

Abílio Pereira de Carvalho

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.