Trilhos Serranos

Está em... Início Memórias CUJÓ - RETALHOS DE VIDA
domingo, 21 fevereiro 2016 11:38

CUJÓ - RETALHOS DE VIDA

Escrito por 

O meu padrinho de batismo era agricultor e negociante da gado. Chamavam-no João Caixeiro, mesmo que de apelido registado fosse Camelo. Casado com uma irmã de minha mãe, Maria Leonor, era um santo homem, baixinho, de bigodinho, estou mesmo  a vê-lo. Comprava e vendia vitelos e, por obrigação da tradição, vá-se lá saber as razões da dita, cada compra obrigava  a "beber a cabrita", modo de fechar, sem mais regateio, o negócio entre as partes, com ou sem "rachador" pelo meio.

 Por isso, devido a tais artes, cujas raízes se perdiam nos confins da memória, apanhava pifões de caixão à cova e a cambalear, tente-não-caias, com muros e paredes por vaias, chegava a casa e caía sobre as saias da minha madrinha que o recebia sem uma imprecação,  antes pelo contrário. Da boca dele, repetida como as  contas de um rosário, somente a expressão: "ai valha-me Deus, ai valha-me Deus, ai valha-me Deus", e dela, os afagos e carinhos substituíam as preces e os lamentos. E, entre estas coisas que digo, devo referir que nunca se esqueceram, os meus padrinhos, de me darem o bolo de trigo que era uso de se dar na Páscoa, como folar. Eram também padrinhos da minha irmã Elisa e esta sente-se muito feliz pelo facto da sua filha, Elda Maria, ter dado o nome Leonor, a sua filhota. E garanto que quando a minha irmã chama pela neta não pensa em Leonor Teles ou qualquer outra figura grada da nossa história, mas tão somente na sua madrinha, de Cujó, aquela velhinha que aos afilhados dava miminhos. Questão de afectos às pessoas, aos animais,  às terras e às coisas. Tempos idos.

vitelos-1-2Morava perto da igreja. Tinha um grande alpendre fechado, colado à moradia e juntava ali, de feira para feira, noite e dia, as reses que não vendia. Eu, sempre que podia, virava o cravelho e, ainda fedelho, a eles me juntava. Eles meninos e curiosos como eu, aproximavam-se, cheiravam-me e observavam-me com aqueles olhos grandes como quem observa algo estranho e desigual a si. Creio que, para eles, se bem vi, era eu o animal e como não lhes fazia mal, estendendo-lhes a mão, afagando-lhes a testa e as ventas, despertava-lhes a curiosidade e eles, orelhas atentas, vinham todos à compita e a eito estudar-me o gesto, o jeito e sugar-me também o dedo polegar a pensarem que era o teto da mãe. E, nessa linguagem gestual, não tardava a considerarem-me um igual: rodopiavam, saltavam, torciam o pescoço, olhavam de lado, davam pinotes, arrebitavam a cauda e  voltavam à espera de mais.

vitelos-4Tempo de meninos. E a cada gesto seu e meu, eu virava uma lauda do livro que lia sobre gente e animais. Em plenitude vivíamos juntos  a alegria e a inocência da juventude. Eles a estudarem-me a mim, eu a estudá-los a eles e, desse jeito, nestas coisas com sentido e sem nexo,  eu via por instantes, reflectida nos seus olhos brilhantes, a imagem fugidia de mim mesmo, ampliada e distorcida, como num espelho convexo.

E nessa imagem ampliada eu via-me já adulto. E tal ideia aplicada a todos eles transformava cada um em animal crescido, como os demais animais domesticados que havia na aldeia, afeitos ao trabalho. Não me passava pela cabeça que dali fossem direitinhos para o talho e, sem clemência, em bifes retalhados. Que aqueles meus gestos de inocência fossem os últimos afagos recebidos ali, naquele alpendre, fechados. 

Enquanto isso, cá fora, no patim da entrada, ao lado do grande portão, a apanhar sol, ao colo trazido e levado, com cheiro a mijo e a defunto, num cadeirão sentado, o irmão,  o tio Agostinho, entravadinho, paralítico de todo,  esqueleto retorcido,  pés retorcidos, dedos retorcidos e mãos retorcidas, unhas de gavião, muito compridas,  só pele e osso, cuja vida, neste mundo cão, neste mundo sacana, era ir da cama para o patim e do patim para a cama.

vitelos - RedzSozinho, coitado,  para me reter ao seu lado e poder falar com alguém, contava-me longas histórias, passadas longe ou perto, que só metiam bruxas, lobisomens, adultos e velhos. Eu, sempre irrequieto não lhe dava atenção, não metiam  crianças, por isso as esqueci há muito, não as retive na lembrança. Dele,  só aquela imagem de aleijadinho, sempre a rezar e, conta quem viu, morreu a sorrir, olhos virados ao céu: um santinho. Dele, como dizia, só aquele cheiro a mijo, a sua necessidade de companhia e de carinho, bem ao contrário dos momentos da movimentada brincadeira que retive e tenho com os vitelos-meninos. Tal é a gente, tal somos nós, tais são os registos dos passos dados, vistos e "ouvistos". O tio Agostinho pode ter chegado ao céu a sorrir, como um santinho, mas, crua realidade, não chegou foi com o cheiro a santidade. Que é das Obras Pias? Assistência Pública? Que é dela? O cidadão pagava a décima nas Finanças, cumrpia o serviço militar obrigatório, pagava as licenças do cão e do carro de vacas para transitar nas estradas de terra batida e nada mais tinha com o Estado. Antigamente é que era bom, ouço para aí em certo tom, uma léria, que daria para rir, se não fosse coisa séria.. Não sei por que razão, passado tanto ano, me lembrei de isto tudo, mas, ao lembrá-lo, senti uma necessidade imperiosa de contá-lo nestes meus retalhos de vida e de trabalhos.



Abílio/fevereiro/2016

 

Ler 307 vezes
Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.