Trilhos Serranos

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quarta, 02 março 2016 17:04

CUJÓ - A NEVE E A CAÇA

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Sem rádio, sem televisão, sem boletim meteorológico informativo, o serrano adulto dos anos 50 do século XX, servia-se do saber de experiência feito para adivinhar o tempo do dia seguinte. E se era um daqueles que tinha aprendido a ler fora da escola, a complementar essa sapiência, botava mão ao "Borda d'Água" ou ao "Seringador" para ver as mudanças de Lua e certificar-se  da melhor altura do ano para sementeiras, plantio ou enxerto de árvores.

 A leitura dos elementos naturais respaldava esse saber transmitido de geração em geração. Ele decifrava o tempo na direção das nuvens, nas fumarolas que se evaporavam dos cimos dos montes,  na direcção e intensidade do vento, na nitidez das badaladas do sino local ou das aldeias vizinhas, situadas a nascente ou a poente, na temperatura indicada pelo termómetro que tinha na ponta do nariz, nos dedos e nos artelhos. Aquele frio de tolher os movimentos,  frio de rachar, de fazer gretas na pele, o mesmo que rachava os penedos da serra com ou sem a ajuda do homem através de guilhos ou cunhas de madeira.

Nessas condições, atendendo ao mês do ano, (dezembro, janeiro e fevereiro) vi e ouvi muitas vezes o meu pai, Salvador de Carvalho, farejando o ar, dizer: "cheira a neve, amanhã temos aí um nevão".

E então era vê-lo de vigília noite adiante, a farejar o escuro, a subir e a descer a parte inferior da janela de guilhotina da sala que dava para o seu quarto e para o nosso, lado a lado, separados por uma vedação de tábuas de forro, acasaladas na vertical, graças àquela ferramenta de carpinteiro, chamada "cepo macho/fêmea", que eu vi tantas vezes nas mãos do meu tio João Leonor, a rasgar as tábuas para forro ou soalho.


O meu pai, caçador nado e criado na serra,  conhecedor dos hábitos alimentares dos leporídeos, sabedor de que, mal caía a noite, eles saíam das suas luras e refúgios para saltaricar, esgravatar, atestar o bornal onde quer que fosse e, finalmente, despejar a tripa nos touralhos, regressando, logo depois, consolados e satisfeitos, ao ponto de partida, recolhendo mais cedo a penates por força do mau tempo, ele sabia, o meu pai sabia que, se continuasse a nevar noite adiante, se o tecelão, com tear montado entre as nuvens, não desse por terminada a tarefa até cerca da meia noite, se continuasse no activo a estender o bragal sobre o mundo em redor, depois dessa hora, as pegadas noctívagas não ficavam registadas no chão e, mau caçador era aquele que, ignorando tais sinais, partia para a serra no dia seguinte, qual detective inexperiente, em busca das impressões digitais dos criminosos que assaltaram as hortas e lameiros das redondezas, impressões digitais apagadas por essa via, pela recolha tardia do tecelão ou, combinado, em parceria com o tabelião que se goza de ter o cartório notarial coberto pela abóbada celeste e por escrivaninha tudo quanto é terra chã, encosta ou ravina, em parceria, dizia, entrarem em defesa dessa fauna, pouco se importando com a necessidade do aldeão que, com a ajuda da neve, sem grande esforço e à mocada, via uma ocasião propícia para botar os cinco mandamentos a uma presa de pelo e, assim, ferrar o dente num coelho ou numa lebre.

Se tal acontecesse, se o tecelão do imensurável lençol branco não terminasse a obra a tempo e horas,  se tal lençol, assim fabricado, se estendesse, sem rasgão, sobre todas as formas de relevo, se cobrisse penedos e cómaros, se obrigasse as giestas, urgueiras e as pernadas das árvores a vergarem-se pelo peso, se apagasse todos os pontos de referência, se envolvesse todo mundo em redor, tornando tudo alvo, engolidas as saliências de penedos e arrasados os talhadouros e regos de leiras e lameiros,  tudo submerso e igual para onde quer  que se olhasse, nada feito, para uma boa caçada. 

Se tal acontecia, mais valia ficar a manhã a saborear o quentinho das mantas do que, enrolar as grevas nas pernas, calçar as botas de elástico com sola de borracha virgem, irrompível,  do que e ir bater terreno na Rascoa, no Boi Alvo, no Vale da Fraga, na Corga Seca, no Penedo do Gato e outros sítios sabidos, pois de pegadas a rasgarem o bragal noturno, nem sinal. Tudo branco para onde quer que se olhasse, no chão somente ficariam as pegadas dos caçarretas que, mesmo sabendo isso, tentavam a sorte e arriscavam ser surpreendidos pelos fiscais da Venatória e pagarem a coima correspondente à transgressão.

E disso vos falo. 

Pois aconteceu que pela Câmara Municipal de Castro Daire, passou um zeloso funcionário que foi, durante muito tempo, fiscal de caça: o Amândio, quem não conhecia o Amândio? Ele era tão sabido dos sinais do tempo, como o serrano e, vai daí, cheirando-lhe a cair neve no dia seguinte, tendo por cúmplice um morador nas Monteiras, seu amigo, foi pernoitar a casa dele. Bem pensado e melhor feito. No dia seguinte, encafuados ambos nas capuchas, saem montes fora e não tardou estavam a cruzar-se com outros caçadores. Só que os outros, vendo que aquela área estava a ser espiolhada, respeitando o código das distâncias, não se aproximavam. Cada um andava na sua e assim se passou parte da manhã. Chegada que foi a altura, provado que estava ao que todos andavam, o morador das Monteiras afastou-se para não ser identificado, simulando seguir um rasto e o fiscal, aproximando-se dos outros, disfarçado sob a capucha, pediu auxílio, pois havia ali vários rastos cruzados e ele não sabia qual deles seguir. Os serranos, na sua boa fé aproximaram-se. E tarde viram que tinham caído na tramóia. Eram gente de bem e em vez de uma boa sova, que o fiscal merecia, para não terem mais problemas, pagaram a multa. Mas, descoberto que foi o cúmplice, nunca mais o viram com bons olhos: um traidor! 

A foto singular que se segue, mostrando a aldeia de Cujó e as terras do Giestal cobertas de neve, cujo autor ignoro, pois foi copiada do mural do meu amigo Agostinho Bernardo, que me informou tê-la copiado do "Grupo Cujuenses", deu-me ocasião para escrever este texto, há muito tempo devido aos meus amigos e leitores. Ela aqui fica com a devida vénia e louvores ao desconhecido autor, pois tendo eu fotografado e filmado aquela minha aldeia sob todos os ângulos, incluindo daquele, como o atestam os vídeos que tenho alojados no Youtube, jamais a tinha visto assim vestida. Aos 76 anos de vida, ainda vi a minha terra natal como nunca a tinha visto. Foi tirada da Serra da Lestra, em Dezembro de 2010, tal vejo navegando no GOOGLE.

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Abílio/março/2016

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.