Trilhos Serranos

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quinta, 16 novembro 2017 17:28

O PASTORINHO E O LOBO

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HISTÓRIA VIVA

Nos meados do século XX toda a criança da serra alternava os seus trabalhos de escola com os trabalhos do campo. Cedo se tornava mão-de-obra produtiva, fosse a pastorear o gado - vacas, cabras e ovelhas - fosse a executar qualquer outra tarefa por incumbência dos pais.

PENEDO-2 Um dia, um daqueles dias de nevoeiro, ora denso ora esfarrapado, acompanhado por chuvinha de molhar tolos, coube-me a mim levar o gado à serra. Moço para 10 ou 11 anos de idade, capucha metida na cabeça, eu aí vou afoito a dar conta do recado para os lados do Picoto. Não fui para longe. Ali, à beira do caminho que leva ao Morgado, abriguei-me da chuva encostado ao penedo do Corucho. As cabras e ovelhas andavam perto. Encolhido de frio, o tempo não se prestava para a habitual brincadeira no «escorrega granítico», ali mesmo ao lado, nem tão pouco por ali andavam outras almas da minha idade com quem pudesse brincar e passar o tempo. Nas redondezas não piava pássaro, nem ladrava cão. Só o tilintar das campainhas penduradas no pescoço das cabras e ovelhas rompiam o manto de nevoeiro, cada vez mais cerrado, cada vez mais um livro aberto onde eu lia narrativas de terror e medo.

            Chão de mato roído, o gado lambisca a erva molhada  que distraidamente aflora do solo. Nos giestais próximos meia dúzia de pegas grasnam sem cessar. O nevoeiro tolhe-me a visão. Mas elas não se calam. Mau agoiro. Tinham razão. De repente ouço o tilintar da guizalhada e vejo o gado tresmalhar-se sem direção. Não deu tempo para mais.

lobo-1redÀ minha frente, a dois passos de mim, está a razão de todo aquele alvoroço: um lobo. Um bicho de respeito. Cauda a varrer o chão, na ânsia de arranjar o jantar, em pleno dia, a coberto do nevoeiro, veio a direito e mostrou bem ao que vinha. Obedecendo a um impulso instintivo levantei os braços e procurei gritar, dar sinal que estava ali gente, atemorizá-lo, mas fiquei tão mudo quanto o penedo que me abrigava. A voz não me saiu da boca. A fera, que viu o meu gesto, não pensou duas vezes. Deu às-de-vila-diogo e, creio que tão assustada quanto eu, sumiu-se tão rapidamente como apareceu. Mas eu é que não estive para mais contemplações. Juntei o gado, conduzi-o à povoação, meti-o na loja e justifiquei a razão do meu procedimento. O medo devia estar-me chapado no rosto, pois a minha mãe contemporizou:

- Fizeste bem, meu filho, vai ao palheiro de bota-lhe um molho de fieitos. Foi melhor isso do que ficarmos sem uma rês.

Assim fiz, mas o medo foi tanto que passei a sonhar frequentemente com lobos. E passados que são tantos anos, não raras vezes me sinto identificado com o bicho que tal susto me pregou e, mesmo solitário e em vias de extinção, como ele, não me canso de uivar sozinho por estas bandas do Montemuro.

NOTA: publicado em 2005 no meu livro «Memórias Minhas» e no meu antigo site «trilhos serranos» s/ ilustração.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.