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terça, 02 dezembro 2014 14:48

JUIZ QUE SE CANSOU DE SÊ-LO

Escrito por 
Abílio Abílio Abílio

1 - JULGAMENTO

Lá no outro hemisfério, mais propriamente na cidade de Lourenço Marques (que Maputo era e Maputo voltou a sê-lo, coisas da História!) o director de um estabelecimento de ensino particular foi assassinado pela sua própria esposa.
Sentado à secretária, a mulher, que trabalhava no mesmo estabelecimento, entrou escritório dentro e nem deu tempo ao consorte de lhe perguntar por que razões queria ela tirar as balas empilhadas no carregador do revólver e alojá-las no seu peito, dando-lhe reforma antecipada.

Tombou morto, naquele instante. As autoridades policiais e judiciais tomaram conta da ocorrência, a mulher foi detida e interrogada, os autos avolumaram-se com  papel bastante no apuramento da verdade e chegou-se ao dia do julgamento, que se desdobrou por várias sessões. Numa delas, por razões justificadas, um dos elementos do tribunal teve de ausentar-se e o juiz,  para não interromper a sessão, chamou um cidadão da assistência para ocupar o lugar vago, ficando,  assim, o "tribunal" em condições formais de prosseguir os trabalhos.

L.MarquesA partir daí  foi para mim claro (eu estive presente em todas as audiências) que  a defesa do falecido ficou prejudicada, pois as testemunhas arroladas a favor da ré não eram confrontadas com perguntas da parte contrária. O elemento substituto não tugia nem mugia. Semelhantemente a ele só alguns advogados nomeados "defensores oficiosos" que por aí proliferam hoje nos nossos tribunais que, a expensas do Zé Pagante,  assistem ao desenrolar dos trabalhos  e, no fim de tudo, levantam-se muito solenemente, ajustam a toga aos ombros  e, muito circunspectos, " pedem justiça". 

Acabado o julgamento a ré foi condenada a uns tantos anos de prisão e o juiz partiu para outra. Lá, como cá, os processos cobriam-se de pó nas prateleiras e arrastavam-se anos nos tribunais, alguns com a conivência dos escrivães que, na pilha deles, tinham o zelo de a uns sobreporem outros conforme o interesse manifestado por uma ou pelas duas partes. Na minha aldeia cedo aprendi, com os mais idosos, que havia "muita maneira de matar pulgas". E a morosidade da justiça, crónica em Portugal, deve-se, em muitos casos, à subtil teia em que os seus tecelões a enredam. 

2 - A FORÇA DA CONSCIÊNCIA

O juiz era uma figura a atirar fisicamente  para o asiático. Baixinho, magrinho, rosto ornamentado à Ho Chi Min, vim a encontrá-lo um dia sentado à mesa de um café que ficava no mesmo edifício onde funcionavam, na altura, antes da construção do "Campus Universitário", as faculdades de Letras e de Ciências. Apresentei-me como professor do estabelecimento de ensino cujo director fora assassinado pela senhora que ele mandara para a cadeia, havia pouco tempo. Que sim, senhor. Ele estava a preencher uns impressos de matrícula e eu perguntei-lhe se era algum filho seu que ia entrar na universidade. Que não. Era ele próprio que estava a matricular-se em Veterinária. O quê? Que me diz, Meritíssimo Juiz? É isso mesmo, cansei-me de lavrar sentenças contra as minhas convicções por força da matéria lançada nos autos. Ordenam-me os códigos que assim proceda e decida, mesmo ciente de que o juízo proferido assente num chorrilho de mentiras. Vou formar-me em Veterinária, lidar com animais, dar-me com eles e viver em paz comigo mesmo, com a minha consciência.

 Fiquei sem palavras, mas ciente de que, antes de morrer, num qualquer canto do planeta, eu poria em letra de forma a minha simpatia por este seu gesto, por esta sua atitude de  humanidade, franqueza e humildade.

O 25 de Abril e a consequente descolonização levaram a que pessoas amigas e/ou conhecidas que  frequentemente se encontravam nos cafés "Scala" e "Continental",  naquela axadrezada cidade do Índico, deixassem de fazê-lo. Nunca mais vi esse cidadão. Mas,  face a esta novo espaço W.W.W. que também serve para encontrar pessoas que se perderam nos trilhos da vida, admitindo que ele tenha completado o novo curso e não excluindo a hipótese dele poder vir ler este texto, eu, rural assumido, que nasci e cresci no campo ligado à natureza e aos animais, que vi um veterinário salvar uma vaca do meu pai, a vaca "Roxa"*, dada como morta por causa de uma mamite depois de ter parido, é com todo o prazer, interesse e simpatia que lhe pergunto:

- Como vai o gado, Senhor Doutor?

Abílio Pereira de Carvalho

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.