Trilhos Serranos

Está em... Início Memórias A SURPRESA
sábado, 07 junho 2014 09:37

A SURPRESA

Escrito por 

A minha última foto de CAPA recebeu muitos GOSTOS e alguns COMENTÁRIOS. E ao nome PENICO e/ou BACIO que a minha irmã Elisa ali deixou, numa explicação necessária a muito gente moderna, acrescentei eu outro pelo qual também eram conhecidos estes recipientes domésticos: "DOUTORES".

 

Nunca soube a razão disso, nem curei tão pouco de sabê-lo, mas não deixo de registar que, sendo eles muitos e poucos os doutores no tempo em que eram usados, à medida que eles foram desaparecendo, remetidos para as estantes da HISTÓRIA, apareceram fornadas e fornadas (curiosa palavra esta, "fornada" ligada a fornos, a louça, a olaria) de outros saídos de instituições que, após um ano de estudo e de um trabalho escrito em folhas A4, passaram a antepor ao seu nome de baptismo um "Dr" e serem conhecidos por "doutores" e com esse apêndice, digamos que, nem todos, mas alguns que conheço, saíram debaixo da cama, tomaram a forma humana e felizes, alegres e contentes, passeiam o grau académico, o recheio em postura ufana, um mal endémico. São quase uma anedota. Mas anedota, anedota aí vai uma contada nos meios académicos, quando os alunos de LETRAS gozavam com os das CIÊNCIAS, nomeadamente com os que seriam futuros médicos.

Então era assim: uma casal camponês, tinha um filho pequeno, do tempo em que o penico se guardava na mesinha de cabeceira ou debaixo da cama. Um dia ofereceram-lhe um balão proibindo-o de brincar com ele dentro de casa, que não passava de uma pequenina sala e um quarto. Mas a criança não resistiu à tentação e, pais fora de casa, toca a atirá-lo ao ar, a vê-lo subir e descer, a dar-lhe novo toque e assim se entreter, como ainda faz qualquer criança dos nossos dias.
Mas eis que, inesperadamente, o retorno da mãe sente. Assustado, procurando evitar uma reprimenda, atirou-o para baixo da cama, de modo que a mãe não descobrisse a desobediência. Aconteceu que o balão, a voar, foi aninhar-se dentro do penico e o que trouxe a mãe a casa, de retorno repentino, foi exactamente a necessidade de fazer uso dele. Correu, estendeu o braço, pegou no penico sem olhar (tal era a prática e a pressa), pô-se a jeito e pfupfupfupfu...pfu...pfu...pfu..., despejou os intestinos e as dores que a incomodavam. Uma diarreia dos diabos. Quando se virou para observar o resultado viu o penico cheio, com um cogulo arredondado, mistério nunca vista nem imaginado, o que a levou a dar um grito: "puta que pariu, que raio de coisa é isto, que da minha barriga saiu?"
Aliviada, mas intrigada, embrulhou tudo muito bem num pano de linho caseiro, meteu o penico num cabaz igual aqueles que se levavam para as romarias, e foi-se ao médico. Contou-lhe e mostrou-lhe tudo.
Ele era um profissional experiente, com muitos anos de prática, e frente à novidade, cheira, mira, remira, volta a cheirar, a mirar, remirar e a cheirar, olhos esbugalhados, fazendo caretas, esgares, e voltava cheirar, a mirar e a remirar, sem dizer palavra. Pegou numa pinça e tocando-lhe ao de leve, constatou que a superfície redonda cedia à pressão e retomava a forma inicial logo que retirasse a pinça. E de experiência em experiência, de toque em toque, face a ansiedade da senhora, nada dizia. A páginas tantas deu por findo o exame: uniu as pontas da pinça, à laia de bico de pica-pau, e zás, empurrou com força. Face a esse gesto brusco o balão esfoirou-se, tal como se esfoiram os cogumelos redondinhos chamados "peidos de lobo" que o médico conhecia muito bem, pois também era originário da serra e rebentara muitos com o primeiro chamiço que estivesse à mão no souto onde eles cresciam.
Ora, perante o sopro inesperado do balão a esfoirar-se, o médico e a doente, ambos debruçados curiosos sobre o objecto, afastaram-se surpreendidos e sarapintados com o conteúdo do penico. Quando o sopro acabou, fixaram o olhos no fundo do doutor e só nessa altura o médico perguntou: - Tem dores de barriga, ou já passou tudo? Já tudo tinha passado e não havia dores de barriga. E então ele explicou:
- Saiba vossemecê, tia Rosa, que, com trinta anos que levo nesta profissão, foi a primeira vez que me apareceu aqui, dentro de um penico, um peido com casca. Pode ir sossegada para casa, que não lhe receito nada.

Abílio/Junho/2014

Colocado no Facebook no dia 06-06-2014

Ler 296 vezes
Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.