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sábado, 11 abril 2015 09:04

BRINQUEDOS INFANTIS

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A PONTARIA

1 - O ARCABUZ

Os meus primeiros treinos de pontaria ao alvo foram feitos com um brinquedo chamado "ARCABUZ", ou "ESTOIRA BALAS" que nós, meninos dos anos 50 do século XX, tínhamos de construir, servindo-nos das ferramentas e dos materiais disponíveis em redor.

 

arcabuz-RedzE em redor havia montes, matos, sabugueiros, aqueles arbustos com pretensões a árvores, pertencentes ao género Sambucus da família Adoxaceae, cujos ramos, de grossura vária, consoante os anos de vida, com nós intervalados, aproximadamente de palmo, se prestavam a fazer tais brinquedos. Bastava ter um canivete, alguma imaginação e/ou copiarem-se os modelos que vinham desde o tempo da Maria Carqueja.

Cortada uma pernada a preceito, liberta dos nós dos extremos, a primeira coisa a fazer era limpar-lhe a "alma", isto é, tirar-lhe o miolo usando qualquer chamiço seco resistente, extrair-lhe aquela espécie de medula espinal branca que se alojava no interior. Feito isso, espreitava-se por dentro, tal qual um caçador faz à sua arma de caça após um acto de fogo ou de limpeza em fim de época venatória (aqueles que amam e estimam essas companheiras de vida) e via-se se estava totalmente limpo.

Seguia-se a manufactura da "chave", saída de uma piorneira,  arbusto mais resistente do que a giesta, feita à medida do seu comprimento, isto é, uma espécie de embolo, tipo seringa de injecções, um bocadinho mais curta que a "arma", por forma a que um pedaço de cortiça, ou de trapo, empurrado até ao extremo só saísse e estoirasse..."tau"...impelida pelo ar comprimido resultante da operação repetida com uma segunda "bala", empurrada com força e jeito de modo a atingir-se o alvo visado. E os alvos eram, por norma, os colegas de brincadeira, os pastorinhos-escolares, alguns dos quais, feitos homens, se tornaram meus companheiros de caçadas autênticas, com armas autênticas e pontarias muito longe do "faz de conta".

2 - A FISGA

A segunda arma foi uma fisga que, como toda a gente sabe (se calhar exagero, e nem toda agente sabe) é um objecto que tem a forma de um "Y" servindo os terminais superiores para neles prender um elástico e a parte inferior a servir de "pega", mão firme, braço estendido, esticado o elástico, pontaria feita e aí vai "tiro" silencioso de pedra solta dirigido a pardal, melro, rola, aves de pequeno porte que, desprevenidas, deixassem aproximar o predador=fisgador.

Um crime que a consciência ecológica HOJE condena, mas aconselhado ONTEM em prol dos produtos hortícolas, que tanto trabalham davam a granjear até chegarem à mesa.

3 - A FUNDA

A terceira arma, feita por mim, foi uma FUNDA, a mais perigosa de todas, apesar da sua simplicidade. Arremessava pedras a distâncias incalculáveis e podia atingir alvos nem vistos, nem ouvidos, nem achados.
Ainda que, às vezes, houvesse pontaria direccionada, tal qual David fez com Golias, o mais das vezes era usada nos torneios que nós, garotos ainda, fazíamos a partir dos topos dos montes a ver quem era capaz de lançar mais longe uma perda. 

Consistia o brinquedo em dois nagalhos presos num bocado de cabedal ou  de burel velho, que serviam de suporte à pedra ou projéctil a lançar. Colocado o projéctil no suporte, cortado em oval e dobrado em meia lua,  nagalhos presos nos extremos pelos os dedos, fazia-se do braço um moinho, davam-se umas tantas voltas para ganhar balanço e depois soltava-se uma das pontas do nagalho. Feito isso era ver a pedra voar em direcção ao alvo, ou romper distâncias a perder de vista. E ai do alvo onde ela terminasse a viagem. Sem marca ou sem dor é que não ficava. Às vezes as cabras e as ovelhas caminhando em direcção errada tomavam outro rumo.

Nunca houve notícia de acidentes significativos,  mas, a muitos anos de distância, não deixo de reprovar tão perigosa brincadeira. Não garanto, porém, que, em tempos que escapam à minha memória, tais acidentes tivessem acontecido, pois não encontro explicação plausível para a expressão popular: "ó pedra de um raio". Não era para menos. Caída do céu, ignorada a proveniência, só podia ser "pedra de raio".

 

NOTA: Fiz recentemente um vídeo que aoljei no Youtube como demonstração do «estoira balas»

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.