Trilhos Serranos

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segunda, 04 maio 2015 21:06

TETE - A TEMBA

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O texto de João Alagoa, do qual tive conhecimento através de Joaquim Santos e que muito gostei de ler, leva-me a fazer um registo relacionado com o MAINATO que tive durante o pouco tempo que residi numa das habitações dos CORREIOS DE TETE, sita nas traseiras do edifício, cuja fotografia foi posta nesta página, a meu pedido, por mão amiga.


O caso foi assim. Eu e mais outro moço das bandas de Castelo Branco (o nome dele perdeu-se-me num dos becos da memória) deixámos a casa do senhor Mota (o tal barbeiro, que, com a ajuda da esposa, davam hospedagem completa por mil escudos/mês: comida, dormida e roupa lavada) e fomos ocupar a tal habitação.

Ora, por aquelas bandas, nessa altura, se alguma coisa de comum havia entre os "tropas" e os "funcionários públicos" era que, uns e outros, deviam estar sempre prontos a fazer as malas e "marchar" para onde os mandassem. Digo isto para dizer que a troca, apesar de transitória, fazia-nos amealhar uns escudos por mês, mesmo que nos sujeitássemos a ter por cama um "burro de campanha", daqueles que eram usados por alturas de acampamentos, numa montagem de linha telefónica.

A opção levou-nos a contratar um MAINATO e ele veio oferecer-se, mal fizemos constar a nossa pretensão. Era um homem dos seus 50 anos de idade e garantiu que sim senhor, que sabia tudo o que competia a um serviçal desse ofício: casa limpa, roupa lavada, passada a ferro, etc. etc. ao que se somava a incumbência de, agarrar nas marmitas, e ir buscar as refeições do dia: almoço e jantar, à pensão que acabávamos de deixar.

Estávamos avisados de que deveríamos ter cuidado com os MAINATOS que abusassem do álcool, pois isso refletir-se-ia no seu desempenho.  Assim, mal se apresentou, fitei-o olhos nos olhos e perguntei-lhe: você bebe? Resposta pronta, olhos nos olhos: bebe sim, patrão, mas só fora de serviço, nunca em serviço.

O homem tinha idade para ser meu pai. Aquela sua franqueza e aquele seu olhar foram a assinatura do contrato. Confiei mais neles do que, ainda hoje, confio em alguns selos brancos de notário. Aceitou ficar por quatrocentos escudos/mês. Começou a trabalhar de imediato. Durante cerca de meio ano ao nosso serviço, nem o mais pequeno reparo. A roupa posta a lavar de manhã, à noite estava lavada e passada a ferro, pronta a vestir, graças também ao clima que a secava em pouco tempo. As refeições sempre na mesa às horas certas. O chão da casa, feito de ladrilho vermelho que só vim encontrar igual no Alentejo, sempre encerado e limpo. Um mimo. Casa de banho limpa que era um primor. Nunca o vi bêbado nem a cheirar a álcool. 

Foi um dos homens negros, a morar na cidade do caniço, cuja franqueza e cumprimento do dever me marcou para a vida inteira. Tanto que estou a escrever este texto por ter presente a sua palavra e o respeito por ela. Morava na cidade do caniço e, por isso, texto de João Alagoa, obrigou-me a pôr em letra redonda o que tenho dito muitas vezes numa roda de amigos. Aquele MAINATO, com idade para ser meu pai, sempre nos serviu com prontidão e honestidade, a começar por dizer-me, olhos, nos olhos: bebe sim, mas só fora de serviço. 

Se muita gente que anda por aí a governar-nos cumprisse, como ele, a palavra dada, a nossa vida estaria bem melhor.

  


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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.