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sexta, 30 julho 2021 21:29

LICEU SALAZAR EM LOURENÇO MARQUES

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ARTES E LETRAS - MAQUETE DO LICEU

É a fotografia que hoje publico e extraí do EMBRULHO de papéis velhos que os amigos já conhecem. E papéis velhos que me entrem porta dentro é garantido que são vistos e lidos. Diz respeito à maquete do LICEU SALAZAR em Lourenço Marques. Era o ano de 1952.

 

Nessa altura tinha eu 13 anos de idade e, numa aldeia "CIVILIZADA" da Beira Alta, aldeia sem energia eléctrica e saneamento básico, assente numa economia agro-pastoril, eu, como dizia, em vez de entrar no Liceu, passei directamente da Escola Primária para a Faculdade da AGRONOMIA e da PASTORÍCIA, cujas cadeiras nucleares, na primeira, era saber lavrar uma leira de cabo a rabo, semeá-la, gradeá-la e com um espicho de giesta enterrar, bem fundo, o grão de milho rebelde que preferia ficar à superfície, ser comido por uma ave e viajar no seu papo, do que penetrar na terra e nela germinar e produzir uma espiga com uma centena de filhos. E na segunda, era levar os gados aos montes, guardá-los dos lobos, acarinhar e amparar o cabritinho ou cordeirinho que, depois de comida a placenta pelas mães, começasse, tente não caias, a saber o que era o mundo e as dificuldades que teria de vencer para nele sobreviver

A aprendizagem feita assim não era avaliada, nem garantida por diplomas com selo branco de qualquer estabelecimento de ensino. Aprendia-se e pronto. A formatura estava no SABER FAZER.

E tudo isto vem a propósito do MAIOR LICEU DE PORTUGAL construído nos confins do mundo. É que quis o destino que fosse nesse liceu  que eu mostrasse que sabia algo mais que granjear uma jeira de terra e guardar um rebanho de ovelhas e/ou um fato de cabras. 

Havia em Lourenço Marques dois liceus: o LICEU SALAZAR e o LICEU ANTÓNIO ENES. Ali eram recebidos anualmente os TESTES feitos em Lisboa e nas suas salas se sentavam, para exames, todos os alunos que, na idade escolar, ou já adultos, quisessem possuir saberes CERTIFICADOS aprendidos em livros aprovados pelo MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO e seguidos nas escolas oficiais ou particulares do País, desde o Minho a Timor. Alunos ENSINADOS por uns professores e EXAMINADOS por outros. Só tocava guitarra quem tivesse unhas, que o mesmo é dizer, quem soubesse a matéria obrigatória em todo o solo dito PORTUGUÊS.

Ora pois!  Foi exactamente no MAIOR LICEU DE PORTUGAL que o aldeão, saído de uma aldeia civilizada da Beira Alta, sem energia eléctrica nem saneamento básico, já depois de ter passado pela Beira, Tete, Milange, Gurué e Quelimane, deu um bigode a todos os estudantes que, nos dois liceus de Lourenço Marques, comigo ali fizeram exame do Ciclo Preparatório: fui o único, entre tantos, que obtive a nota de 18,3 valores (na escala de vinte) na Disciplina da Português. Eram centenas de alunos. Durante uma semana fui reler as pautas afixadas nas vitrinas dos dois liceus. Não havia dúvidas. A minha nota era EFECTIVAMENTE a mais ALTA. Arrancada ali, no MAIOR LICEU DE PORTUGAL, onde jamais eu tinha sonhado dar início à minha carreira académica.

 Claro que fiquei vaidoso e replico vaidosamente aqui o meu estado de espírito de então. Não é um futilidade daquelas que proliferam no Facebook. É um feito edificante, que me apraz trazer a público e que devia servir de exemplo a muitos jovens.

Mas não fora o EMBRULHO de papeis velhos que me entrou em casa, papeis a fazer a PROPAGANDA DO ESTADO NOVO e eu, já no ESTADO VELHO, de 76 anos de idade, jamais faria PROPAGANDA desse facto notável da minha juventude. 

NOTA: texto publicado no meu mural do Facebook em 30-07-2015.

Dixit.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.