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domingo, 18 outubro 2015 19:08

MEMÓRIAS MINHAS...SÃO ASSIM

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LINGUAGEM CAMPESTRE NAS FÁBULAS HODIERNAS

O léxico camponês oral apetrechou a minha aprendizagem falante muito antes do léxico dicionarizado usado por professores, padres e advogados, gente sem calos nas mãos, lavrando e cavando chãos, profissões que não distinguiam enxadas de enxadões. Cedo aprendi o que era e o que significava um APEIRO. Cedo aprendi a lidar com todos apetrechos que o constituíam: o jugo, as molhelhas, as sogas e o tamoeiro. Cedo aprendi que nem todas as vacas davam boamente a cabeça ao jugo. Sobre bestas aprendi tudo. Veja-se a crónica que escrevi no meu velho site sobre a "VACA ROXA", um animal com personalidade e caracter, sinais evidentes de liderança. A companheira, a "Cabana" ia para onde ela ia, lameiras ou moitas, era uma autêntica "Maria, vai com as outras".

 

Cedo aprendi o que era um ARREIO e cedo aprendi a distinguir uma albarda, de uma sela, a sela de um selim, o cinto de um homem da cilha de um solípede. Um cabresto de uma rédea. O que era uma aguilhada e o que era uma arreata. Cedo aprendi, por ouvir dizer ao meu pai, que almocreve precavido era o que "conhecia bem a besta que aparelhava", pois nem toda eram fáceis de aparelhar e algumas só muito a custo se submetiam ao arreio, ao "aparelho". Recusando-se a ser montadas, recebendo a contragosto o arreio e o freio, desferiam coice quando menos se esperava. E se apanhavam o freio nos dentes, cuidado, lá ia cavaleiro e aparelho pelo chão, ou para qualquer lado. Mas isso só acontecia com animais que tivessem personalidade, que tivessem caracter, diferentes de muitos homens que, submetidos ao "aparelho", com o arreio em cima, só aparelhados vivem, só assim têm nomes, e, nessa submissa condição, nem conta se dão de serem levados pela arreata, nem conta se dão de serem pilecas de feirantes a puxarem carroças, carregadas de mercadorias contrafeitas, falsas, prontas a serem vendidas e consumidas por cidadãos incautos nesta mercancia do mundo.

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.