Trilhos Serranos

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terça, 27 agosto 2013 20:51

MEMÓRIAS -2

Escrito por 

RETORNO ÀS ORIGENS, DE AVIÃO

LOURENÇO MARQUES-LISBOA

Tudo começou em 1544, quando o navegador português Lourenço Marques, mandado a explorar a costa situada a sul de Sofala, ali aportou e ali deixou o seu nome de pioneiro. Mais nada. A partir daí, terra rica em marfim, foram cem cães a um osso: Austríacos, Holandeses, Ingleses, Franceses e outros que tais, tudo ali ia mercadejar. Os Austríacos fundaram mesmo uma feitoria. Aquilo era deles. Mas, em 1781, os Portugueses, navegam para lá na fragata Santa Ana e arrasam tudo. Fora daqui. E logo negoceiam com os régulos locais, Capela, Matola, Mafumo e, cada um usando da sua habilidade, acordam o senhorio, a vassalagem e a ocupação do lugar que seria o embrião da cidade. Foi ao pé do mar. Enfim, «terras da Coroa», monopólio comercial, capital Lisboa. No ano seguinte, foi fundado o primeiro «presídio» tendo por governador Joaquim Araújo. 
(...)
Cá de cima, de avião, eu vejo tudo, lá ao fundo. Que cidade! Que diferença passados que foram cerca de 200 anos. 

Que ruas e que avenidas, rasgadas à grande e à francesa, ali estão asfaltadas, apesar da manifesta má vontade do Comissário que as viu nascer. Na periferia do amplo e bem gizado burgo de cimento, eis a cidade negra. As palhotas de caniço cobertas de zinco e de capim, a anarquia suburbana do Xipamanine. Palhotas semelhantes às que rodeavam o «presídio», no último quartel do século XIX, quando, então, o domínio colonial, ali, só tinha o raio de acção desenhado pelo alcance de tiro da artilharia assente nos baluartes do forte Nossa Senhora da Conceição. É o espaço do formigueiro negro, lembro-me agora, aquele que manhã cedo, ainda dorme a «Aurora», deixa as palhotas de caniço e ruma ligeiro à cidade, onde se dissolve ocupado na estiva, trabalhos domésticos, vendedores de jornais, jardineiros, serviçais de cafés e restaurantes, mainatos, moleques, serventes de pedreiro, cozinheiros, engraxadores, todo o tipo de artes de mãos e suor. Separadas, a interdependência de quem trabalha e dá trabalho impõe, todavia, o convívio das comunidades divorciadas durante a noite e casadas durante o dia. Durante anos. Conquistas, escravatura, ocupações, pioneiros desbravadores do sertão, exploradores, cantineiros com e sem escrúpulos, canganhice, acordos de paz, caçadores, convívio, concórdia, muito milando, muita bula bula, aventureiros sertanejos mortos por febres e por zagaias, violações, maningue cabaços tirados a troco de dez reis de mel coado, pagamentos de serviços prestados à Coroa e ao Reino por administrativos, militares, governadores, capitães-generais, soldados, guerras tribais e tratos com os régulos locais da praia e do sertão, pontas de elefante, cavalo-marinho e abada, muitos saguates a troco de fazendas, manilhas, de bebidas e de nada. Tudo. Mulungos médicos, engenheiros, professores, pedreiros, carpinteiros, gente séria e honrada, pobre e abastada que foi chegando, povoando e colonizando. Kanimambo. Fragatas, barcos a entrar e a sair dos portos. Salvas de artilharia e selar acordos e contratos. Bebedeiras de cachaça. Obediência e reverência ao poder armado. Batuques, marimba, marrabenta. Feiticeiros, xicuembo sanhaco. Prédios, lojas comerciais, cafés, cinemas, habitações. Para alguns retornados de abalada, os novos habitantes da cidade povoá-la-iam de cabritos e de galinhas, à semelhança da primitiva cubata. As varandas dos prédios seriam encharcadas de coloridas capulanas estendidas ao sol como nas habituais choupanas. Imbuídos de racismo e do conceito de superioridade da raça branca com eles partia a alavanca do progresso, da civilização, e sem eles tudo regressaria aos primórdios selvagens da colonização. Colonos. Exploradores ao serviço da ciência e do conhecimento, da Geografia, Botânica, Zoologia. África, terra de carreirismo militar, político, administrativo, mas também terra de degredo, de aventura e paludismo. Enfim, a partilha do continente africano em Berlim até à marcha inversa começada em Bandung, gemido de corpo espancado da África e da Ásia, vendido, explorado e dorido. 

 MouzinhoGungunhanaDécada de sessenta. Lisboa recusa a autodeterminação. Começa, então, a guerrilha no mato. Metralha. Bombas, minas nas estradas e picadas, massacres, napalm, catorze anos de guerra, tanto morto, tanto estropiado. Mas no mundo civilizado impõe-se o direito à liberdade e à independência dos povos. E, de Lisboa, o grito do 25 de Abril ecoa pelas Áfricas. Chega a Lusaca. Em Lourenço Marques os protagonistas da estátua equestre plantada na Praça do Município desde 1940 ganham vida. Numa das placas de bronze, Gungunhana, fundido em posição de vencido, de pé, fronte caída, levanta a cabeça, fala e anda. De vencido passou a vencedor e, como antigo chefe do povo vátua, lembra ao seu opositor as humilhantes condições sofridas aquando da sua prisão em Chaimite: o fuzilamento dos seus conselheiros Manhune e do seu tio Quêto à frente de todo o seu povo no sentido de se impor pelo terror. A sua exibição como troféu de guerra e a divulgação por todos os cantos da Terra da fotografia que lhe tiraram no navio de guerra «Neves Ferreira», acompanhado da duas mulheres preferidas. Três rostos a espelharem a derrota. Passaram-se 80 anos. Tanto tempo e tão pouco tempo. Mudaram-se os papéis. Mouzinho, até agora em posição de vencedor, mão direita na espada, a mão esquerda estendida em largo gesto de ordem dada, a do mando do velho rei de Gaza ressuscitado, cavalga Avenida D. Luís abaixo, a caminho do Forte da Nª Sª da Conceição, aquele que foi o primeiro «presídio» onde os Portugueses assentaram arraiais à chegada, em 1782.

O mesmo aconteceu com António Enes, comissário régio, e todos os outros vultos coloniais senhores de praças e pedestais. Uma lição de história, uma lição de vida. Porto de chegada, porto de partida. Mudaram-se os nomes das ruas, das praças e das avenidas, curtas e compridas, findou o jogo, acabou-se o pleito. A narrativa histórica mudou de sujeito. Os governados passaram a governantes. Os vencedores a vencidos. São aqueles, os nativos, que agora escrevem a sua História, que elegem os seus heróis mortos ou vivos, que os põem sobre pedestais para futura memória. Acontece no mundo religioso e profano. Sempre. Aqui e agora eles são Mondlane, Samora e Chissano. Nada escapa. O topónimo Maputo volta a escrever-se no mapa. O topónimo Lourenço Marques arquiva-se, nos livros, na memória, nos arquivos, nos documentos, nas páginas da História. 

 É o fim do Império Português. É tempo de partir. Ambanine. Rasgando os céus, metido no avião, cá de cima vejo tudo, lá ao fundo. Do Alto Maé à Ponta Vermelha e, transversalmente, do Malhangalene ao Cais dos Pescadores. O jardim Vasco da Gama, as suas árvores frondosas, a Casa de Ferro deslocada, peça por peça, para a Rua 5 de Outubro, perto do Liceu António Enes uma relíquia rara no mundo, a par da que lá ficou. O jardim Dona Berta e, em frente dele, na Avenida Augusto de Castilho, a minha casa comprada com empréstimo ao Montepio. O meu carro novo, Isuzu Belet,  adquirido a prestações mensais, prestes a ser exportado, foi nacionalizado. E, depois disso, subindo eu a pé em direcção a minha casa, cruzei-me com ele guiado por um negro vestido de camuflado. Rolaram-me as lágrimas pelo chão. Irado, revoltado por ter sido espoliado de um bem que tanto me custou a ganhar, senti raiva, ódio, gana e desejo de correr atrás do sacana que ia sentado ao volante, tirar-lhe a viatura e, naquele instante, chamar-lhe ladrão com todas as letras. Mas eis que a história me faz engolir em seco o palavrão. Ela trouxe-me à memória o processo da colonização, da ocupação e, ainda que eu não tivesse nada a ver com isso, pois não roubei, nem maltratei ninguém, vi, em tempos idos, os teres e haveres a mudarem da mão do negro vencido para a mão do branco vencedor. Inverteram-se os papéis. Agora era eu uma das vítimas do jogo perde-ganha, do «rapa-tira-põe». Como professor, tendo ensinado e avaliados negros, brancos e mestiços, constatei que a inteligência não tinha cor, mas só agora senti na pele que também a não tem a raiva, o ódio e a dor. E estes pensamentos e sentimentos deram-me alguns amargos de boca. Fizeram discordar de amigos e parentes que, como eu, foram espoliados dos seus haveres e regressaram à Pátria, ao continente sem o produto de honestos anos de trabalho e de vida. Sensíveis ao seu prejuízo e à sua dor, mas insensíveis ao prejuízo e à dor alheia, desconhecedores da História, volta e meia se estremavam os nossos campos discussão. 

 MouzinhoCavalloO Cais Gorjão abarrotado de contentores à espera de embarque. Quantas almas, quantos anos de vida, quantos sonhos encaixotados vão ali? No avião, a lotação está esgotada. Não cabe mais revolta, tristeza e silêncio. Ao meu lado um ex-piloto da DETA, casado com uma senhora indiana e pai de duas gémeas que foram minhas alunas numa das últimas turmas que leccionei. Ambanine a todos. Que rumo tomou cada um desses alunos? Aterro em Joanesburgo, capital do apartheid rácico praticado, assumido, não disfarçado. A caminho de Luanda, sobre o deserto do Calaari, os bosquímanes miram o grande pássaro mecânico e ouço eles dizerem: «os deuses devem estar loucos». Aterro. Entro no Jumbo. Nova etapa. Dobrado o Equador para norte, não tarda a desaparecer o tapete verde cerrado, rasgado pelas compridas serpentes de água que deslizam vagarosamente em torcicolo, como que a quererem retardar a sua saída para o mar. São como a gente. Quantas voltas damos para não sairmos do continente? Que magia, que encanto possui a África? O nascer e o pôr-do-sol sem igual. O primitivismo original, a diversidade, a autenticidade natural, o brasil da terra, o calor, a grandeza, a imensidão, os horizontes a perder de vista, florestas virgens, a noção do infinito e do eterno. Na verdade, o apelo às origens, o retorno ao útero materno, ao berço da humanidade.

 De avião, cá me vou. Floresta, savana, estepe, bichos, lagos, rios povoações, a vegetação cada vez mais rara, já lobrigo o deserto do Saara. É uma infindável manta de dunas, manta enrugada, com remendos aqui e além. Oásis lhes chamam, habitados por caravaneiros de camelos e tendas de califa com ou sem harém. Pelo deserto chega também a Ceuta o ouro de Tombucutu, lá para os lados da Guiné, e as especiarias da Índia a partir do Cairo. Ano de 1415. Conquista da cidade, sorvedoiro de gentes e de dinheiro. É o tempo de D. João Primeiro e da Ínclita Geração. Começa a Expansão. É tempo de ida. Tempo de honra, de glória e de conquista. Costa africana abaixo, rapa-que-rapa, autorizados com bulas do Papa, é um mundo novo de ambições, de esperanças, de escravatura, terras e mares. Agora são outras guerras, é o inverso, é tempo do desalento, do desengano, do regresso. Eu rumo seguro a Lisboa. Lá está o estuário do Tejo. Um exército de contentores perfila-se ao longo do cais de Santa Apolónia. Nenhum deles é meu. A bagagem que trago está na cachimónia. É tudo o que sei do Egipto, da Babilónia e o que mais respeita à profissão que não levei há dezassete anos. Não trago dinheiro, teres e haveres que me garantam o futuro. Lá ficou a mala de porão. Mas venho mais rico do que fui. A par da profissão trago a esposa e o meu filho Nuro com um mês de idade, um tesouro nascido no país onde um historiador justificava assim a existência de negros e brancos: «Deus desceu à Terra com dois casais. Deu a cada um deles sementes para cultivar. Um casal semeou e colheu com abundância. O outro comeu as sementes e não fez nada. Deus, muito irritado, entregou a este uma enxada, uma catana e uma picareta e disse: «vai agora trabalhar e comer com o suor do teu rosto». Quando o casal reparou em si mesmo estava negro. E esta foi a origem dos pretos. O outro casal, como recompensa continuou branco e recebeu uma caneta». Mas que treta!

 À chegada, sem dinheiro nem património material, albergámo-nos na casa do meu irmão António, antes de seguirmos para a terra transtagana: Castro Verde, a terra da minha mulher Mafalda, infatigável companheira de lida africana. Professores, fomos ambos lá colocados e ali nos nasceu mais um filho: o Valter, outro tesouro. 
Quantos anos são passados? Tirante alguns aborígenes australianos, índios, esquimós, mongóis e os amish americanos, a civilização, deslizando nos seus frios trilhos, há muito cilindrou a tribo, a família, a vida em comum de avós, pais e filhos, do nascimento à morte. É isso, há milénios que cada um tenta a sua sorte e os meus lá estão, na capital a fazer pela vida, tal como fiz eu e tantos mais, na mocidade, que andei por lá, na cidade, tanto tempo longe dos meus pais, fugindo de cá, do campo, da enxada e do arado. Mas, para meu prémio ou castigo. Quem iria sabê-lo? Cá  retornei e cá, na árida serra, pois serrano nunca deixei de sê-lo, fazendo o que sei, digo, pensando fazer o que sei, cá continuo, com esta idade, a lavrar, a semear, a espalhar sementes, não já no agro, mas nas mentes.


Nota do meu livro «Memórias Minhas, Portugal e Moçambique», ed em 2006


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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.