Trilhos Serranos

Está em... Início Memórias A FORÇA E A HONRA DAS ORIGENS
quinta, 29 maio 2014 13:11

A FORÇA E A HONRA DAS ORIGENS

Escrito por 

A lareira tradicional da casa serrana,  geralmente sem chaminé, estava encostada a um dos lados do pequeno espaço coberto de colmo, nomeadamente a dos meus pais, em Cujó. Ao lume dela se aqueciam as pessoas, cães e gatos.  Era uma espécie de alguidar quadrado, com piso de pedra, uma laje arrancada ao fraguedo dos arredores e assente em traves de carvalho colocadas a um nível inferior ao das outras traves onde assentava o sobrado, por forma a que este servisse de banco a toda a família.

Prato-GarfosNa base da parede, ao nível do chão, ficava uma reentrância designada pilheira, sítio onde se guardavam as cinzas das fogueiras que iam consumindo as lenhas recolhidas nas tapadas, moitas e baldios da aldeia: carquejas, giestas, sargaços, raízes de urgueira, a torga, achas de carvalho e tudo o mais que os dicionários designam por lenha. E acender o lume não era tarefa para qualquer pimpão. Não havendo fósforos em casa, e antes de se pedir ao vizinho: «tem lume?», começava-se por procurar no borralho uma brasa, um tição, o resto de um toco que ficou a moer a noite inteira, embrulhado e dormente na cinza. E, nesse mexer e remexer, lá aparecia um anincú, um olhito luminoso, incandescente, pronto a inflamar duas palhas, desde que, lábios em bico, bochechas cheias de ar, fosse assoprado, até aparecerem as labaredas.  Chegados a isso, era a imagem do inferno a queimar as carquejas secas, os gravetos, molhos de giestas secas e verdes, às vezes molhadas que, neste estado, inundavam de fumo o reduzido espaço do tugúrio. Naquele espaço, como em qualquer habitação serrana, os únicos poros de respiração que nele havia eram as frinchas da porta e das janelas de guilhotina, mais os buracos do carcomido soalho devidos às tábuas mal casadas por defeituosa justaposição, ou por empeno da idade. É que a passagem dos anos não curva, não verga, não corcunda somente as pessoas velhas, também fazem mossa no madeirame das casas, das arcas, dos baús de carvalho ou castanho que sejam.

De resto,  o fumo era um produto natural que os camponeses não se podiam dar ao luxo de desperdiçar. Ele era, ao tempo, um bem precioso. Daí a ausência de chaminés na maioria das casas das aldeias.
No lugar delas, suspenso a toda largura da lareira, ficava o caniço, digamos que um segundo andar, feito de ripas de madeira. Nele se secavam as castanhas para, depois de secas, serem piladas e assim poderem ser consumidas ano fora, cozidas nas panelas de ferro fundido de três pés, de mistura com couves ou vagens secas, caldo a que as castanhas davam uma cor escura e um sabor adocicado. Isto muito depois de se ter perdido o hábito de serem moídas piladas e com elas se fazer o pão, hábito esse que já tinha passado à história nos meus tempos de criança. Isso vinha do tempo dos Lusitanos e só a doença que, no século XVIII, deu dos castanheiros, fez abandonar. O seu lugar, na alimentação, seria tomado pela batata.

E presos ao caniço, pela parte debaixo, em posição horizontal, ficavam os varões destinados à seca do fumeiro, chouriças e salpicões. Mais uma vez o aproveitamento do fumo. Mas, eu bem me lembro do castigo a que, para benefício das castanhas e do fumeiro, foram submetidos os meus olhos e dos mais viventes, conjuntamente com os nossos pulmões, em tempos de Inverno. O fumo era tanto e tal que, naquele reduzido espaço, impedia de nos vermos uns aos outros, tal como em dias de nevoeiro cerrado se não vê nada a um palmo à frente do nariz. E os olhos vermelhos ardiam como se fitassem uma cebola raivosa. Não faltava ali coceira nos olhos, nem tosse boca fora. Por algum tempo assistia-se a uma espécie de canto coral desafinado, não cantado, mas sofrido. E, a tantos anos de distância, pulmões sujeitos a tais condições, muito estranho era não haver notícias de intoxicações, por essas aldeias fora, sobretudo quando os elementos da natureza se conjugavam contra a gente: no interior da casa, um ar irrespirável e, no exterior, a chuva a cair a potes ou a neve a cobrir o chão com moscas bailarinas solidificadas, caídas do céu. Em qualquer dos casos éramos obrigados a suportar, fechados, esse dilúvio de chuva, esse inferno de frio e de morte. Agora me pergunto, porque será que os artistas pintam o Diabo com os olhos vermelhos e o inferno com labaredas, que até são bonitas de ver, de fotografar e pintar fora de situações trágicas?

Prato-simplesFicavam secas as castanhas, ficava curado o fumeiro, ficavam fumadas as nossas roupas de burel, ficávamos fumados nós todos e ficavam fumadas as paredes. Negras como breu, feitas de pedra solta, pano irregular, anos e anos sujeitas à brocha daquele pintor, elas luziam como verniz à menor ondulação da chama da pequena candeia a petróleo que enchia os serões: ele era o meu pai a atiçar o fogo, a contar as suas façanhas de taberneiro, pistola à cinta, bengala pronta para o que desse e viesse, aventuras de comerciante de volfrâmio, cavalo derreado sob o peso do minério (eu só ouviria coisas semelhantes, muito mais tarde, contadas por Aquilino no livro «O Malhadinhas»), ele era a minha mãe a falar das hortas, das couves e alhos, do cebolo e a contar lendas de bruxas e lobisomens, enquanto salivava, puxava e torcia a estopa armada na roca, cintada com uma correia presa por uma pequena espátula de madeira. Desfazer essa boneca de fibra, cintura apertada, a descer da roca para o fuso, sempre e rodar e a torcer, à força e jeito dos dedos polegar e indicador, era arte de fiandeira com séculos de vida e de história. E eu encantava-me a ver rodopiar aquele pião suspenso no ar preso por um fio. E nesse incansável salivar, esticar e fiar se desfazia a rocada e aparecia a maçaroca, logo atirada para uma cesta feita com rolinhos de palha entrançados com fitas de silva ou de vime: a breza. O meio natural fornecia os materiais necessários às artes de sobrevivência e o ser humano, o homem e a mulher, que puxassem pela imaginação e inteligência e que fizessem o resto. E faziam,  pois assim era. E se a imaginação e a inteligência dos adultos se ocupava com tais artes, a minha perdia-se a ver fantasmas e outras personagens das narrativas orais na sombra oscilante da chama da candeia, ora obesa, ora magriça, forma que lhe advinha da irregularidade da parede onde se projectava e o negro verniz do fumo, servindo de espelho, a duplicava ou triplicava. Memórias minhas.

E era ali, naquele espaço, reduzido e escuro, que se tomavam as refeições do dia e da noite em família. Pela manhã, o pequeno-almoço; pelo meio-dia, o jantar e ao cair da noite, a ceia. E se a noite se estendia serão adiante, havia também o ceote.
Por hábito ancestral que se perde na memória dos tempos em casa de pobres, havia uma só malga para cada membro da família. Mas, de festa em festa, ou em dias de vessada, escanada ou malhada, ou, mais marcadamente na noite de Natal, a consoada, feita de couve troncha, batatas e bacalhau, todos os membros se posicionavam em torno de um grande prato e dali, com o seu garfo, somente garfo, se serviam, garfada a garfada. Em minha casa éramos nove ao todo. Os meus pais e os meus irmãos: 4 rapazes e 3 raparigas. À nossa frente, fosse qual fosse a pratada, a comida desaparecia enquanto o diabo esfregava um olho. E consequentemente, vazio, sem nada, limpo, o fundo do pratalhão, quase do tamanho da roda de um carro, aparecia nu, tal qual saíra da olaria, a mostrar um galo na emproada posição de dono da capoeira, ou com arranjos florais que a indústria de barro grosso resolveu ornamentar com alguns enfeites de graciosidade, de cor e distinção, em sinal de mais valia.
São as ilustrações deste texto, com a nota de que os garfos de ferro, com cabo de madeira e arrebiques metálicos nos extremos, dois deles semelhantes a golas e punhos rendilhados próprias de gente rica, esses garfos, dizia, não os recebi por herança. Os garfos existentes na casa dos meus pais eram de ferro de cabo a rabo.



Abílio/Maio/2014

 

Ler 539 vezes
Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.