Trilhos Serranos

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sexta, 09 outubro 2015 15:11

GOVERNANÇA À ESQUERDA

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Curiosas são as coisas. E mais curiosas sãos as memórias retidas desde a infância e as associações que elas nos permitem ao longo da vida, curta ou comprida. 


Os resultados das últimas eleições legislativas e o esforço que António Costa tem feito para congregar a esquerda (aparentemente um milagre se atentarmos ao que a História nos mostra, desde o Liberalismo do século XIX, à República do século XX e ao período pós 25 de Abril de 1974) fez-me retornar à juventude, ao contexto serrano de sobrevivência e, num esforço titânico, calcorrear o cursos dos três ribeiros que, confluindo num ponto, davam origem a um rio. Só assim, com as águas juntas, se podia pôr a girar o moinho e transformar o grão em farinha e a farinha em pão. Pouco importava o nome do rio. Ele por "Mau" era conhecido, mas bom era o produto dele saído. Não constando nos livros e compêndios escolares, ele era conhecido por todas as crianças das povoações vizinhas. E hoje, graças à evolução da ciência e a divulgação de saberes, o leitor, para melhor juízo, sentado no seu sofá, vá ao Google Earth e, num abrir e fechar de olhos, (veja foto em baixo) começando a esquerda para a direita, verá a confluir num ponto, em leque, primeiro, o Corgo Escuro, com nascente na Fonte das Três Bicas e linhas de água a montante; depois, o Corgo do Porto da Grade, com nascente no Corgo Forninho, na Mourisca de Cá e na Mourisca do Meio; e, por último, o Corgo da Filharada, com nascente na Mourisca de Lá. 

Botar a água dos três ribeiros leito abaixo, quebrá-la, entorná-la de açude em açude que, por levadas e regos, a desviavam do curso natural para irrigação dos lameiros, fazê-lo ao escurecer para se moer de noite, não era pera doce. Tudo "pedibus calcantibus". Era preciso elasticidade nas pernas e fôlego de mocidade para vencer carreiros, caminhos, atalhos, socalcos. Subir e descer. Tarefa não aconselhada a idosos trôpegos de joelhos e artelhos. Eu bem posso dizê-lo hoje. Mas as leis da sobrevivência impunham esforço e sacrifício. O moinho só girava com o concurso dos três ribeiros. Cada um dava o que podia e a mais não era obrigado. Mas não fora o humilde contributo de cada um, a broa de milho, ou de centeio não entraria nos açafates de madeira (uma caixa em miniatura com tampa) e sem ela, mesmo sem conduto, eu não estaria aqui para dizer e contar tudo.
Todas as mós andadeiras dos moinhos giram no sentido contrário aos ponteiros de um relógio. Da direita para a esquerda. Não conheço nenhum moinho que gire ao contrário. Só o relógio, essa máquina de medir o tempo. Está, pois na hora de pôr a governança a girar da esquerda para a direita. E sempre me interroguei sem encontrar resposta o porquê de ser assim. O tempo ser medido da esquerda para a direita. Na esquerda começa o movimento que vence o espaço da direita. À falta de água se imobiliza o moinho. Parado fica o relógio à falta de corda.

E eu fico-me por aqui, não por falta de corda, mas à espera de ver o resultado dos esforços de António Costa, de Jerónimo de Sousa e da Catarina Martins (os três ribeiros que juntos fazem rio) esperançado de que ponham o moinho em movimento e pôr pão na mesa de todos os portugueses.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.