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domingo, 10 novembro 2019 15:16

ASSOBIO DO VENTO, O MEU ASSOBIO

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O MEU ASSOBIO

Creio não haver palmo de chão nos montes que rodeiam CUJÓ onde não estejam gravadas as notas do meu assobio labial. Menino ainda, tal como tantos outros meninos, cedo fui incumbido de levar os gados para os montes a comer matos e a beber nas fontes. Se havia companhia por perto era certo o jogo da malha, da carreirinha, do rebolo ou da cochina, ou outra brincadeira de canalha amiga e, às vezes, também briga.

 

2-chave-1 - CópiaSe não havia, não sei se por medo, se por alegria, sozinho, juntava os lábios e saía canção ou hino. Eu assobiava, assobiava, assobiava e entoava as modas ouvidas nas cantorias cantadas nas segadas, nas desfolhadas, malhadas e mais trabalhos de campo. Um encanto. Ele era na Moirisca de Cá, na Moirisca do Meio e de Lá, pegada ao Rosalgar vizinho da Senhora da Piedade, à Cascalheira, serra fronteira a dividir as freguesias confinantes; ele era no Espinhacelo de Cá e de Lá, ah, como estou seguro, a Fonte das três Bicas, lá no fundo, começo do Corgo Escuro, uma das linhas de água que alimentavam o rio Mau. As outras duas, designadas Porto da Grade e Filharada, tinham começo nas Moiriscas e, todas juntas, tipo pata de galinha, davam nome ao rio que fazia girar moinhos e também os pisões que ali havia. O primeiro moinho era dos Pereirinhas, e o segundo dos Teresos. A água saída de um fazia girar o outro, tal era o alinhamento e o desnível do terreno. Ao lado deles, em pedra levantado, estava um edifício com dois pisões dentro. Um com cale lavrada em granito e outro de cale escavada em madeira. Da minha lembrança só um laborava no meu tempo de criança. Eram ambos do meu Avô, natural de CUJÓ e por perto não havia igual. Ali acorriam as gentes das povoações vizinhas com as suas teias, saídas dos teares das aldeias. Não havia aldeia sem tecedeiras e teias, nem linho e lã que volvesse tecido, sem técnicas, nem canseiras. Chegavam ali às rimas e o pisoeiro, na altura, era o meu primo Abel Dimas.

É isso. A certa hora morta, o vento atrevido assobia na fechadura da minha porta. E nesse seu assobio, vem conjuntamente o meu assobio de menino, um pingo de gente, um pingente, o murmurar daquelas águas, o estrelouçar do chamadoiro na mó do moinho “tram....tram...tram...e, no cantinho, ao meu cão Piloto agarradinho, numa cama de giestas,  eu adormecia quentinho embalado por aquele monocórdico ritmo da mó a girar em torno de si só a transformar grão em farinha.

É isso. Cada pedra do caminho, solta, desgastada pelos trambolhões dados ou, agarrada ao chão, afloramento natural, engamelada, rompida pelos trilhos dos carros de vacas, séculos de vida, são pergaminhos trazidos aos meus olhos e ouvidos pelo assobio do vento que me entra casa dentro pelo buraco da fechadura.

3-chave-2 - CópiaÉ isso. E chegam também as pegadas que deixei em cada penedo, buraco de mina, placa de mica que manuseei no Espinhacelo de Cá, a mesma que vi aproveitada nos fusíveis dos telefones em cuja técnica e arte me iniciei, lá nas costas do Indico. Postes levantados, linhas telefónicas estendidas e esticadas, caixas aéreas de saída, baixadas para habitação, um telefone instalado, ensaio de comunicação feito e pronto:

 - Está lá!

-  Está!

Comunicação estabelecida. Vamos a outra, esta está garantida. Uma trovoada. Um cruzamento de linhas. Comunicação avariada. Fusível fundido, constituído por duas plaquetas de carvão separadas por uma película de mica. A mesma que, sem sabê-lo, com ela brincava e a interpelava no Espinhacelo, em menino. Pequeno é o mundo. É como dizer: um passo apenas entre a ignorância e o saber.

Lábios unidos, pulmões cheios, fiz uso do instrumento musical natural de que dispunha desde a nascença. Não pesava nem espaço ocupava. Livre de usar sem reservas nem ocupação de mãos. E, espontaneamente ou com intenção, saíam notas soltas ou canção conhecida. E consoante a posição dos lábios e a postura da língua só me faltava montar um cavalo e ser um cowboy  na conquista do oeste. Não tinha cavalo, mas tinha assobio e tinha oeste. A vida é uma cavalgada, uma travessia de rios e monranhas. À minha frente, em torno da povoação estavam os montes “lá pialém”, isto é, tudo o que está para lá do Santo António: a Touça, o Riscado, o Tambalião, o rio Mau, o Cadouço a Ponte da Relva. Ou “lá piarriba: o Penedo do Gato, da Esmola, Buraquinho da Senhora da Lapa, Paredes, Outeiro dos Tojos, Vale da Fraga, Regueira da Rebola, Senhora da Barca, Penascais, Outeiro do Meio. E, acompanhado ou só, neste meu passeio, “lá p’ra Paivó”, era toda aquela área que incluía o Penedo do Corucho, do Escorrega, o Morgado e rio Paivó abaixo até ao Óculo, na Galboeira, local de banho anual obrigatório para tirar do corpo toda a sujeira. E “lá piabaixo”: o Fragão, Fonte Fria, Chão do Irão, Património, Costa do Barbilho, Vale de Cavalos, Lameira de Lobos e tudo em redor, leiras, moinhos, montes e fontes.

Os pontos cardeais, cruzavam-se na povoação, e estavam naquelas designações, naquelas expressões locais, vindas de longes tempos, escritas nas fontes orais: NORTE: “lá piarriba; NASCENTE: “lá pialém; SUL: “lá piabaixo; e POENTE: “lá pr’a Paivó”.

4-PICT2850 - CópiaSão expressões toponímicas que chegam até mim no sibilante assobio do vento que me entra pelo buraco da fechadura dentro. E eu o escuto e entendo. O vento é o eterno mensageiro a ligar terras e gentes. Mar e serra. Tempos de paz e de guerra. Ermidas solitárias e povoados (muitos deles atualmente despovoados) mas que estiveram outrora cheios de gente. Choupana de lameiro ou terreno cercado. Envelope de correio cheio de lembranças vivas, velhinhas de crianças penduradas nas árvores em busca de ninhos. Tempo de pastoreio e tempo de escola. Acabadas as aulas, atirava-se a sacola para um coberto, e ala, campos fora a competir na descoberta de ninhos, longe ou perto. Chiça! E o campeão era o que descobria um ninho de carriça ou de gaibão.

O vento, como eu o entendo! Ele é uma espécie de tabelião de tempos idos que de moradia em moradia respondia ao chamamento de quem lhe mostrasse desejo de fazer o seu “testamento em nome de Jesus, Maria e José”. Acamado, cheio de fé no julgamento final, em seu “juízo perfeito” ditava e repartia a seu jeito os bens materiais que não podia levar quando morria. E era um sem fim de “itens” especificando os “bens pios” e as “deixas” a parentes, afilhados e mais gentes. E bem patentes ficavam os encargos a que o testamenteiro obedecia por forma a manter rentáveis os bens legados e deles sair o rendimento para pagar as missas de sufrágio da alma do testador, subida à mão direita do Senhor por interceção do Santo ou Santa a servir-lhe de advogado ou advogada também eles no testamento contemplados com os haveres deixados.

O vento! Como eu o entendo! E porta dentro, assobiando pelo buraco da fechadura, chega nítida e segura a algazarra da criançada, aquela fanfarra infantil desafinada, concertada somente na sinfonia, na alegria que se repercutiria sempre como eco nos montes e côncavos da vida. Em simultâneo e com lisura, quer dizer, sem maldade, as pragas de homem ou mulher, de mistura com orações balbuciadas a pedirem perdão, arrependidos, do impropério de ocasião. Chega o balir do cordeirinho acabado de nascer e, logo após a mãe a comer a placenta, o gesto do pastorinho, levá-lo ao colo que, pequenino, não aguenta o andamento do rebanho. Chega o balir choroso do cabritinho que, ano após ano, o cabriteiro separava da mãe, metendo-o no alforge da cavalgadura e, sem ternura, o levava para o talho. Que sarilho. Chorava a mãe e chorava o filho. E eu me pergunto hoje: aquilo era choro, ou era ralho?

O assobio do vento é um planisfério. Um mapa-mundi. E quem não é surdo, nele ouve o critério da razão e do absurdo. Encruzilhadas de vidas. Amizades achadas, amizades perdidas. Sim senhor! Extenso é o rol. Cantares e “ais” de dores sofridas, cuidados dos pais educando a prole. Subidas e quedas, na cavalgada, a subir e a descer, um ror de vidas paralelas e desencontradas. E o vento, dotado de movimento suave ou ciclónico, barco sem remo, chega sempre por Deus ou pelo Demo, de noite ou de dia. E se não fala... ele se mostra, ele assobia.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.