Trilhos Serranos

Está em... Início Memórias OS TELEFONES RURAIS NOS ANOS 60 DO SÉCULO XX
domingo, 22 março 2015 09:30

OS TELEFONES RURAIS NOS ANOS 60 DO SÉCULO XX

Escrito por 

 

A IMPORTÂNCIA DA URINA


A maioria dos cidadãos, senão quase todos, que hoje metem a mão no bolso, puxam do telemóvel, dedilham uns tantos números e se põem a falar com um amigo(a), ali mesmo ao lado ou a quilómetros de distância, não fazem a mínima ideia da dificuldade que era duas pessoas porem-se a falar ao telefone, há meio século atrás, em zonas afastadas dos grandes ou médios aglomerados urbanos.

Guarda-fios-1aHoje mesmo (21-03-2015)  Amorim Amado, pelos vistos uma pessoa cuja curiosidade ainda o empurra para o campo do SABER, perguntou-me como funcionavam os telefones que tinham uma só linha aérea, dado que, tendo estado na Chicoa, distrito de Tete, em 1972,  onde havia um telefone,  sabia que a outra linha, dita de "retorno" se fazia pela Terra, estranhando como era isso possível, numa região tão quente e seca.
Eu calculei que a pergunta trazia "água no bico" e respondi à sua principal dúvida de forma sucinta, mas  agora, como lhe prometi, vou pormenorizar.

De facto, nos telefones rurais dos anos 60 do século passado,  telefones de magneto (com manivela) a ligação fazia-se através de uma linha aérea, presa em isoladores de porcelana enroscados em suportes de ferro metidos em postes de madeira, e outra formada por uma estaca metálica, geralmente de cobre, metida na terra. Nos fins de linha, isto é, nas estações dos correios ou postos administrativos, não havia problema, pois os funcionários conheciam a técnica e mantinham húmido o sítio onde estava espetada a estaca. O problema  de ligação eficiente levantava-se quando nós, na Guarda-fios-2montagem de uma linha, ou na reparação de uma avaria, tínhamos de estabelecer uma ligação improvisada, em qualquer sítio do traçado.  Nessa altura, com os terminais do aparelho, ou seja, duas molas "boca de jacaré", uma a morder a linha aérea, outra a morder a ponta da estaca metida no chão, dávamos à manivela e ... nada. A ligação não se estabelecia por contacto insuficiente com a terra quente e seca naquele sítio. Mas o homem sempre encontrou soluções para os contratempos, resolvendo problemas técnicos que não se estudam nos livros. Fazíamos uma pequena cova em redor da estaca e punha-se toda a equipa urinar para ela, por forma a estabelecer o contacto desejado. A coisa resultava. E os romanos, que que levavam da Península Ibérica para Roma carradas e barcadas de ânforas de mijo para lavarem os dentes, longe estavam de adivinhar que, no século XX, o mesmo líquido serviria para as comunicações telefónicas, algures no cu do mundo onde eles, os conquistadores, nunca puseram os cotos.

E os amigos estão a ver o caricato da situação. Num terminal, uma telefonista sentada ao PBX a meter a cavilha no orifício do painel luminoso que tinha à sua frente. No outro, um homem a dar à manivela e quatro ou cinco a mijar para a estaca a fim da conversa se tornar audível para os dois. Até parece que, sem sabermos, estávamos na pré-história das chamadas eróticas de valor acrescentado.

Posto isto, e como meti os romanos neste pequeno registo de memória,  informo ainda o senhor Amorim Amado, pessoa que não conheço pessoalmente, que se pesquisar no Google vai encontra não apenas o desenho dos circuitos, mas também a explicação que se segue. Em italiano, como convém. Faça o favor de traduzir:

"(...)
Poiché funzionava senza pile ed era costituito da semplici bobine avvolte su una calamita il telefono di Bell a volte veniva chiamato “telefono magnetico” (vedi ad esempio A. Jengo, La telefonia, Livorno 1904, da cui sono tratti i due schemi presentati).

Il più semplice impianto telefonico era costituito da due telefoni T perfettamente identici, funzionanti sia da trasmettitore che da ricevitore (funzionamento reversibile), collegati da due conduttori di linea L o soltanto da un conduttore, utilizzando la terra, esattamente come nel circuito telegrafico, come filo di “ritorno”.




Ler 359 vezes
Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.