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segunda, 02 junho 2014 13:05

CUJÓ - A NOSSA VACA ROXA

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Feita a 4ª classe na antiga Escola Primária, transitei imediatamente, sem exame de admissão, para o curso da Agricultura e da Pastorícia, sorte que estava reservada a todos os meninos da minha idade, nados e criados longe dos meios urbanos dos liceus e das universidades.
Sem furos, sem faltas e sem diplomas que registassem a avaliação de desempenho, cresci a ajudar os meus pais na luta pela sobrevivência. As cadeiras nucleares do curso incluíam as técnicas de cortar matos e lenhas, lavrar terras e estrumá-las, acarretar o milho e o centeio para as eiras, malhá-los e moê-los para que se pudesse fazer o pão.
Tornei-me nisso, tal como os meus irmãos, numa espécie de catedrático. Sei o que custa alombar com sacos de cereais para os moinhos hidráulicos do Rio Mau e do Rio Calvo e sei o que custa estar de joelhos agarrado a um moinho manual para «arreloar» um «surmil» de milho e fazer umas papas, quando a broa faltava no açafate. Iniciei-me também na arte de pedreiro. Foi assim até aos 18 anos de vida.

FOTOCOPOSIÇÃO - 2016 2 RedzCom essa idade abandonei a Escola Agro-pecuária e assentei praça como voluntário no RI 14 de Viseu, após o que, tropa feita, embarquei para Moçambique, onde granjeei o pão a lavrar jeiras diferentes, já sem a enxada, sem o arado e sem o auxílio dos animais.
Mas, nos escaninhos da memória da juventude, permanece a imagem da vaca Roxa levada para casa dos meus pais ainda vitela. Jovem, de sangue na guelra, ela logo mostrou ser rebelde ao jugo e à molhelha. «És arisca, mas hás-de amansar», ouvi o meu pai dizer-lhe, quando, pela primeira vez, lhe pôs a carapuça de cabedal entre os cornos. Barafustou, esperneou, bufou, mas não teve outro remédio senão sujeitar-se às lides para que nasceu. Assim cresceu e aprendeu o ofício, mas sempre que lhe dava na gana negava a cabeça aquela humilhação humana.
Possante, poderosa que nem um touro, de cor vermelhada a atirar para a raça arouquesa, mas de cornadura aberta e alta bem diferente dessa raça cabana, todos nós, lá da casa dizíamos que «só lhe faltava falar». Conhecedora dos nossos lameiros e propriedades de pasto, no Rio Mau, na Mourisca, nos  Panascais e outras que tais, bastava levá-la ao início do caminho. Nem mais mando, nem comando. Assumia a liderança da ida e da volta, como se lesse na roda do Sol a hora de retornar a casa. A parceira, a Cabana, seguia-a para onde quer que ela fosse. Uma autêntica «Maria vai com as outras».
Portando-se como se tivesse entendimento, vim a perceber, muito mais tarde, este seu comportamento. Com personalidade própria, algo de selvagem e de independência lhe corria nas veias. Primeiro, foi a recusa de receber docilmente a molhelha e o jugo. Depois, aquela iniciativa de dispensar o pastor na ida e no retorno dos pastos. Eu não tinha lido ainda o trabalho de Rui Fernandes, «tratador de lonas e bordates» de Lamego, que, no século XVI, falando das gentes e animais do Montemuro, diz que de Maio a Setembro as vacas pastam na serra e de Setembro a Maio pastam na Gândara, junto do mar, entre Aveiro e Coimbra, sendo certo que, se os donos as não acompanham «elas são já tão sentidas no tempo que se o tempo é quente muitas se vêm por si e se o tempo é frio, por si se vão».


Afinal o comportamento independente e algo selvagem da nossa vaca Roxa, tinha as suas raízes na história e na genética, naquele hábito nómada, transumante das vacas do Montemuro se deslocarem sazonalmente para as terras baixas e quentes e dessas terras regressarem ao ponto de partida, apenas comandadas pelo tempo e pela sua experiência.  
Compensando-a por esse seu comportamento, resolvi um dia distingui-la com uma correia de dupla fiada de campainhas pendurada ao pescoço. Tinha feito umas covas de carvão nas tapadas do Rio Mau para comprar um relógio de pulso e uma caneta. Com o dinheiro que sobrou comprei as campainhas em falta. Trabalhei nisso o dia inteiro, mas não tendo acabado a tarefa, a vaca recolheu à loja sem a sinfonia tilintante do costume.
A loja, como em quase todas as moradias da Beira Alta, era por baixo dos quartos de dormir, assoalhados. E nessa noite, estando nós todos deitados, ela mugia de quando em vez, o que todos estranhávamos. Era um mugir estranho, dolente e espaçado. E, face à lamúria, o meu pai, no quarto ao lado, interrogou-me: «ó rapaz, botaste a ceia às vacas»? «Botei, sim, senhor pai». Mas ela mugia e tornava a mugir. E eu pensei para comigo: «se calhar sente a falta das campainhas». Na dúvida, levantei-me e, num ápice, fui pendurar-lhe o colar ao pescoço. Calou-se logo, ficou muda que nem uma pedra, deixou de chorar. E nós pudemos, finalmente, adormecer que nem santos.FOTOCOMPOSIÇÃO-2016-Redz

O meu irmão Nuno foi o mais novo da prole de sete irmãos que lidou com ela. Estávamos na década de 60, do século XX. Na companhia do nosso pai, foi vendê-la ali para os lados de Gosende, aldeia no sopé da serra do Montemuro. Disse-me que lhe vieram as lágrimas aos olhos quando lhe retirou do pescoço a correia das campainhas. E que ela, sem tossir nem mugir, o olhou enternecida e triste. O destino tem destas coisas. Se nas veias lhe corria o sangue daquelas vacas montemuranas que, no século XVI, no Inverno, se deslocavam sozinhas para as terras baixas e quentes da Gândara, ela retornou à Pátria onde, seguramente, pela idade avançada, não tardaria a conhecer o caminho do talho.

Ignoro o seu fim. Mas não me custa a crer que, talhada em bifes, comida e digerida, passada pelo estreito, convertida em estrume, os seus restos tenham servido de alimento às plantas e árvores que povoam os montes que me rodeiam e que fornecem o oxigénio que me areja o cérebro, que me aviva a memória, que me traz à lembrança os seus feitos e a sua personalidade, as linhas e o volume do seu corpo, contornos e cornos e, por força de tudo isto, agarrado aos pincéis e às tintas, tenha, ao jeito de lavrador principiante, pintado a sua imagem numa tela e, com a dignidade que merece um animal que nos ajudou a granjear o pão que se comia em casa dos meus pais, a tenha pendurado em lugar de destaque na minha sala de visitas, não só como símbolo das relações afectivas que todos os agricultores têm com os animais, mas também como símbolo de uma actividade económica cada vez mais abandonada, desde os finais do século XX. Já não há vacas de trabalho em Cujó. Hoje há outras formas de governar a vida!

NOTA: este texto foi publicado no meu velho site «trilhos serranos» em 2009

Quer ver a sua morada, hoje em ruínas? E só clicar e verhttp://www.youtube.com/watch?v

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.