Trilhos Serranos

Na ordem cronológica da «Imprensa Local» de Castro Daire, entrou um jornal que tinha por título «Castro Daire». Nasceu em 30 de Novembro de 1917 e era seu Director e Editor Alfredo Semedo. Dizia-se «Órgão mensal, independente, defensor dos interesses locais».

            A primeira página do primeiro número abre com um esclarecimento da  «Redacção» acerca  dos seus propósitos:

«Foi resolvido entre os seus proprietários adoptar uma acção independente, em prol do concelho, não poupando eja quem for que, a nosso ver, para o bem dos seus interesses pessoais prejudique o bom andamento dos negócios públicos, o progresso e a civilização desta terra que nos propomos defender com energia».

O artigo de fundo, também, na primeira página, versa sobre «A INTRIGA». Assim:

Não. Não é o título do belo poema de Pedro Homem de Melo, cantado e recantado pelas grandes vozes portuguesas, que soa bem no ouvido de todas as pessoas da minha geração. Não. Este povo são as mulheres de Cujó que, nos meus tempos de criança, iam lavar a roupa para aquela poça do rio Calvo, a jusante da ponte que existia e existe no caminho que levava e leva aos terrenos de Vale de Carvalho, Touça, Rio Mau, Moirisca, e todos os montes que estavam para lá do Santo António e do Senhor da Livração. Sítio conhecido, agora, como então, por PONTE, aquela passagem que deu o nome ao moinho hidráulico que existe perto dela e, recentemente, ao templete que abriga uma imagem da Nossa Senhora, a SENHORA DA PONTE.
Perguntar-me-ão a razão por que, aos 74 anos de idade, faço esta incursão na memória. Eu dir-vos-ei que é a sina de quem, mergulhado no estudo do passado, esbarra não só com os documentos escritos, com edifícios, solares, castelos e igrejas, casas cobertas de colmo, choupanas espalhadas por lameiros e tapadas, património material construído, mas também com os documentos orais, artefactos arqueológicos de comunicação, tão frequentes nessa «ágora» feminina, onde as mãos das mulheres «bate-que-bate, esfrega-que-esfrega», lavando a roupas suadas do esforçado trabalho do campo, também «bate-que-bate» com a língua, lavavam a vida e os pecados da aldeia.

O ANCIÃO E  «A MOLEIRINHA»

Estava eu, no dia 18 do corrente,  à  volta de um prato de sardinhas assadas na brasa, quando se aproximou de mim um ancião, pediu licença pela interrupção, e perguntou-me se eu era aquele senhor que escrevia no jornal. Que lia sempre os meus artigos e tinha notado a  minha ausência, nos últimos tempos. Que sim, senhor, era eu mesmo, gosto em conhecê-lo. Quem é?
Um pouco marreco, voz insegura, notoriamente mouco, olhar vivo e penetrante, sorriso desdentado, estava à minha frente uma carrada de anos em forma de homem muito magro e visivelmente de letras gordas.
Eu queria oferecer-lhe um livro. Sim, senhor, obrigado. E meio assustadiço, colocou-me ao lado do prato das sardinhas um opúsculo com o título «A MOLEIRINHA», capa decorada com uma pequena e tosca figura de barro, saída, seguramente, de um ignoto barrista que molda imagens à proporção da sua imaginação e engenho. Voltou a pedir desculpa pela interrupção e foi sentar-se numa mesa próxima. Ouvi-o pedir o almoço e vi o esforço da empregada para fazer-se ouvir a informá-lo dos pratos do dia.

Do terraço ou da varanda da minha casa, em Lourenço Marques, vejo o mundo apressado, cada um na sua, confuso a correr pela rua, pelas avenidas, de lado para lado, de banda para banda. Carros camionetas camiões carregados de mobílias roupas almofadas colchões mesas cadeiras famílias inteiras refugiadas dos subúrbios da cidade chegam de todas as partes temerosas da fúria exaltada da multidão negra excitada. Confrontam-se negros e brancos. Que pensamentos que angústias que sentimentos movem tanta gente conhecida que se desconhece? É racismo é ódio recalcado pelo tempo nunca ultrapassados por colonizadores e colonizados apesar de conviverem séculos nos bancos dos jardins nas ruas e esplanadas nas casas?

Num livro das vereações da Câmara de Castro Verde, relativo ao ano de 1680, encontra-se uma decisão dos edis que ao tempo ocupavam o poder e bem assim o resultado dessa decisão, feita no ROL DOS PARDAIS que ficou registado na contracapa de pergaminho do mesmo livro. Eu transcrevo com todo o sabor da época.

Cores? Elas são tantas. Tantas quantas os amores e humores da gente que no mundo vive, que o mundo sente.

Das giestas, o amarelo e o branco aveludados. Do carvalho, dos sargaços e de mais arbustos rasteiros, por todos os lados dispersos, o verde nos tons diversos, de aromas, de odores impregnados, à mercê de quem quer que seja, de quem os olha, cheira e vê, pois certo é que há quem olhe e não veja.

O tempo! Que coisa estranha é o tempo! Esse fio invisível e infindável que, de braço dado com o espaço, do infinito vêm e no infinito se perdem. Quem os vê? quem os alcança? quem os mede?