Trilhos Serranos

ARQUEOLOGIA INDUSTRIAL

No meu livro “CUJÓ, UMA TERRA DE RIBA-PAIVA” existe um capítulo sobre a indústria moageira tradicional, com referência a todos os moinhos hidráulicos existentes ao longo dos rios Calvo e do rio Mau, mas também a referência à MOAGEM que, por falta de água nos rios, levou o meu pai, Salvador de Carvalho, de parceria com os Tibérios (os Teixeiras) a instalá-la por forma a que nela os cereais fossem transformados em farinha. O meu pai fornecia as instalações, as mós, o correame e mais apetrechos e  os Tibérios o motor da sua malhadeira, primeira e única na povoação, nessa altura.

RELÓGIOS DE CORDA

Abandonados,

Pelos cantos das casas esquecidos

Descartados,

Sem corda, parados

Sem ninguém lhes ligar pevide,

(Que mal agradecidos!),

Eis que chegou a Covide

E fechou todo o mundo em casa

Lembrando tempos idos. (ver mais)

EMIGRANTE NACIONALIZADO

Há um bom par de anos, não sei se de barco ou de avião, numa altura em que a GLOBALIZAÇÃO, o TURISMO e o COMÉRCIO à escala mundial, não tinham ainda forjado os estreitos elos de ligação entre povos e nações, a deslocação fácil de pessoas e produtos; tempo de ver e conhecer monumentos e culturas diferentes; tempo de apreciar e saborear o que de exótico e diferente existe no mundo; tempo que as grandes superfícies comerciais, essas catedrais do CONSUMISMO, eram coisas do porvir, chegou a Portugal um EMIGRANTE, cuja identidade estava estampada no seu passaporte. Nele se mostrava o seu nome, o seu rosto e o próprio e país de origem.

 


Pisão

IINDÚSTRIA DE TECIDOS - O PISÃO

Para que a teia de lã seja transformada em manta ou vestuário terá de ser pisoada e, para isso, lá existe um engenho, o pisão, cujas origens, para não destoar do tear a que anda associado, também não é fácil saber.

 

Engenho movido a energia hidráulica (ver figura) o seu equipamento é constituído essencialmente por uma «roda motriz», exterior ao edifício. Girando à força da água, o «eixo» que nela entronca, atravessado por duas «esperas», «dobadoiras» ou «levas» que nele são colocadas, em cruz, a pouca distância uma da outra, constituindo como que os cotovelos de uma cambota, transmite  o  movimento   aos  «maços»   que,    alternadamente,  são forçados a levantarem-se e a caírem soltos sobre a teia colocada na «masseira», ou «caldeadoiro».


 

Construído com materiais existentes na região, este tipo de engenho bem pode ser considerado um dinossauro no reino da técnica. Troncos e barrotes de madeira, geralmente carvalho e castanho, adquirem a forma e os nomes próprios dados pelo traçador, pela serra braçal, pelo machado e pela enxó. São os nomes que lhe advêm da função e do lugar que cada peça toma no corpo do «maquinismo» : roda motriz, eixo, esperas (levas), rabadilhas, maços (ou malhos), chavelhas, merendos, barelas, entroncas, masseira (ou gastalho/caldeadoiro) etc.

Só a «caldeira» é de cobre. Só a caldeira não é de fabrico doméstico. Suspensa sobre a «fornalha»  tem por função enviar permanentemente água quente para a masseira e manter a teia humedecida para facilitar o aperto do tecido.

O pisoeiro vela por isso. De tantas em tantas horas, utilizando o «pejadoiro» (tábua que, atravessando a parede, foi colocada a jeito de desviar a água da roda motriz, sem se sair do interior das instalações) imobiliza o engenho e, agarrando uma ponta da teia, enrola-a no «orgão» de madeira (tipo rodízio de tirar água ou terra de poços), colocado mesmo ao lado, a fim de aferir o aperto e a textura do tecido. Se está capaz, vai colocá-lo ao sol, estendido nos lameiros circundantes. Se não está, devolve-o à masseira (uma espécie de gamela cavada num tronco de árvore) e recomeça o processo.

Dos pisões que ainda laboravam nos meados deste século no concelho de Castro Daire, só restam três e um deles arrancado ao seu habitáculo de origem a fim de não levar o destino dos outros. Todo o engenho, já em franca degradação, deixou a Ponte  da   Ermida,    ali,   onde   se  juntam   os   ribeiros  de Mouramorta e da Carvalhosa, e foi levado para o Mezio, em 1987, onde foi recuperado e montado  a  coberto de novas instalações construídas de granito.

O  outros  dois  situam-se  na  freguesia de Pinheiro, no ribeiro da Carvalhosa, a uns escassos 500 metros da arruinada e medieval povoação do Bugalhão. Um, situa-se na Fonte Branca, e o outro, na Ruínha, este a escassos 100 metros a montante daquele.

O da Fonte Branca era, nos fins do século passado, propriedade de  João da Costa Pinto, de Cetos. Passado aos herdeiros, acabou nas mãos de António da Costa e deste passou a Celestino Inácio de Paiva, do Sobradinho, que casou com uma filha daquele que, em meados deste século, havia-de ser conhecido nas redondezas por «António Pisoeiro».

O da Ruinha pertence actualmente a Guilherme da Costa, de Picão.

NOTA: A DESCRIÇÃO DO FUNCIONAMENTO DO «PISÃO» CONSTA DO MEU LIVRO «CUJÓ, UMA TERRA DE RIBA-PAIVA» PUBLICADO EM 1993 E TAMBÉM NO MEU LIVRO «CASTRO DAIRE, INDÚSTRIA, TÉCNICA E CULTURA» PUBLICADO EM 1995. FIZ A TRANSCRIÇÃO PARA ESTE MEU SITE, HOJE MESMO, A FIM DE PARTILHÁ-LA NO MURAL DO FACEBOOK, FACE À PERGUNTA DE UM CONTERRÂNEO MEU, QUERENDO SABER PARA QUE SERVIA O PISÃO.

É O QUE VOU FAZER DE SEGUIDA.





RAMBO PORTUGUÊS

Hoje, à hora do almoço, um canal de televisão exibia um filme de guerra americano, um daqueles a que já estamos habituados: caras farruscas, tiros, pancadaria, mortos, feridos, etc. etc.