Trilhos Serranos

 JANELA DE GUILHOTINA

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Semelhantemente

À lâmina que caía

Solta e decapitava gente

Em França

De guilhotina se dizia

Esta janela

Pela forma como ela

Se fechava e abria.

Assim o aprendi em criança.

O ANCIÃO E  «A MOLEIRINHA»

Estava eu, no dia 18 do corrente,  à  volta de um prato de sardinhas assadas na brasa, quando se aproximou de mim um ancião, pediu licença pela interrupção, e perguntou-me se eu era aquele senhor que escrevia no jornal. Que lia sempre os meus artigos e tinha notado a  minha ausência, nos últimos tempos. Que sim, senhor, era eu mesmo, gosto em conhecê-lo. Quem é?
Um pouco marreco, voz insegura, notoriamente mouco, olhar vivo e penetrante, sorriso desdentado, estava à minha frente uma carrada de anos em forma de homem muito magro e visivelmente de letras gordas.
Eu queria oferecer-lhe um livro. Sim, senhor, obrigado. E meio assustadiço, colocou-me ao lado do prato das sardinhas um opúsculo com o título «A MOLEIRINHA», capa decorada com uma pequena e tosca figura de barro, saída, seguramente, de um ignoto barrista que molda imagens à proporção da sua imaginação e engenho. Voltou a pedir desculpa pela interrupção e foi sentar-se numa mesa próxima. Ouvi-o pedir o almoço e vi o esforço da empregada para fazer-se ouvir a informá-lo dos pratos do dia.

A SUA VIA SACRA

Saído das berças sitas nas «terras quentes» de Mirandela, gerado no útero de onde saíram, espaçados a compasso das estações do ano,  mais sete irmãos, entenderam os pais que o caminho daquele rebento, escola primária feita, seria o Seminário de Vila Real (somente Seminário, sem distinção de Menor ou Maior) onde, no dizer do actual homem adulto inconformado por ter sido expulso, se «entrava porco e saía salsicha», pronta para entrar no mercado.

De currículo público lacrado, recostado nesta minha cadeira da terceira idade, eu mantenho-me sempre atento às gentes que me rodeiam e comigo falam. Esporadicamente leio os "textos" anónimos que falam tanto da política e políticos locais, que nem todos os galos do campo a anunciarem as manhãs. 

Leio e reflito sobre os NOMES e a razão da sua existência. Não é preciso fazer grande pesquisa para sabermos que os "nomes" servem para identificar as COISAS e as PESSOAS

Do terraço ou da varanda da casa onde moro, em Lourenço Marques, pasmo, sofro e choro.Vejo o mundo apressado, cada um na sua, confuso a correr pela rua, pelas avenidas, de lado para lado, de banda para banda. Carros camionetas camiões carregados de mobílias roupas almofadas colchões mesas cadeiras famílias inteiras refugiadas dos subúrbios da cidade chegam de todas as partes temerosas da fúria exaltada da multidão negra excitada. Confrontam-se negros e brancos. Que pensamentos que angústias que sentimentos movem tanta gente conhecida que se desconhece? É racismo é ódio recalcado pelo tempo nunca ultrapassados por colonizadores e colonizados apesar de conviverem séculos nos bancos dos jardins nas ruas e esplanadas nas casas?