Trilhos Serranos

1 - Numa altura de eleições autárquicas (neste ano de 2013), após o primeiro debate feito na Rádio Limite pelos candidatos do CDS-PP (Carlos Rodrigues) e do PSD (Luís Alberto da Costa Pinto), explanado que foi o seu conceito de CULTURA, circunscrito aos Grupo de Teatro do Montemuro, ranchos folclóricos e bandas filarmónicas, injusto seria eu para com o antigo presidente da Câmara João Matias e presidente da Assembleia Municipal, Dr. João Duarte de Oliveira, não trazer à colação as palavras por eles proferidas, em 1995, na sessão de lançamento do meu livro «Castro Daire, Indústria, Técnica e Cultura». Faço-o tão-somente para produzir um documento histórico, já que a história não se faz sem documentos e eles nos revelam o que pensam os homens e os conceitos pelos quais guiam os seus procedimentos, pessoais e políticos. 

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Persistindo na divulgação dos cidadãos empresários que levaram longe, por bons motivos, o nome do concelho de Castro Daire e dos produtos que cá que fabricavam, é hoje a vez do senhor Valentim Monteiro. Para isso, como venho fazendo, socorro-me do meu livro «Castro Daire, Indústria, Técnica e Cultura», editado pela Câmara Municipal, em 1995, produto da «investigação aplicada» que fiz no uso da «licença sabática», quando era professor na Escola Preparatória de Castro Daire, direito/regalia que criou engulhos a alguns colegas que jamais se abalançaram a tal empreendimento e que, hoje, a troco de uma «planificação de aula» exigem o grau de «excelência». Aí vai:

«Tendo por logótipo uma «águia a sobrevoar as cinco tetas da serra do Montemuro» existiu em Castro Daire uma fábrica de refrigerantes da qual saia o famoso e acessível pirolito, garrafinha de pescoço apertado, onde se baloiçava berlinde de vidro a servir-lhe de rolha, depois de pressionado pelo dedo.
A iniciativa pertenceu a Valentim Monteiro, nascido em 1907 e falecido em 1983. Natural de Picão, manteve-se na aldeia até aos dezoito anos de idade, ajudando os pais nos serviços da lavoura e da pastorícia. Gabava-se de ter «aprendido a ler e a escrever enquanto guardava as ovelhas».

Nesta minha saga de não deixar no esquecimento as pessoas que, fazendo pela sua vida, como é legítimo, levaram longe o nome do nosso concelho, sempre por boas razões, transcrevo do meu livro «Castro Daire, Indústria, Técnica e Cultura», editado em 1995 as palavras que ali deixei sobre o cidadão empresário, senhor Alfredo Ferreira Morgado. Ora veja-se:

Na ordem cronológica da «Imprensa Local» de Castro Daire, entrou um jornal que tinha por título «Castro Daire». Nasceu em 30 de Novembro de 1917 e era seu Director e Editor Alfredo Semedo. Dizia-se «Órgão mensal, independente, defensor dos interesses locais».

            A primeira página do primeiro número abre com um esclarecimento da  «Redacção» acerca  dos seus propósitos:

«Foi resolvido entre os seus proprietários adoptar uma acção independente, em prol do concelho, não poupando eja quem for que, a nosso ver, para o bem dos seus interesses pessoais prejudique o bom andamento dos negócios públicos, o progresso e a civilização desta terra que nos propomos defender com energia».

O artigo de fundo, também, na primeira página, versa sobre «A INTRIGA». Assim:

Não. Não é o título do belo poema de Pedro Homem de Melo, cantado e recantado pelas grandes vozes portuguesas, que soa bem no ouvido de todas as pessoas da minha geração. Não. Este povo são as mulheres de Cujó que, nos meus tempos de criança, iam lavar a roupa para aquela poça do rio Calvo, a jusante da ponte que existia e existe no caminho que levava e leva aos terrenos de Vale de Carvalho, Touça, Rio Mau, Moirisca, e todos os montes que estavam para lá do Santo António e do Senhor da Livração. Sítio conhecido, agora, como então, por PONTE, aquela passagem que deu o nome ao moinho hidráulico que existe perto dela e, recentemente, ao templete que abriga uma imagem da Nossa Senhora, a SENHORA DA PONTE.
Perguntar-me-ão a razão por que, aos 74 anos de idade, faço esta incursão na memória. Eu dir-vos-ei que é a sina de quem, mergulhado no estudo do passado, esbarra não só com os documentos escritos, com edifícios, solares, castelos e igrejas, casas cobertas de colmo, choupanas espalhadas por lameiros e tapadas, património material construído, mas também com os documentos orais, artefactos arqueológicos de comunicação, tão frequentes nessa «ágora» feminina, onde as mãos das mulheres «bate-que-bate, esfrega-que-esfrega», lavando a roupas suadas do esforçado trabalho do campo, também «bate-que-bate» com a língua, lavavam a vida e os pecados da aldeia.