Trilhos Serranos

INTROITO

O fascínio da investigação feita longe da Torre do Tombo, das bibliotecas e espaços afins, chancelarias e cartórios notariais, longe dos manuscritos, escrituras e testamentos, peças recheados de informação histórica, eu, nesta minha  postura de lenhador na FLORESTA DAS LETRAS que, de podão em punho, não desiste de abrir  clareiras de conhecimento, nesta minha tarefa historiador rústico e campesino, prossigo a investigação  nas “estórias de vida” com hálito de gente viva, contadas pela boca das pessoas idosas, autênticas bibliotecas ambulantes abarrotadas de calor humano, formas de dizer, jeitos e trejeitos, peças recheadas de saberes, artes e técnicas com patine secular, transmitidas de geração em geração, por imperativo da polivalência laboral imposta pelas leis da sobrevivência e da governança.

ALFREDO FERREIRA MORGADO -  LAMELAS

 Nesta minha saga de não deixar no esquecimento as pessoas que, fazendo pela sua vida, como é legítimo, levaram longe o nome do nosso concelho, sempre por boas razões, transcrevo do meu livro «Castro Daire, Indústria, Técnica e Cultura», editado em 1995 as palavras que ali deixei sobre o cidadão empresário, senhor Alfredo Ferreira Morgado. Ora veja-se:

FÁBRICA DE REFRIGERANTES "ÁGUIA DO MONTEMURO"

Muito antes do jornal "Voz do Montemuro" ter surgido em Castro Daire, jornal que teve uma vida breve pois foi nado e morto no ano de 1985, muito antes do seu logotipo ter como ilustração o recorte da serra do Montemuro, já o nome desta serra e as suas cinco tetas tinham voado longe nas asas de uma "guia", nome e símbolo com que foi conhecida a única Fábrica de Refrigerantes implantada no concelho.

A iniciativa pertenceu a Valentim Monteiro, nascido em 1907 e falecido em 1983. Natural de Picão, manteve-se na aldeia  até aos dezoito anos de idade, ajudando os pais nos serviços da lavoura e da pastorícia. Gabava-se de ter "aprendido a ler e a escrever enquanto guardava as ovelhas".

MILAGRE - FAREJA

No último quartel do século XVIII existiu na aldeia de Fareja, concelho de Castro Daire, um padre abastado com o qual se relaciona a seguinte narrativa.

Pensou aquele clérigo distribuir os seus bens pelos herdeiros que constituíam dois ramos da sua família. Não tendo ocultado as suas intenções, era manifesta a vontade de um dos ramos familiares não ver o outro contemplado com a herança, atitude que levantou, entre familiares, a correspondente e duradoura hostilidade.

Num domingo, regressando o padre da vila de Castro Daire, onde fora celebrar missa conventual, faleceu junto ao sítio denominado Lobo Joanes, topónimo que já se encontra registado nas inquirições mandadas fazer por D. Afonso III, em 1258.

 

CENTRALISMO POLÍTICO E CULTURAL

Ciente do centralismo político, administrativo e cultural decorrente da reforma dos FORAIS levada a cabo por D. Manuel I e da classificação dos ofícios feita pelos nossos humanistas de quinhentos em «artes liberais» e «artes servis» resolvi retomar as ideias postas num trabalho académico elaborado em 1994-1995 para a «progressão na carreira docente» e trazer a esta página um excerto do texto que integra um trabalho de maior fôlego que tenho entre mãos  com vista a aclarar esses conceitos e a forma do «pensar e agir» das nossas gentes, sem se darem conta disso. Assim: