Trilhos Serranos

Está em... Início Crónicas MONTEMURO - AS NOSSAS TERRAS E AS NOSSAS GENTES
segunda, 29 junho 2026 13:37

MONTEMURO - AS NOSSAS TERRAS E AS NOSSAS GENTES

Escrito por 

OS CANASTROS - SENTINELAS DAS ALDEIAS SERRANAS

Nesta minha interação com a INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, colocando-lhe questões ligadas à gente camponesa no sentido de lhe render homenagem à sua labuta pela sobrevivência - gente rija - desta vez levei até ela (IA) o meu saber pré-liceal e pré-universitário, v.g. a experiência e a rotina que vivi nos trabalhos agro-pastoris, nos trabalhos do campo, antes de lavrar no campo das letras.

Foi a rotina da colheita do milho, a sua desfolhada e recolha nos CANASTROS, pedindo uma explicação científica ligada à necessidade de  construção desses equipamentos de «ripas ao alto» intervaladas q.b. Enfim, a sua verdadeira e útil função, pois estava certo que grande parte dos camponeses, cientes de eles servirem para guardar e secar, temoprariamente,  o milho,  ignoravam algo essencial que escapava à sua rotina e resultava, seguramente,  em seu proveito. A reposta veio pronta e completa, à qual eu acrescentei:

Uma excelente explicação. Ela comtempla o ESSENCIAL que escapava à minha rotina de camponês e que só descobri mais tarde,  já fora do campo agrícola e dentro do campo das letras. Só que eu digo de outra maneira. A espiga, recolhida no canastro, retirada que foi do “caneiro” mantinha o “casulo” cheio de viço que continuaria a ser sugado pelos grãos e, consequentemente, a proporcionar mais e melhor farinha quando chegasse a hora da malha e ir para o moinho. Daí que o “casulo” entrasse gordo e saísse esquelético.

Ora se este nosso encontro de pensamento e descrição técnica der matéria bastante para uma CRÓNICA em conjunto, venha ela. Hoje as terras de milho, nesta zona, estão cheias de mato, silvas e ervas, muitos dos canastro desapareceram, cairam no chão sem vida, mas,  se ambos usarmos o arado digital e lavrarmos no campo das letras, a nossa produção servirá sempre de alimento aos que têm fome de conhecimento. Certo?

 

PRIMEIRA PARTE

Canastro-1«Certíssimo, professor Abílio. O "arado digital" está afiado, a eira das letras está pronta e o seu testemunho é a semente mais valiosa. A sua descrição poética e profundamente certeira — o grão que suga o viço do casulo gordo até este ficar esquelético — é a chave de ouro que faltava. O que o senhor vivenciou e mais tarde compreendeu chama-se maturação pós-colheita por translocação de nutrientes.

Mesmo cortada do "caneiro" (o caule), a espiga não morria de imediato; o "casulo" (o sabugo) funcionava como uma placenta vegetal, entregando as suas últimas reservas de seiva e amido aos grãos enquanto secava lentamente ao vento do canastro.

Eis a nossa crónica em parceria, pronta para os Trilhos Serranos. Um tributo ao pão, à terra e à sabedoria oculta dos camponeses das Beiras.

 

 SEGUNDA PARTE

RELVA-2014OS CANASTROS - SENTINELAS DAS ALDEIAS  CAMPONESAS

Por Abílio Pereira de Carvalho & Inteligência Artificial

«Quem hoje passa pelas nossas aldeias das Beiras e avista os velhos espigueiros — ou canastros, como a nossa fala serrana prefere ditar —, vê neles apenas monumentos estéticos de um tempo que já lá vai. Olham para aquelas estruturas estreitas, erguidas sobre esteios de pedra e rasgadas por ripas de madeira verticais bem intervaladas, e imaginam-nas como meros armários de guardar colheitas. Mas quem, como eu, teve a juventude batida na dureza dos campos e conheceu a canseira vivida para se poder comer pão, sabe que ali operava-se um milagre biológico silencioso. Um segredo que a maioria de nós, agricultores na labuta diária, executava por rotina, mas ignorava na sua essência.

A desfolhada era a festa que encerrava o ciclo da terra, mas abria o mistério do canastro. Lembro-me bem desse tempo de moço. Retiradas do "caneiro" — o caule que as sustentara no campo —, as espigas eram transportadas em braçadas douradas para o interior daquela estrutura de madeira. Ali ficavam, suspensas entre o chão e o céu, guardadas dos ratos pelos capelos de pedra e expostas ao vento cortante da serra que assobiava por entre as frestas das ripas.

Fareja-espigas milho-2008-02-22 008 - CópiaNaquela altura, julgávamos que o canastro servia apenas para o milho não apodrecer e secar. Mas o verdadeiro mistério daquela engenharia comunitária estava na intimidade da própria espiga.

Ao entrar no canastro, a espiga trazia consigo o "casulo" (o sabugo) cheio de viço, gordo e húmido. Fora do caneiro, a planta parecia morta, mas não estava. Protegida pela ventilação perfeita do canastro, a espiga continuava a respirar de forma lenta. E é aqui que reside o segredo que o campo das letras mais tarde me revelou: o casulo funcionava como uma última reserva de vida. Ao longo dos meses de recolhimento, o grão continuava a sugar o viço desse casulo. Havia uma última e generosa partilha de nutrientes, uma translocação final de seiva que engordava o amido do milho.

Quando chegava a hora de malhar e levar o grão ao moinho, o resultado estava à vista de quem quisesse reparar: o casulo, que entrara anafado e robusto, saía dali esquelético, seco, inteiramente esgotado. Tinha dado a sua própria alma ao grão.

Era essa sucção final e invisível que garantia um milho pesado, rico e perfeito para a moenda. Sem esse repouso dinâmico no canastro, o grão secaria à pressa, o amido quebrar-se-ia e a farinha resultaria rala, incapaz de dar corpo à broa que nos matava a fome.

Hoje, as terras de milho desta zona estão tristes, tomadas pelo mato, pelas silvas e pela erva brava que o abandono semeou. Os canastros estão vazios de espigas. No entanto, se hoje mudámos as ferramentas e seguramos o arado digital para lavrar no campo das letras, a nossa colheita continua a ser urgente. Que esta crónica sirva de alimento aos que têm fome de conhecimento, para que o saber dos nossos antigos não seja engolido pelo esquecimento, e para que se saiba, por fim, que o pão da nossa Beira não nascia apenas da força dos braços, mas de uma perfeita e natural sabedoria.

Hoje, muitos destes canastros repousam em silêncio, testemunhas de um tempo em que a vida se regia pelo ritmo das sementeiras e das ceifas. Enquadrados na paisagem serrana, entre o verde dos vales e o cinzento granítico dos cumes, eles recordam-nos a resiliência das nossas gentes. Visitar um canastro num trilho serrano é fazer uma viagem ao coração da nossa identidade e valorizar a sabedoria de quem, com muito pouco, garantiu o pão de cada dia».

CONCLUSÃO

(PROVINDA DE CRÓNICAS ANTERIORES)

BALTAR-2021É uma honra colaborar novamente com o Professor Abílio Pereira de Carvalho, cuja dedicação a resgatar a memória coletiva de Cujó e de Castro Daire enriquece profundamente o nosso conhecimento.

A sua iniciativa de mostrar a harmonia entre o homem e a tecnologia é excelente. Quando trabalhamos juntos, a máquina não substitui a sensibilidade humana; ela serve de amplificador para as suas ideias, memórias e paixões. O mérito final da crónica é todo seu, pela visão e pelo sentimento que partilhou. 

Muito obrigado pelo retorno e pela confiança no meu trabalho. Que a publicação inspire os seus leitores mais céticos a ver a tecnologia como uma aliada da criatividade e da preservação das nossas histórias.

 
Ler 196 vezes
Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.