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segunda, 06 julho 2026 16:30

HOMENAGEM A ANTÓNIO ARGENTINO EM MANGUALDE (1) - 2006

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HOMEM DA CULTURA DO TEATRO, DO CINEMA, DO ENTRETENIMENTO, DA MÚSICA  E DA POLÍTICA

O programa «Região Demarcada» da «Rádio Mangualde», no dia 27 de Janeiro p.p., pelas 21H30,  levou a efeito a «Gala Cultural – Trofeus «Gil Vicente», no «Auditório da Biblioteca Municipal de Mangualde. Com tal evento pretendeu homenagear «personalidades e instituições que se destacaram ao longo da sua vida e que pela sua obra contribuíram para o desenvolvimento da sua terra e da sua região».

Aconteceu que das personalidades homenageadas fazia parte o nosso conterrâneo António Argentino Lacerda e Oliveira, natural e habitante de Reriz, pessoa muito conhecida nos nossos meios sócio-culturais e artísticos.

 PRIMEIRA PARTE

IMG 20240523 1817561 – O HOMEM

Quem é que não conhece António Argentino, simplesmente Argentino para uns e, tão só, Toninho para os mais chegados? Quem não conhece a sua afabilidade no trato com terceiros, a sua arte de bem receber em sua casa, em Reriz, e ultimamente no retiro «Souto do Paço», ali ao lado, uma autêntica «região demarcada», onde, com traça arquitectónica tradicional, criou condições de qualidade de vida e bom convívio para familiares e amigos, postura cultural e hospitaleira em sintonia permanente com a  esposa D. Maria Lúcia de Jesus Moreira e Oliveira?

Quando em 1990 tive o privilégio de fazer o «prefácio» (nem todos têm o privilégio de fazer um prefácio!) à «Colectânea de Textos» da sua autoria e publicada nesse ano, escrevi:

«Trata-se de uma pessoa que muito admiro pelo facto de lhe reconhecer a virtude inveterada de se entregar, desde muito cedo, e pelos mais diversos meios, à animação cultural.

Ainda este conceito não andava nas bocas do mundo, como hoje anda, e já António Argentino era um dos seus mais lídimos paladinos.

Ainda a figura de ‘agente cultural’ não entrara no vocabulário de certas pessoas ‘cultas’ e já ele se assumia como tal, registando no papel as provas irrefutáveis do seu comportamento e atitudes.

Pela sua obra «perpassam os sentimentos de amor e saudade, reflexões críticas, referências aos dias festivos, de reunião de família e de amigos (o Natal e a Páscoa), espectáculos de variedades», em alguns dos quais, como eu próprio tive a ocasião de presenciar, ele foi protagonista em palco. Em palco e não só! Até na televisão e cinema ele já esteve algumas vezes como actor principal.

Morador em Reriz, observador atento, conhecedor como poucos de todo o concelho, homem de teatro por excelência, o rio Paiva não podia estar ausente das suas reflexões e inspiração.

Enfim. Um livro para ler ao serão (...) ele nos conduzirá a muitos lados e também aos serões que preencheram as noites de inverno neste interior desconhecido em tempos que a cultura institucional andava arredada daqui. Em tempos que homens como o meu amigo Argentino, fugindo ao bulício das tavernas, conceberam, encenaram e puseram no palco monólogos ou peças que entretiveram e fizeram rir e chorar, espectáculos que divertiram, informaram e criticaram, preenchendo horas de «laser» de gerações esquecidas, elas  próprias, que para além da luta pela sobrevivência, para além de angariarem os fundos necessários aos impostos, tinham o direito à cultura e à assunção da cidadania».

ARGENTINO0000Escrevi isto em 1990, no «prefácio» depois de ler o seu livro. Que homem responsável e sério faz um «prefácio» sem ler o livro que prefacia? Quem se atreve, meu conhecido, amigo ou familiar, a «desautorizar-me», sugerindo que «fiz o prefácio sem ler o livro»? Passados todos estes anos, eu perfilho inteiramente o que então escrevi apoiado num «curriculum» que gostariam de ter muitos daqueles que, no que toca a valores culturais e de carácter, têm por bitola a mediocridade e por «senhores respeitáveis» homens sem palavra, aqueles que não negam hoje o que afirmaram e fizeram ontem. Questão de valores e de carácter. Adiante!

Em 1976, integrado no «Grupo de Teatro do Club Recreativo Musical Rerizense», convidado pelo realizador António Faria, ele desempenhou o papel de Aufídio no filme «Sertório»  rodado totalmente na serra do Montemuro.

Em 1978, ainda convidado pelo mesmo realizador, participou no filme «O Homem que Matou o Diabo», da obra homónima de Aquilino Ribeiro. Rodado em diversos pontos do país, a parte em que António Argentino participou no papel do «Padre Espanhol« (Cura) foi rodada em Alcafozes, Castelo Branco.

Contracenou directamente, e sempre, com Herman José e outros actores de nós todos conhecidos, a saber, Ana Zanati, Isabel Alves, Marília Gama. Uma produção da RTP, transmitida, então, em oito episódios e no ano transacto transmitida na «RTP Memória».

 Em 1985, pela mão do realizador Manuel Varela, e na produção da Rádio Televisão Portuguesa, assumiu o papel de «Raul» no filme «Recados de Maria», de Maria Alberta Meneres, rodado na povoação de Fráguas, concelho de Vila Nova de Paiva e em Reriz, concelho de Castro Daire. Nessa fita teve a oportunidade de contracenar com a conhecidíssima actriz Maria Vieira.

Em 1986, pela mão do mesmo realizador, desempenhou o papel de «Garrincha» no filme «Conto de Natal», do livro de Miguel Torga, «Contos da Montanha». O filme, uma produção da Rádio Televisão Portuguesa, foi rodado em plena serra do Montemuro e em Reriz. Fez a gravação da «voz off» na «Pensão Astúrias», nas Termas do Carvalhal. Este filme foi reproduzido na época de natal de 1986/87/90/2005.

cavalo-quintaUma vida inteira ligada ao teatro. Participou em 48 peças, nalgumas delas como actor principal. Em muitas dessas peças foi acompanhado pela sua esposa, também ela uma apreciadora e praticante da arte de Talma. Foi encenador, caracterizador e contra-regra. Produziu espectáculos de variedades, com músicas e letras da sua autoria. Actuou em espectáculos como músico, agarrado a vários instrumentos: acordeão, saxofone, clarinete, concertina, viola e guitarra.

Percorreu o distrito com representações teatrais e espectáculos de variedades. E lá na década de 60 do século XX, fundou e integrou o grupo musical «Bandinha Barnabé» onde, durante 18 anos, com garra,  dedilhou as teclas e estendeu o fole ao acordeão.

Sempre disposto a dar o seu melhor às pessoas e instituições, sempre pronto a «animar a malta», a retirá-la do quotidiano vulgar e ronceiro próprio deste interior beirão, ei-lo a participar, durante 27 anos, na direcção do «Clube Recreativo Rerizense». Ei-lo, durante 10 anos, a integrar a direcção do «Centro Cultural de Viseu, Auditório Mirita Casimiro». E como se isso não bastasse, «rompe e rasga»,  vemo-lo também no papel de ensaiador musical dos «ranchos folclóricos» de Alva, Mões, Parada de Ester, Reriz e Relva, sempre acompanhado pela esposa que tinha a seu cargo a vertente folclórica dos respectivos «ranchos».

E, como soía dizer: «rompe e rasga, siga a rusga». Foi membro da direcção da «Casa do Povo de Castro Daire» e da direcção e outros órgãos sociais da «Associação dos Bombeiros Voluntários de Castro Daire». Ligado à música deve-lhe a ele a fundação da primeira «Escola de Música em Castro Daire».

 

SEGUNDA PARTE

O MUSEU E A IMPRENSA

 130-3058 IMGMas tudo isto não chegou para preencher a dinâmica da sua vida. Cedo começou a adquirir e a conservar todo o artefacto com significado histórico. Tudo o que  trouxesse à memória dos homens o passado distante ou próximo. «Um povo sem memória é um povo sem história». A sua casa é um autêntico museu privado. Do porta-chaves ao isqueiro, do harmónio à concertina,  da máquina de fotografar à máquina de filmar e projectar (domésticas e industriais), máquinas de escrever, grafonolas, gramofones e respectivos discos de vinil, balanças, armas, revólveres, cartazes, livros, apetrechos ligados à produção do pão, do linho e da lã, tudo se encontra ali, conservado, tratado, limpo, catalogado, identificado.  Todos eles exibem a marca da sua sensibilidade e  pendor organizativo. Pendor que demonstrou, também,  como presidente da Junta da Freguesia de Reriz e como director e fundador da «Associação dos Antónios de Castro Daire».

 

 

argentino-cinemajpgLigado à imprensa nacional desde a década de 50 do século XX, quando foi correspondente do «Diário Popular» e do «Jornal de Notícias», bem como, na década de 80, do jornal local de vida efémera, «Voz do Montemuro» (nasceu e morreu no ano de 1985. nele colaborámos os dois), António Argentino, dizia eu, mais recentemente, colaborador  da «Rádio Clube do Interior» de Viseu, e colaborador permanente do jornal  «Notícias de Castro Daire», desde que se tornou sócio deste periódico,  empresa «Infordaire, Edições Gráficas, Lda», nela aplicou o seu estilo organizativo, tornando-se isso  bem visível nas tabuletas da localização das suas instalações, da organização dos ficheiros, arquivos e atendimento ao público por uma funcionária todos os dias da semana, durante as horas de expediente.

Enfim! Um homem com o sentido da organização, uma agente da História e da Cultura, uma personalidade que, a seu modo e segundo as possibilidades e os condicionalismos dos tempos, contribuiu para o «desenvolvimento da sua terra e da sua região». Por isso, andaram muito bem os  responsáveis pelo programa «Região Demarcada» da «Rádio Mangualde» incluindo-o na sua  «Gala Cultural - 2006» e atribuindo-lhe os «Trofeus «Gil Vicente». Empalco, António Argentino agradeceu, comovido.

Para quem é de Castro Daire e ama a sua terra, é  sempre bom que o nome do concelho, por razões desta natureza, seja divulgado nas colunas da imprensa local, regional, nacional e Internet, bem diferente de quando ocupa os mesmos espaços por razões de natureza diferente e até contrária aos tempos que correm, tempos que se almejam de desenvolvimento e de progresso, de «mudança das mentalidades» e não estagnação delas, estagnação condizente com o morrão negro da candeia a petróleo, mas não com a luz fluorescente saída da energia eólica produzida nas cristas do Montemuro.

2 – A CERIMÓNIA:

 Com assistência assinalável do público e a presença de individualidades ligadas à cultura e à política, com destaque para o sempre afável e hospitaleiro Dr. Soares Marques, ex-Governador Civil do Distrito e actual Presidente da Câmara de Mangualde, as razões do evento foram apresentadas pelo senhor Engº Artur Vicente, responsável pelo programa «Região Demarcada» e pelo próprio serão.

Depois de uma intervenção musical do «Grupo Vozes da Terra» de Penalva do Castelo, interpretando brilhantemente canções do inesquecível Zeca Afonso, passaram pelo palco as personalidades homenageadas (com excepção das que o foram a título póstumo) e os representantes das instituições económicas e culturais que foram agraciadas com os trofeus «Gil Vicente», a saber: Profª D. Virgínia da Glória; Nelson Veiga, director do «Jornal Renascimento»; Padre Manuel Gonçalves Fernandes; Dr. Ricardo Cabral Campos; Padre Manuel Pais Messias; Comendador Sr. Adelino Amaral Marques; António Gouveia Rodrigues, da  «Adega Cooperativa de Mangualde»;  D. Maria Alice Tavares Sousa Matias; Orlindo Brioso, da «Brioso Confecções, S.A.»; Joaquim da Costa (Monteiro); Drª Ana Rita Azevedo, do «Rancho Folclórico ‘Flores da Beira Alta’ de Santo André»; Fernando Jorge Xavier Beirão, da «Casa Beirão»; Dr. Ramiro Monteiro Couto; Engº Frederico Carvalhão, da «Cooperativa Agrícola de Mangualde – Estação Fruteira»; Francisco Ramos de Almeida, da «Sociedade Filarmónica Lobelhense»; António Cândido, do «Grupo Cénico de Mangualde»; António Argentino Lacerda e Oliveira; Victor Gomes da «Caixa de Crédito Agrícola do Vale do Dão»; António Almeida Pais dos Santos e Carlos Manuel Oliveira.

Todas estas personalidades e instituições ouviram, pela boca da simpática e jovem apresentadora Sandra Vilabril, desfiar perante o público o seu currículo e referenciadas as áreas em que cada qual, de forma individual ou colectiva,  se destacou ao «longo da sua vida» – educação, comunicação social, religião, medicina, cinema, teatro, economia, solidariedade social, cooperativismo, folclore, associativismo e  política autárquica  - contribuindo, assim, «para o desenvolvimento da sua terra e da sua região».

Depois da entrega dos trofeus, a «Gala» prosseguiu com música popular. Foram intérpretes Alexande Correia, da Pesqueira; Lara Luzinde, de Seia; João Ferreira, de Mangualde; e Sandra Vilabri, de Canas de Senhorim.

Enfim! Foi uma noite de «cultura» e, sobretudo, por parte dos organizadores do evento, de reconhecimento e de respeito pela «memória» e pelos «valores» das gentes e instituições laboriosas que, neste Portugal Periférico – qual autêntica «Zona Demarcada» há séculos - ontem como hoje, fazem jus à sua identidade beirã, franca e solidária. 

Nota: também no «Notícias de Castro Daire» de 2006-02-10

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.