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quarta, 19 junho 2019 12:35

CASTRO DAIRE - TRANSPORTES RODOVIÁRIOS

Escrito por 

JOSÉ CLEMENTE DA COSTA

Há dias, por razões amplamente descritas e filmadas, regressei ao ano de 1933, para dar a conhecer (ou a lembrar) aos curiosos e estudiosos, o nascimento da EMPRESA GUEDES, uma espécie de BILHETE DE IDENTIDADE do concelho de Castro Daire. E basta atentar nos COMENTÁRIOS feitos pelos meus amigos, relativos ao texto e ao vídeo publicados, para concluirmos da EMPATIA dos castrenses que se manteve para aquém do fim da empresa,  enquanto MARCA CONCELHIA.

Mas mal andaria o HISTORIADOR se não recuasse a muitos anos antes e deixasse oculta a EMPRESA DE TRANSPORTES RODOVIÁRIOS que, NO FIO DO TEMPO,  antecedeu a GUEDES.. É trabalho que não me custa nada a fazer, pois ele feito ficou em 1995, no meu livro “Castro Daire, Indústria, Técnica e Cultura”, editado pela Câmara Municipal, há muito esgotado.

Ora, como manipulo, com alguma agilidade, as novas tecnologias, é só fazer “COPY/PASTE”, (copiar-me a mim próprio) e extrair do livro a matéria suficiente sobre o assunto, ilustrano-a, agora, com fotos que, na altura, não foram inclusas nas suas páginas. Faço-o hoje retirando-as do livro com o título A Vida de José Clemente da Costa», cujo autor é José Mário Clemente da Costa, familiar seu que, em boa hora, coligiu as imagens que eu aqui reproduzo, exceto o anúncio publicitário da inauguração da Carreira, em 1914, que extraí do jornal «A União» que, então, se publicava na vila de Castro Daire. Assim:

 De Clemente da Costa«JOSÉ CLEMENTE DA COSTA

Este filho do concelho, não da sua sede, mas da aldeia de Ribas, é que foi efetivamente o pioneiro dos transportes públicos motorizados entre Viseu e Régua, com passagem por S. Pedro do Sul.

Saído muito novo da sua aldeia e amadurecido nas andanças e araganças lá por Lisboa e terras do Brasil, país onde esteve 35 anos, regressa a Portugal e fixa-se definitivamente em Castro Daire.

Nascido em 1854, Clemente da Costa assiste ao enterro do século XIX, depois de o ver caminhar alquebrado para a cova. Vive o nascimento e juventude do século XX, e este, por sua vez, vê descer Clemente da Costa  à terra, velho e cansado, em 1940.

Apaixonado pelos transportes, a "Voz do Paiva" nº 311, de 21 de Maio de 1905, jornal que começou a publicar-se em Castro Daire no ano de 1893, anuncia a sua "Agência de Emigração", em sociedade com um tal Dória. O anúncio era assinado por "Clemente da Costa & Dória". Um mês depois, mais precisamente em 18 de Junho do mesmo ano, a "Voz do Paiva" nº 315, anuncia, pela primeira vez, que Clemente da Costa assumiu sozinho a direção da Agência, mostrando-o assim como um ativo agente de viagens. Os anúncios publicitários referidos à Agência têm como logotipo a gravura preta de um barco a vapor. Mas não era o único agente de viagens marítimas sediado nesta vila. Se ele dizia nos seus anúncios que vendia "bilhetes de passagem para todos os portos de África e do Brasil, muito mais baratos do que nenhuma outra Agência", Filipe Martinho Lages, que com ele concorria no terreno e nos anúncios, era muito mais pródigo a identificar os portos para onde vendia bilhetes: "Rio de Janeiro, Santos, S. Paulo, Pará, Manaus, Bahia, Pernambuco, Ceará, Maranhão, Rio Grande do Sul, Monte Videu, Buenes Ayres,   New   York,   Boston,   S.   Francisco   da  Califórnia, Londres, Liverpool, Havre, Paris e passagens para os portos portugueses, tais como, Lourenço Marques, Beira, Loanda, Moçambique, Zaire, Novo Redondo, Lobito, Benguela, S. Tomé e Príncipe e outras ilhas". 

A lista de portos é longa e o objetivo de transcrevê-la não foi outro se não o de deixar a ideia das terras para onde os castrenses emigravam, ao tempo, a demandarem fortuna ou azar.

S.antónio - CópiaNo que toca às terras brasileiras, tão repetidamente referenciadas nos anúncios dos jornais do primeiro quartel deste nosso século, só no último quartel dele viriam novamente a ser-nos tão familiares através das telenovelas que entram em nossas casas a toda a hora do dia. Nesse tempo, apesar de Filipe Lages, a par dos portos europeus, anunciar os portos da África e da América, ainda os países mais desenvolvidos da Europa estavam longe de ser o chamariz do emigrante português e de todos os emigrantes oriundos dos países periféricos deste velho mundo. Bem ao contrário, a populaça europeia, cansada da exploração e da miséria, cansada de sustentarem reis, príncipes e barões, cansada do fausto e esplendor usufruído pelas cortes monárquicas à custa do seu suor e trabalho, emigram para longes terras em busca de uma vida digna e humana. A América, que ainda não tinha fechado as suas portas à emigração, é o País mais procurado. Barcos e mais barcos cortam diariamente as águas do Atlântico, transportando gente como se gado fosse. Os porões abarrotados, o mal-estar, o enjoo, os exames por que passava cada emigrante nos portos de desembarque eram os acidentes de percurso, penosos acidentes, por que passavam aquelas vidas em busca de um futuro que não descortinavam nos seus países de origem.

garage clemente - CópiaOs portugueses preferiam a África e o Brasil. E Clemente da Costa, que só anunciava os portos brasileiros e africanos, rejeitando os portos da Europa e da América, mostra um alto sentido da realidade que o cerca, mostra conhecer a origem e o destino  da  migração local, mostra pragmatismo bastante para não gastar dinheiro a anunciar portos de embarque que não atraíam preferencialmente os seus concidadãos. É que, salvo as excepções devidas, a saga dos Portugueses era outra. Estava-lhes escrita no sangue. Estava determinada pela História. Os seus antepassados de quinhentos apontaram-lhes o caminho. Caminho que não levava ao "novo mundo" apesar de terem sido eles a dar "novos mundos ao mundo". O futuro que não tinham na terra que os viu nascer, não estava na América dos cawbys, dos salons, mas sim nas terras do Império, ainda que do Império se tivessem emancipado.

A deslocação das pessoas e bagagens, na primeira década deste século, fosse de umas terras para as outras, fosse até aos portos de mar com destino a outros continentes, fazia-se, como dissemos, nas velhas "diligências", nos "trens", no "landeaux" meios de transporte que estavam condenados  a não sobreviverem muitos anos à queda da Monarquia.

Diz-se que Clemente da Costa, antes de enveredar pelos transportes-auto, teve uma "alquilaria" composta de cavalos e trens de lotação variada. Tinha desde a "aranha", de dois lugares, ao "charabanque" de 12.lugares. (222)

 Os jornais, contudo, não lhe fazem qualquer referência publicitária. E ele conhecia bem o valor e os efeitos da publicidade.

Republicano confesso, as "diligências" eram para ele o símbolo bolorento da Monarquia. Uma Monarquia campesina e decadente, por isso três anos  após a implantação da República comprou um automóvel de marca "Hotchkiss", com 7 lugares. Estávamos em 1913. (223)  Mas não se ficaria por aí. Ele estava decididamente a investir nos transportes públicos motorizados. E  "O Castrense" numa notícia em caixa alta intitulada: "MELHORAMENTOS LOCAIS - AUTOMÓVEL SUARER", dá conhecimento da aquisição do automóvel anunciado e felicita o empresário pela iniciativa, fazendo votos para que o esplêndido "omnibus" lhe dê bom resultado.

Os tempos parecem correr-lhe a favor. No mesmo jornal uma outra notícia intitulada "Correio de Castro Daire" dava conta de um telegrama enviado ao Ministro do Fomento, assinado por mais de 60 signatários, mostrando a estranheza pelo facto de ter sido suspenso "o tansporte das malas feito pela diligência entre Castro Daire e Lamego". E acrescentava: "há aqui um automóvel-ónibus que pode fazer a carreira directa entre S. Pedro do Sul, Castro Daire e Lamego (...) pedimos mande novamente pôr em praça o transporte das malas entre aquelas terras autorizando o concurso de automóveis, como já foi pedido pela Câmara, Junta da Paróquia e outras entidades daqui". (224) 

Com a mudança do Regime e  a assunção aos cargos políticos (e outros) por parte dos republicanos (Clemente da Costa foi uma dessas pessoas, como amplamente referi no livro "Misericórdia de Castro Daire") as influências que se movem a favor dos correlegionários deixam naturalmente as suas marcas. E a notícia a que se alude acima deixa ver claramente que o transporte do correio pela diligência tinha forçosamente os dias contados. E Manuel Nicolau que, em 1911, como vimos, anunciava de modo repetido, fazer "carreira direta desta vila a Vizeu todos os dias de mercado pelo preço de 500 reis", bem como, António Pinto Teixeira "proprietário do conhecido Hotel Paulina", oferecendo "preços módicos" em "trens de aluguer", como se lê no anúncio publicado no jornal "O Castrense" nº 41, de 1 de Outubro  de 1914, deixariam de ter ra-zões para gastarem dinheiro na  publicidade das suas alquilarias.

Em 10 de Agosto de 1914, "O Castrense" nº 36, referindo-se aos transportes, diz que, devido ao movimento verificado, o senhor Clemente da Costa "encomendou já um novo auto-ónibus que deve chegar no primeiro semestre do próximo ano".

Clemente1-RedzCom a frota no terreno, o jornal "A União", nº 140, de 27 de Dezembro de 1914, jornal que coexistia ao tempo, nesta vila, com "O Castrense", fazia eco, em alongado anúncio, dos horários e dos preços com que o público podia contar. 

Com este anúncio ficava o público da altura a saber que se tinha iniciado a carreira entre as localidades referidas, ficava a saber os preços correspondentes, bem como os horários estabelecidos. As vidas e os negócios de cada utente, querendo utilizar os serviços que a "GARAGE CLEMENTE" punha ao seu dispor, estavam agora facilitados. A comodidade do "auto-omnibus" era bem distinta da que proporcionava a "diligência". E as caminhadas a pé, feitas frequentemente  pelas  gentes  da  vila  e  da  serra,  com   destino  a Lamego por alturas da Senhora dos Remédios, estavam a dar as últimas canchas. As doceiras com as suas banquetas e canastras à cabeça tinham a vida facilitada. Os lavradores transformados em romeiros não tardariam a deixar de engalanar as molhelhas das suas vacas para irem à romaria de Portugal. As povoações que ficam no trajeto que separa Castro Daire da cidade da Sé e dos Bancos, deixariam de presenciar, paulatinamente, o folclore serrano que era costume desaguar encosta abaixo naqueles dias de fé e de farra, só comparados com o tempo das rogas com destino às vindimas Douro.

Enfim, ao mandar publicar um anúncio dirigido aos potenciais utentes da sua viatura, ao referir o custo dos bilhetes entre cada percurso, Clemente da Costa, fez mais do que isso. Deixou na imprensa local, em letra de forma, a marca do seu pioneirismo como empresário de transportes, introduzindo em Castro Daire o automóvel muito antes da máquina a vapor, muito mais velha, aparecer, como tecnologia de ponta, nas nossas indústrias de madeira.

Castro Daire reconheceu o mérito do empresário e, num pequeno largo, foi erigido um busto seu, com a seguinte legenda em letras de metal pespegadas na parede de granito que o ladeia:

 

 

 

 

IMG 2194 - CópiaA JOSÉ  CLEMENTE DA COSTA

1854-1940

CIDADÃO ILUSTRE, HOMEM  ÍNTEGRO

EMPRESÁRIO DINÂMICO

PIONEIRO DOS TRANSPORTES PÚBLICOS

1987 - CÂMARA  MUNICIPAL

 O lugar escolhido foi inicialmente à entrada da Rua Santo António, mesmo ao lado do prédio que foi de Clemente da Costa, cuja foto deixei acima, mas posteriormente esse busto, desapareceu dali durante algum tempo e reapareceu depois na esquina do Mercado Municipal.

Sobre o assunto deixei matéria sobeja nos meus antigos «Trilhos Serranos» para onde remeto o leitor não sem que de lá transcreva as seguintes palavras:

«Clemente da Costa, lá no seu descanso eterno, bem pode sentir-se orgulhoso de, passados cerca de 100 anos após a inauguração da carreira diária Régua, Lamego, S. Pedro do Sul e Viseu, com passagem por Castro Daire, cujo fac-simile do anúncio, de 1914, vimos no artigo anterior, voltar a ver-se rodeado de pessoas, mercadorias e bagagens como tanta vez viu na sua «GARAGE CLEMENTE», que ficava a escassos metros daquele lugar, na entrada da Rua Santo António».

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.