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quarta, 06 fevereiro 2019 13:59

CASAIS DO MONTE E SÃO LOURENÇO

Escrito por 

OUTEIRO DO VIEIRO

 Voltando aos Casais o Monte, terras de Moledo, lembrarei, agora, que, em 1758, o Abade desta freguesia não se referiu, apenas, às muralhas arruinadas do «castelo de S. Lourenço», lá no cimo do monte. Ele disse também o seguinte:

 Monte Vieiro - Cópia«(...) E para a parte do meio dia deste lugar dos Casais, entre este Moledo está outro outeiro que fica quase no meio da subida que vai deste lugar para o outeiro de S. Lourenço e se chama outeiro do Vieiro, onde se vê uma cova com dois braços. E é tradição que de um destes braços, que fica para a parte do norte, ia por debaixo da terra uma estrada sair a um ribeirinho que corre ao pé do outeiro e que tudo isto fora  obra dos Mouros. A estrada está hoje tapada. E se diz a taparam os moradores porque lhe perigavam ali os gados».

 Segundo esta descrição as entradas das galerias subterrâneas do outeiro do «Vieiro»  encontravam-se, na altura, tapadas, mas, falando com o senhor Firmino da Costa, de Moledo, taxista de profissão, ele garantiu-me que, na década de 70, do século XX, sendo ele ainda moço, conjuntamente com o amigo, Fernandino Oliveira Aparício, atravessaram a «estrada», de-lés-a-lés, munidos de uma lanterna.

 Centenário - CópiaVoltei à povoação de Casais do Monte e à presença do Senhor Manuel Soares, a fim de saber mais sobre a misteriosa «estrada» subterrânea:

- Senhor Manuel, diga-me cá, que sabe vossemecê do Outeiro do Vieiro?

 - Olhe, é aquele ali em frente. Está todo minado. Hoje as entradas estão entupidas, mas conta-se que um dia meteram um carneiro na cova de cima, ela vê-se daqui, está a ver?  e ele veio sair cá em baixo, na Pontinha. E olhe que no Serrado, terras que ficam cá em baixo, andava eu, um dia, a lavrar uma parcela que lá tenho e uma vaca enterrou uma perna toda pelo chão abaixo. O buraco, em fundura, engoliu lá uma aguilhada deste comprimento. Inteirinha. Sabe o que é uma aguilhada?

 - Que sim. Sabia.

 Não lhe disse foi que eu tinha passado a juventude nos moldes em que ele passou a vida inteira. Que, por imperativo da sobrevivência, antes de aprender as declinações latinas rosa, ae - não pude declinar o manejo das  ferramentas que me ajudavam a «granjear o pão com o suor do rosto». Que, naquela idade, em vez de aprender a manejar a caneta,  manejei, alternadamente, os utensílios agrícolas e picos, régua, esquadro, alavancas, guilhos e marra a desfazer penedos em fatias para casas de  porpianho, cantaria subida à força de punho, de cordas e moitões: oupa, lá vai ela oupa! Não. Nesta minha criação do mundo, desde a infância à velhice» lembro bem «o chão duro da realidade proteica» que me vestiu de cotim e de burel, que me deu os primeiros sapatos aos 18 anos, pois mal parecia apresentar-me voluntariamente no R.I. 14 de Viseu, pronto a servir a Pátria, calçado de tamancos. Nesse ano Humberto Delegado «perdia» a eleições para presidente da República. «Viva Portugal, quem manda? Salazar.»

Casais do Monte 5 - Cópia- Senhor Manuel, conheço a aguilhada, sim senhor. Só não encontrei buracos assim, a engolir pernas de vacas, nem sítio onde os carneiros fossem mineiros.

 - Mas olhe que é verdade. E sabe que mais? Aquilo também foi obra de mouros.  E  sabe como é que os nossos antepassados correram com eles dali p’ra fora? Adivinhe lá?

 - Não adivinho nada, não sou bruxo, diga lá vossemecê.

 - Havia aqui muitos rebanhos. Toda a gente tinha gado. Já lhe disse outro dia que eu, ainda pequenino, cheguei a guardar mais de cem cabeças.

Uma noite, já lá vai muito tempo, juntaram muito gado, lá cima,  prenderam uma tocha nos cornos de cada cabra e puseram-se a caminho, encosta adiante. Os mouros viram aquilo, pensaram que eram pessoas, muita gente, muita tropa… e fugiram.

 - Foi isso?

 - É assim que se conta, meu senhor!

Não teria sido assim, seguramente. Mas quem era eu para discordar de um ancião daquela idade que mais não fez do que repetir aquilo que lhe ensinaram em menino e cujos olhos brilhavam de felicidade por contar coisas do seu saber ao primeiro forasteiro que lhe apareceu a fazer perguntas sobre a sua terra e arredores? A fazer perguntas sobre História, não a História que se «faz» a partir dos registos de notariado com «selo público e raso», pergaminhos, todos os documentos oficiais das chancelarias régias, mas a «estória» vivida por analfabetos, sentida e transmitida oralmente durante séculos, cuja autenticidade e factos relatados os protagonistas jamais questionam. Basta-lhes identificarem-se com os vencedores. «História» ou «estória» que lhes importa? Condenados que foram a suportar a realidade pura e dura de uma vida madrasta, com o pão negro que granjeiam alimentam o corpo, com a lenda herdada dos antepassados alimentam o «ego», singular e coletivo.

Trilhos-25-09-2004E o brilho nos olhos do ancião que me relatou o «evento» atesta bem a aprovação da astúcia revelada pelos avoengos. Isto de aproveitaram a noite escura; terem a brilhante ideia de iluminar os cornos da cabrada;  penetrarem no bastião mouro; afugentarem os seguidores de Maomé correndo com eles para Marrocos;  acrescentarem mais um quinhão de terras ao Reino da Cristandade, isto tem muito que se lhe diga. De noite e de dia, somos sempre os maiores. Ele é contra os mouros, ele é contra os castelhanos, ele é contra os samorins, ele é contra os gungunhanas, ele é contra os ingleses, ele é contra holandeses, ele é contra os franceses...E até no futebol, mesmo quando os gregos nos derrotaram no princípio e no fim do «2004» fomos nós que ganhámos. Somos os maiores, até temos o presidente da Comissão Europeia.

Cópia de S.Lourenço-mota1 - CópiaCristãos contra mouros. Gregos contra troianos. Arte e manha. Vitórias. Derrotas. Faltou o aedo para cantar a façanha, a artimanha, dar nome aos heróis, dar-lhes vida, engordar a narrativa. E falta, também, um Schlimann para esburacar o Vieiro, ali, junto a Casais do Monte a «Tróia» beirã que, um dia, há de ser incluída no «Roteiro do Turismo Cultural» do concelho, seja pela história, seja pela lenda. Idem com o «castelo de S. Lourenço», com o «castelo da Maga», com o «penedo de Lamas», «com…com.. etc. etc e tal». Já temos ministro do turismo em Portugal. Falta ministrar o turismo em C. Daire.

NOTA: Texto publicado, em 2004,  no «Notícias de Castro Daire» e no meu velho site «trilhos-serranos» migrado para este meu novo espaço online.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.