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quarta, 22 fevereiro 2017 13:33

ALVARES, Joaquim José, de Soldado a General - 5

Escrito por 
QUELIMANE QUELIMANE ABÍLIO

HISTÓRIA VIVA

 NO DEGREDO EM MOÇAMBIQUE

E que tipo de administração tinha Moçambique à chegada de JOAQUIM JOSÉ ÁLVARES? Que «LEI E ORDEM» imperavam em tão afastadas  terras (com capital na Ilha de Moçambique) sorvedouro de uns tantos aventureiros esperançados em subir na vida, de outros tantos dispostos a prestarem serviço a Sua Majestade e outros mais criminosos e degredados que ali espiavam as suas penas?

Padre Vieira

Para responder as tais perguntas, para respirarmos a atmosfera sociopolítica e administrativa do tempo, para sabermos o que esperava o tenente transmontano «degredado», nada melhor que ler José Justino Teixeira Botelho, que se deu ao trabalho de fazer a História daqueles tempos e espaços. Não vou fazer isso aqui e agora, mas essa obra é indispensável para percebermos os traços biográficos do fogoso e destemido tenente. Assim:

JOAQUIM JOSÉ ÁLVARES, degredado por ideais políticos, não ignorava que, o território para onde ia não era propriamente uma colónia de férias. Ali, o absolutismo e o liberalismo tinham, seguramente, os seus seguidores e ele não deixaria de encontrar lá os seus companheiros de luta, tão degredados ou não  como ele.

 Revolucionário, chegado que fosse ao terreno e antes de intentar qualquer revolução, havia que saber se o poder estava nas mãos  de pessoa «com peitos duros, entendimentos varridos e mãos cobiçosas, pessoa em cujas mãos se calava a justiça,  triunfava a impunidade e perecia a inocência ou, pelo contrário, pessoa de coração sensível, entendimento ilustrado e mãos limpas» (1)

.Não tardou a sabê-lo. O poder estava nas mãos dos afetos a D. Miguel. E, lá, como cá, não reprimindo o seu génio, o tenente transmontando vai de levantar voz pela Rainha na primeira oportunidade. Resultado: mais uma deportação para as terras doentias da Zambézia. Assim:

«Nos princípios de Outubro do dito ano [1832], por muito afeto ao legítimo Governo de sua Majestade a Rainha, tentei, em seu abono, uma revolta e, por malograda, fui de novo processado e  condenado pelo intruso Governo de Moçambique a servir de simples soldado na Companhia de Quelimane, onde, ainda possuído dos mesmos sentimentos, em dias de Fevereiro de 1833, levei a efeito uma revolta em favor da legitimidade». (Dossier General, ms.)

Não. O poder não estava numa pessoa de coração sensível, entendimento ilustrado, mas bem pelo contrário.  E esta sua aventura, como ele próprio o afirma, levou-o a ser processado novamente. Despromovido do posto de tenente é na qualidade de soldado raso que foi transferido de Moçambique (ilha) para Quelimane. Ao documento que transcrevi acima, junta-se a «Guia de Marcha» que os Governadores da Capitania lhe puseram nas mãos e... ala:

Guia Marcha para Quelimane-1«Os Ilusmos. Srs. Governadores da Capitania ordenam a V. Mercê que se prontifique para seguir viagem para o porto de Quelimane na primeira embarcação que para ali se destinar, por assim parecer conveniente ao Bem do Real serviço. O que comunico a V. Mercê.  para sua inteligência e pontual execução. Deus Guarde V. Mcê, Secretaria  do Governo de Moçambique, em 26 de Novembro de 1832.

O Secretário do Governo

 Manuel da Silva Gonçalves» (Dossier General, ms.)

            E que terras eram estas de Quelimane para onde foi «degredado» pela segunda vez, JOAQUIM JOSÉ ÁLVARES? Deixemo-nos levar pela mão de José Justino Teixeira Botelho, acima referido:

            «A vila de S. Martinho de Quelimane, que no segundo quartel do século XIX passou a ser sede do governo de Rios de Sena, tinha nesse tempo apenas trinta e oito casas de taipa, cobertas de terra, duas de alvenaria e cerca de quarenta palhotas, uma igreja de invocação de Nossa Senhora do Livramento, sede da paróquia, que pertencera aos jesuítas. Não existia alfândega, nem cadeia, nem edifício da Câmara, reunindo-se os vereadores ora em casa de um, oura em casa de outro, andando o arquivo aos tombos. Também não existia ainda fortaleza, porque a antiga fora destruída e a nova só se começou a construir muito mais tarde, achando-se assim a povoação exposta às vexações da banda do mar e da terra. A sua população andava neste tempo por duzentos habitantes cristãos, a maior parte dos quais de Goa e de Damão e raros da Europa» (2)

Revolucionário inconformado, habituado ao frio das neves e codos transmontanos, não se deixou amolecer com o calor doentio dos trópicos. Deportado pelo miguelismo metropolitano e caído nas mãos dos miguelistas que, em Moçambique, faziam carreira, estes, na primeira oportunidade, logo lhe tiraram os galões de oficial do Exército, recambiando-o para Quelimane na condição de soldado raso. Esse ato de despromoção ficou comprovado da forma seguinte, em documento datado de 3 de Janeiro de 1833, ano em que, na metrópole, o liberalismo triunfava, sem ele saber:

 «Tem baixa do Real Serviço o soldado adido ao destacamento vindo de Moçambique, Joaquim José Álvares. Quartel do Governo em Quelimane, 3 de Janeiro de 1833». Ass) Barbosa, Gen». (Dossier General, ms.)

 Mas nem aqui JOAQUIM JOSÉ ÁLVARES se acomodou à sua condição de perseguido e despromovido. Em documento redigido, mais tarde, na primeira pessoa, diz-nos:

«Processado e  condenado pelo intruso Governo de Moçambique a servir de simples soldado na Companhia de Quelimane, onde, ainda possuído dos mesmos sentimentos, em dias de Fevereiro de 1833, levei a efeito uma revolta em favor da legitimidade, regressando depois a Moçambique». (Dossier General, ms. nº )

            Revolta tentada e fracassada em Fevereiro de 1833, antes da Convenção de Évora Monte e da expatriação de D. Miguel, em Maio de 1834, pode dizer-se que, JOAQUIM JOSÉ ÁLVARES, fosse qual fosse o posto que ocupasse – tenente ou soldado - era de ideias firmes e  tão translúcidas como as estalactites que ele, na sua juventude, seguramente, viu a rendilhar os beirais das casas transmontanas, após os nevões de cada inverno. Agora, degredado em terras cálidas, o tempo político corria a seu favor por estas terras frias e europeias, pois vencido o miguelismo em Portugal, também o liberalismo havia de embarcar para a Moçambique e ele lá estava para recebê-lo, no porto e no posto, em qualquer sítio onde estivesse e com a patente militar que tivesse. Ou talvez não gostasse do que via e se dispusesse a regressar a Portugal, via Brasil, e aqui prosseguir a carreira de armas. Havemos ter tempo para ver isso, já que documentos disponos nós, salvos que foram do lixo, do ATERRO DO PLANALTO BEIRÃO. Perante este caso e este militar de carreira  que se bateu pelo LIBERALISMO, as palavras do Padre António Vieira, postas à cabeça deste texto, cortam que nem lâminas no peito dos zeladores do nosso  património histórico e dos valores que apregoam, mas não respeitam, não preservam, nem difundem. É só ver o que a este respeito tem feito os Pelouros da Cultura das Cãmaras Municipal de Santa Marta de Penaguião e de Vila Real que tinham a obrigação de não esquecer e divulgar as personalidades que, nascidas nas pregas destes montes, subiram às páginas da HISTÓRIA PÁTRIA.   

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.