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segunda, 20 maio 2024 14:38

PÓVOA DO MONTEMURO «GANDIVAO MEDIEVAL» 1258

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AS NOSSAS TERRAS - AS NOSSAS GENTES

 Nos afastados anos da década de 90 do século XX, discordando da opinião expressa pelo Dr. Inês Vaz, no livro «Castro Daire», editado em 1986,  pela Câmara Municipal, dizendo que a «vila de Gandivao» referida nas «Inquirições de 1258», teria desaparecido sem deixar rasto, e eu, ao contrário, cogitando antes que ela tivesse mudado de nome, à semelhança de tantas outras povoações do reino, pus os pés no terreno e acompanhado dos senhores Manuel J. G. Araújo e Gama, ex-director de Finanças de Castro Daire, e de Manuel A. Duarte Pinto, natural de Cetos, mais conhecedor da geografia e toponímia locais que qualquer catedrático, corri em demanda das terras que o topónimo designava. E lá estavam elas. Ali, na bacia formada pelas linhas de água que, descendo da serra, confluem no rio Teixeira.

 

 PRIMEIRA PARTE

 GANDIVAOAli, ao lado da Póvoa do Montemuro e nas costas do outeiro que deu guarida a Cetos. Ali, num covão de acesso difícil, onde, admitir, em qualquer tempo, que fosse o berço de uma povoação, seria uma afronta à inteligência humana, bem diferente do  local onde está implantada a Póvoa do Montemuro (ver fotos).

 Póvoa Montemuro - CópiaEm face de tudo isto impõe-se a conclusão: até que a arqueologia prove o contrário, tem de admitir-se que a povoação de Gondivao não desapareceu. Esta povoação, aquela que em 1103 recebeu carta de foro passada por Hermígio Moniz, carta que os comissários régios viram, v.g. que «nos vero inquisitores vidimus», mudara simplesmente de nome. Algures no tempo, passou a chamar-se Póvoa do Montemuro. E o nome de batismo - o nome Gondivao (com «o») que figura nas Inquirições do século XIII e Gandivao (com «a») no testamento do século XIX - tal como cão escorraçado pelo dono, aninhou-se nos arredores, à espera que o chamassem a terreiro. Sem dignidade bastante para se manter como nome de povoação, passou a designar bouças, moitas e lameiros.

 Dizem-no os documentos. Dizem-no os habitantes da Póvoa e de Cetos que herdaram, que possuem, que vendem e/ou compram terras naquele sítio e com o nome desse sítio matriciadas nas Finanças. Dizem-no «os homens mais antigos e mais conhecedores da situação e história dos diversos herdamentos ou propriedades», aqueles que, tal como no século XIII, conhecem, no século XX, a geografia e a toponímia locais melhor que ninguém. E dizem-no as conclusões a que cheguei depois de toda esta minha pesquisa de campo e de arquivo. Os arqueólogos que façam o resto. Gandivao espera por eles. E, já agora, pelos filólogos também.

 SEGUNDA PARTE

 CRUZEIRO-1CRUZ-2Solicitações recentes ligadas a uma HOMENAGEM póstuma, por iniciativa do seu filho Abílio Machado, feita ao senhor Manuel Santos Machado, pedreiro de profissão e canteiro nas horas vagas, voltei à Póvoa do Montemuro, e a revisitar o texto que publiquei no «Notícias de Castro Daire» E no meu site «trilhos serranos», relativo à investigação de que deixei, acima um respigo.

Gandivao é um topónimo cuja etimologia ignoro e não curo de sabê-lo, nem me sinto tentado a fazê-lo radicar no latim, avisado que estou pelo professor antropólogo Moisés Espirito Santo no «ensaio sobre toponímia» que deixou anexo ao seu livro «As Origens Orientais da Religião Popular Portuguesa», editado em 1988, dizendo que muitos topónimos, erradamente derivados do latim, tinham origem celta. E ironiza que era como se antes da chegada dos romanos os povos residentes não falassem e/ou não nomeassem as coisas. 

De facto. Ali mesmo, no Gandivao, naquele covão da serra entre montes, corre uma ribeira e no sítio onde melhor se atravessa de margem para margem chama-se  Porto do Teixo (por aglutinação Porteixo) por ter havido ali uma frondosa árvore dessa espécie que era uma das árvores sagradas dos Celtas - o TEIXO - como mais demoradamente expliquei quando falei dos restos mortais de uma dessas árvores, virada escultura na povoação de Lamelas.

CRUZEIRO-3E reminiscência religiosa celta parece estar presente em dois cruzeiros saídos do escopro e maceta do senhor Manuel dos Santos Machado, nado e criado na Póvoa, pedreiro de profissão e canteiro nas horas livres, em pleno século XX, tal qual se mostra nas fotos que ilustram estas linhas. Sem estudos que o levassem a distinguir uma CRUZ LATINA de uma CRUZ GREGA, uma CRUZ DE SANTO AANDRÉ de uma CRUZ CELTA, UMA CRUZ DE AVIS de  UMA CRUZ DE MALTA, o historiador interroga-se. E não encontrando resposta nos documentos escritos, crónicas e cronicões, orais ou escritos. Talvez os antropólogos encontrem a explicação no «código genético cultural» inscrito nas gerações que, através dos séculos, enfrentado os rigores do clima e a pobreza dos solos, mantiveram de pé o povoado herdado dos seus avoengos remotos. O nome da aldeia aportuguesou-se e os «penedos e árvores» que eram divindades celtas, «cristianizaram-se» e em cima de cada um deles levanta-se, altaneiro, um CRUZEIRO com ou sem a figura de CRISTO.

Relativamente à CRUZ CELTA, de que o canteiro Manuel dos Santos Machado nunca ouviu falar, diz-nos a wvikipédia:

«Existem numerosas representações da cruz combinada com um círculo, ao longo da história da cristandade. A chamada Cruz do Sol, que tem sua origem no paganismo do Noroeste Europeu - que simbolizava o deus nórdico Odin e ainda nos Pirineus e na Península Ibérica - sem que haja uma origem comum entre estas e a cruz cristã.

 gravura-1E aproveitando a maré, ficam sem explicação as «gravuras rupestres que se veem em duas pedras na fachada principal de uma moradia da povoação, na Rua do Ribeiro, das quais fiz vídeo e comentário, alojados no Youtube.

Desenhos enigmáticos, já bastante delidos por força da erosão dos tempos,  fiz deles o registo neste ano de 2024, pois neles poderão encontrar alguma explicação os estudiosos sobre seres «alienígenas» (sempre à procura de registos deixados na Terra por extraterrestres)  e os nossos especialistas em epigrafia.

gravura-2Presumo que estas duas pedras, ali presentes,  fariam parte de uma painel de gravuras mais amplo. Mas o penedo, suporte dessa massa granítica, depois de fatiado em pedaços para moradias ou cômaros de socalco, deixou para «amostra», unicamente estas duas enigmáticas gravuras. O seu significado ultrapassa o múnus do Historiador. O seu a seu dono.

 

 

 

capelaNa noite de 18 para 19 de maio, dia da homenagem a Manuel Santos Machado, com cerimónia religiosa e missa na capela da aldeia, um meteoro, rasgando os céus, pôs os Bombeiros Voluntários de Castro Daire em alvoroço. E não tardaram a chegar à vila alguns órgãos de comunicação social, ávidos se serem os primeiros a divulgar o insólito. Havia notícia que esse ser celeste, vindo do céu, ter aterrado na serra do Montemuro, ali entre Cetos. Pereira e Picão.

clérigoPuseram-se a equipas de PROTEÇÃO CIVIL no terreno, esmiuçando e esquadrinhando o solo, mas algo do céu caído na terra, nem sinal. Os Serviços Metereológicos acabaram, mais tarde,  por explicar o fenómeno e o meteoro ter-se-ia desfeito sobre o Atlântico, bem longe de Castro Daire.

Mas se nessa noite algo tinha descido do céu à terra, no dia seguinte, na Póvoa do Montemuro, a alma de Manuel Santos Machado era ecomendada a Deus, no céu e, viajando em sentido inverso ao do meteoro, eu, reportando o evento, coloquei o seu nome e a sua pessoa neste virtual universo da Internet.

NOTA: ver vídeo  https://youtu.be/zEMhFEowjPI?si=lAXehd17tcwoi5Fq.


 

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 NOTAS:

in NCD nº 171 de 10 de Março de 1998


 (1) VAZ, João Inês, "Castro Daire", edição da Câmara Municipal, 1986, pp. 43

 (2) Versão impressa no livro "Castro Daire", Edição da Câmara Municipal, 1986, pp. 343-379
(3) HERCULANO, Alexandre, "História de Portugal", Liv. Bertrand, s/d, tomo IV, pp. 142


(4) in Livro II (ms) das "Copias dos Testamentos de 1852 e 1853", fls. 13r, Arquivo da Câmara Municipal de Castro Daire recuperado da fogueira onde desapareceram outros após a deslocação feita para a cadeia comarcâ durante as obras de acrescento no edifício municipal.

 (5) Idem, fls. 46 r/v

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.