Trilhos Serranos

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quinta, 05 novembro 2020 13:26

QUIJÔTOS NA MINHA MEMÓRIA

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«NO MINÉRIO TRABALHAVA, TRABALHAVA, TODOS GANHAVAM, SÓ EU NÃO GANHAVA NADA»

O COMENTÁRIO feito ontem pelo conterrâneo SALVADOR relativo ao meu “post” com o título “ESGOTOU-SE O FILÃO”, referindo os últimos volframistas de Cujó que lá pelo ESPINHACELO esgravatavam a vida, nomeadamente o tio LAUREANO, o tio JOÃO CAMELITO, o tio ARTUR e os MADALENAS”, comentário a que eu respondi dizendo que também me lembrava deles, acrescentando que “no meu juízo, eram pessoas humildes, mas sérias”, faz-me voltar a eles por deles reter traços comportamentais dignos de nota, para a gente nova. Assim:

 

1 - O tio JOÃO CAMELITO foi o primeiro fogueteiro que conheci em Cujó. Em quaisquer das festas e romarias que na aldeia tinham e têm lugar, eram as suas mãos que faziam subir ao céu tudo o que era foguete e morteiro. E nós, descalços, leves que nem gatos, lá estávamos prontinhos a correr por caminhos, matos e a saltar muros de quintais, apanhar as canas. E o campeão era o que mais apanhasse.

Mas recordo este “quijôto” por outra razão talvez desconhecida pela maior parte da gente nova de Cujó. Ele não precisou que viesse a INTERNET, que viesse o GOOGLE para todos nós sabermos que a carne de cobra é “deliciosa e nutritiva”.

O jeito que ele tinha para agarrar as cobras mostrou-se quando se procedeu ao arranque da torga (dos tocos) no PENEDO DO CUCO para a Junta da Freguesia fazer carvão e com o dinheiro dele executar algumas obras públicas. Outros tempos, outros tempos! E a mexer as terras e as pedras, esses répteis eram quase tantos como os “tocos” das urgueiras.

Quem os ia apanhar? O tio JOÃO CAMELITO. E, para estranheza dos demais, ele levava-as para casa e dizia que as comia, depois de lhes decepar um palmo a partir da cabeça e outro a partir da cauda.

Homem atarracado, ia jurar que ele tinha um forte bigode. Um pioneiro, estranho, esquisito. Comer carne de cobra, homessa! Ali, em Cujó e toda a serra,  só presunto, salpicão, chouriça, toucinho, ou naco de pão seco, côdeas de broa, rijas que nem corno. Fino, este nosso “quijôto”. Queria lá saber do que diziam, se as cobras lhe bem sabiam?

cardas-12 - O tio LAUREANO conheci eu muito bem. Meu vizinho de nascença, dele destaco a lembrança de, tal como os restantes volframistas (eu, pequeno, também fiz isso) vê-los de joelhos junto à gamela, debruçados sobre ela, mãos calejadas, dedos ágeis, a empurrar a terra para a cabeceira, onde deslizava lentamente uma película de água transparente, da espessura de papel celofane, por forma a levar a terra e deixar o minério preso, pelo peso, à tabua de base. Um sonho negro de todos aqueles que a ele se agarravam para ganhar o pão de cada dia, nesse tempo.

Mas, além da lembrança das mãos calejadas do tio LAUREANO, nunca esqueci a sua arte de CARDADOR. A última vez que o vi, em tal tarefa, foi na casa da tia CLEMENTINA, minha vizinha, mãe da Lurdes, da Isabel, da Ester, do Agostinho e do Zé.

Recorro à retina e à memória. No sobrado, um montão de lã emaranhada de um lado, do outro, um banco com uma malga de azeite e, no centro, ele, o ARTISTA, sentado num banco com dois pares de cardas, as ferramentas do ofício. Um par era para “escarduçar” (a primeira fase da tarefa) e outro para “cardar”. E “rap que rap”, ora vai ora vem, dentes para cá, dentes para lá, inversão de cardas e de mãos, de quando em vez metia os cardas-3dedos na malga e, fazendo deles hissope, polvilhava a lã para a tornar mais macia. E sei lá se o milagre de, terminada a operação, de entre o par de cardas sair uma porção de lã, com o tamanho das  cardas e  espessura de uma folha de papel que, assim direitinha, ele colocava numa pilha ao lado, a fazer lembrar uma torre. Não a TORRE DE PISA inclinada, que eu desconhecia. Mas uma torre aprumada, pedra sobre pedra, alinhadas horizontalmente com o nível de bolha e, na vertical, com fio de prumo.

E eu, observando o ARTISTA, admirava-me de ver ferramentas tão toscas, dentes de aço contrapostos, manejadas por mãos tão rudes e calejadas, produzirem folhas de lã com a leveza de penas de aves que eu via voar pelos montes. Coisas e imagens que não esquecem.

3 - O tio ARTUR, quanto a volframista “idem, idem, aspas”. Mas não esqueço que, no meu tempo de juventude, era o homem mais idoso que, na aldeia,  sabia tocar GUITARRA PORTUGUESA. E mais uma vez os meus olhos e a minha atenção se perdiam em interrogações: como é que aqueles dedos calejados, encarquilhados da água, a empurrar a terra na gamela do minério, faziam trinar uma guitarra em dia de festa ou de baile? A esposa, cujo nome esqueci (o meu perdão) cantava o fado. E tinha uma voz de encanto.

O filho João fez a tropa comigo no R.I. 14 de Viseu. Eu fui para África. Ele foi não sei para onde. Nunca mais o vi. São as encruzilhadas da vida.

4 - Dos “MADALENAS”, lembro-me bem do tio MANUEL, com quem conversei muita vez na vila de Castro Daire. Um dia perguntei-lhe e ele explicou-me por que tinha a alcunha de FIDALGO. Manuel Fidalgo-

Éramos amigos e ele sempre que vinha a Castro Daire, procurava-me para termos “dois dedos de conversa”. Eu sempre aprendi com as pessoas mais idosas.

E, por aqui me fico, justificando a razão por que disse que o SALVADOR, comentando o meu post, tinha trazido uma EXCELENTE ACHEGA. Ora digam lá se trouxe o não?

As fotos das CARDAS fui buscá-las à Internet. O MUSEU MUNICIPAL DE CASTRO DAIRE não tem “coisas” destas. Como não tem, aliás, tantas outras que devia ter.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.