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quarta, 21 outubro 2020 13:23

TRAÇOS PARA UMA GENEALOGIA

Escrito por 

BERNARDOS

As recentes crónicas que publiquei sobre as ruínas das moradias, em Cujó, que foram dos meus pais, nas quais me criei, proporcionaram-me lançar um olhar arqueológico sobre elas, no seu conjunto e cada uma de per si, mais sobre as paredes meeiras entre os vizinhos e o capeado saliente nalguns alçados, em forma de “V” invertido, visando a proteger das águas a moradia ou palheiro situado a nível inferior.

 

PRIMEIRA PARTE

Mas, a par desse olhar, pés assentes no chão, não foi sem emoção que me desloquei no fio do tempo e observei as construções que tiveram precedência sobre as outras que, de encosto, se levantaram depois, ampliando os aposentos ou permitindo que novas habitações surgissem.

E para ampliar a minha visão de conhecimento e de estudo, não hesitei em subir ao céu e, a partir do GOOGLE EARTH, olhar o complexo dessas moradias acasaladas e logradouros comuns usufruídos que eu conheci e pisei, descalço ou de tamancos, nos meus tempos de juventude.

CUJÓ-BERNARDOS - REDZ

E foi nesse olhar de cima para baixo, lá do alto, combinado com o conhecimento que eu tinha dos proprietários desse tempo, associando ainda a narrativa que o meu pai, Salvador de Carvalho, em vida, deixou na entrevista, em vídeo, gravada em casa do meu irmão António, em Cujó, onde ele fala dos BERNARDOS e de alguns dos seus membros, colaterais, descendentes e ascendentes, nomeadamente o meu avô BERNARDO, levou-me a levantar a hipótese que todo aquele complexo de casas coladas umas às outras, costas com costas e algumas delas com janelas abertas viradas para um amplo logradouro comum, teriam andado por perto as família dos BERNARDOS, SALGUEIRINHOS e VAZES, o que apontava, desde logo, para casamentos cruzados ideia reforçada pela proximidade de moradias, lojas e palheiros que ainda, no meu tempo, estavam ligadas a essas famílias ou a sua referência toponímica não muito longe dali.

CUJÓ-MORADIAS E LOGRADOUROImpunha-se-me, pois, navegar no fio cronológico da história e trazer à luz dos tempos atuais a matéria que ficou omissa no meu livro “Cujó, Uma Terra de Riba-Paiva”, editado em 1993, obra que parece não ter despertado o interesse dos naturais para a HISTÓRIA da sua terra, pois, e contrário já se teria esgotado há muito tempo, coisa que não aconteceu. Talvez porque tenha sido feita “pro bono” por um filho da terra.

Assim, como assim, resiliente, esse mesmo filho da terra, agora com a autoridade dos seus 81 anos de idade, guiado pelo fiel da BALANÇA DA SUA CONSCIÊNCIA, pelo dever e brio de historiador, meteu mãos à obra, e vejam só, conduzido pela mão do primo AMADEU DUARTE PEREIRA, um “quijôto” que, como tantos outros, forçado a procurar vida longe da terra natal, nunca esqueceu as suas origens, as CASAS, RUAS e GENTES, de Cujó, como já deu sobejas provas, sem ser um académico nem almejar a tais títulos.

Não precisou de ser “doutor” para, movido exclusivamente pelo sentido da “história com gente dentro” e animado pelo laborioso espírito da formiga, lá longe, a residir na ERICEIRA, com o pensamento em CUJÓ e em todos os que formigaram por aqui, em tempos longínquos, toca a explorar os ARQUIVOS PAROQUIAIS DA FREGUESIA DE SÃO JOANINHO, decidido a saber nomes dos naturais, ou residentes, a partir dos BAPTIZADOS, CASAMENTOS E ÓBITOS.

Depois (ó senhores, quantos anos, quantas canseiras, quantas horas à frente de um monitor de computador a folhear arquivos) para ter o prazer do conhecimento, do saber e do fazer-saber, fazendo chegar até mim um extenso “GUARDANAPO” (ou, para ser mais campesino, uma imensa folha de couve lombarda) com os nomes de muitos desses nossos antepassados. Quer dizer, as pessoas que não aparecem no “PowerPoint” que ele fez, em 2009, passeando-se pelas ruas de Cujó, a que deu o título “UMA ALDEIA DA SERRA”, e que eu, para constar,  me apressei,  com muita satisfação e carinho, a divulgar  no FACEBOOK, no mural dos “AMIGOS DE CUJÓ”.

VARANDA-1Logo de seguida ele fez-me chegar, em formato digital, o resultado da sua longa e demorada  pesquisa, como que a sugerir (palavras suas: «tu é que és o historiador») que eu desse vida a esses nomes de crianças e pessoas adultas, todos eles impossíveis de fotografar nas ruas da aldeia, visivelmente deserta, nas excelentes imagens que delas fez nesse ano. Essas fotos são autênticos e preciosos documentos para o presente e para o futuro, captados pelo olhar sensível e artístico de um “natural-ausente”, num tempo de mudança, onde ainda se veem aspetos da primitiva arquitetura rural e a mudança de feições trazidas com a modernidade, as posses financeiras e o bem-estar de cada um.

Eu, que fui o responsável pela divulgação desse “PowerPoint”, depois de lho ter solicitado e ele me ter chegado por via informática, apressei-me a dizer:

Da minha parte, acrescento que este trabalho de AMADEU DUARTE PEREIRA, honrado filho da terra, é um “Hino”, um “Canto” dos “cantos” e “recantos” antigos e modernos de CUJÓ. O meu BEM-HAJA aqui fica, não qualidade de PRIMO, mas de HISTORIADOR”.

E é como historiador que reitero o que já disse a propósito: «eu e mais este meu primo teríamos feito um EXCELENTE PARCERIA nos TRILHOS DA HISTÓRIA, se há mais tempo tivéssemos caminhado juntos».

E nunca é demais repetir que é com uma percentagem assinalável do ouro por ele garimpado nas minas institucionais que eu tento produzir esta peça de filigrana que bem pode ilustrar um cantinho da história da nossa terra.

Pois. Dito isto, é pela mão dele que, agradecido, vou recuar ao século XVIII, mais propriamente ao dia 6 de setembro de 1742, para vermos na pia de batismo um menino a que foi dado o nome próprio de BERNARDO, por sinal filho de pessoas sem esse apelido colado aos seus nomes. Era filho de Luís Pereira e de Laurinda de Ascensão, neto paterno de Pedro João Morgado e Luiza Vaz. E materno de António João e (F...) Gonçalves. Teve por padrinhos, Manuel da Costa e Maria Morgado.

Eis, pois, até onde foram levadas as suas pesquisas, mais um BERNARDO de nome próprio, em Cujó, já que outros adultos havia de NOME E APELIDO, como veremos. E uma das provas disso está no registo de batismo feito em 29 de outubro do mesmo ano (1742) do menino ANDRÉ, filho de José Rodrigues do Corgo e de Maria Bernarda, neto paterno de Domingos Rodrigues do Corgo e Luísa Rodrigues e neto materno de Bernardo Pereira e Maria Monteiro. Teve por padrinhos simplesmente o André e a Maria.

Passados três anos, exatamente no dia 28 de novembro de 1745, mais um menino foi batizado com o nome de BERNARDO, filho de José Rodrigues e Teresa Monteiro, neto paterno de António Rodrigues e Luísa Pereira, materno de António Gonçalves e Ana Monteiro. Apadrinharam o sacramento Manuel e Joana.

E, em 24 de janeiro de 1771, mais uma criança, do género feminino, recebe o nome de BERNARDA. Era filha de Manuel Pereira e de Maria da Luz, neta paterna de Bernardo Pereira e Maria Monteiro e materna de João de Carvalho e Maria da Luz. Apadrinharam José e Bernarda.

Não é pretensão minha seguir a par e passo todos os registos constantes no EXTENSO GUARDANATO digital que me foi fornecido pelo meu primo AMADEU DUARTE PEREIRA. Pretendo, para já, deixar a referência aos BERNARDOS no século XVIII, em Cujó, e sublinhar que o nome próprio dado a crianças dos dois géneros - BERNARDO e BERNARDA - sugere tratar-se de gente respeitável, de contrário, nunca tais nomes, então, como hoje, iriam às pias batismais receber a água benta. Como direi mais adiante, sempre houve nomes mais recomendáveis  do que outros.

Mas pretendo também, demonstrar que os casamentos cruzados que os BERNARDOS tinham com famílias de outros APELIDOS, nomeadamente  os VAZES e os SALGUEIRINHOS, terão algo a ver com a proximidade das suas moradias, aquelas que chegaram à minha juventude e, à falta delas, as referências toponímicas nas cercanias.

Só mais três exemplos do século XVIII, todos de 1779.

Com efeito, nesse ano, no dia 4 de outubro foi batizada a menina MARIA, filha de Domingos Esteves e Bernarda Santos, neta paterna de António Esteves e Bárbara Pereira, e neta materna de João de Carvalho e de Maria da Luz. Apadrinharam a infanta, Inácio de Carvalho e Luísa de Morais.

E em 6-3-1779, foi ao batismo a menina ÁGUEDA, filha de Bernardo Pereira e de Justina Pereira, neta paterna de Francisco Pereira e Maria dos Santos. E materna de José Rodrigues Vaz e Maria Pereira.

E em 8-8-1879, mais uma menina é levada à pia batismal. Seu nome MARIA, filha de Domingos Esteves e Bernarda dos Santos, neta paterna de António Esteves e Bárbara Pereira e materna de João de Carvalho e Maria da Luz.

 

SEGUNDA PARTE

E eis que chego ao ponto fulcral que me levou a recuar tão longe no tempo em busca dos meus ascendentes BERNARDOS. Com efeito, passados dez anos, isto é, chegados à década de 80 do século XIX, mais precisamente ao dia 28 de novembro de 1886, aparece a MARIA, filha de José Pereira Bernardo e de Leonor Pereira Vaz, neta paterna de António Pereira Bernardo e de Ana Pereira Salgueirinho e neta materna de (F...) e Maria Pereira Vaz. Apadrinharam o ato Joaquim Pereira Bernardo e Delfina Joaquina.

Em 1-9-1887, outra MARIA foi ao batismo. Era filha de João Pereira Bernardo e de Custódia Duarte. Neta paterna de António Pereira Bernardo e de Ana Maria Salgueirinho. E materna de Matias Pereira e Margarida Duarte. Apadrinharam o sacramento Joaquim Bernardo e Maria Pereira.

Abro aqui um parêntese para trazer à colação a referência a esta CUSTÓDIA DUARTE, esposa de João Pereira Bernardo, irmão do meu avô, José Pereira Bernardo, ambos homens altos, assim classificados numa conversa gravada em vídeo, em 31-3-1991, na casa do meu irmão António, em Cujó, (imagem do genro Firmino) na qual se trocavam-se impressões sobre a quem sairia o filho JORGE, se aos Pereirinhas, se aos Bernardos. E um critério a ter em conta seria a estatura física que viesse a ter em adulto, sabendo-se que os Pereirinhas eram mais altos do que  os Bernardos.

Ouvindo tal, o meu pai, pessoa de uma memória assinalável, cuja palavra tinha a força de um documento escrito, lembrou que os irmãos  BERNARDOS, João e José, eram homens altos e que a esposa do João, a “tia Custódia, era uma mulheraça”. Era só ver a Gracinda Tobias, neta deles, também ela alta. Não era, pois, esse o critério certo para se saber a que ramo da família sairia o rapaz.

Feira de Cujó- AnúncioReferi a assinalável memória do meu pai, Salvador de Carvalho, e a sua palavra ter a força de uma escritura pelas provas dadas aquando da investigação que levei a cabo sobre o livro a que aludi acima. À pergunta sobre a data da primeira feira realizada em Cujó, foi taxativo: “foi em 1927”. Claro que ele e os mais “informantes” que constam na  BIBLIOGRAFIA ORAL nas últimas páginas desse livro (cujos nomes e idades, em sua memória,  deixo também a rematar este texto, no EPÍLOGO)   ignoravam que eu cotejava as informações por eles dadas, com as informações escritas e publicadas. E relativamente à feira em questão já dei a conhecer o EDITAL, assinado pelo então Presidente da Câmara, João Simões de Oliveira, publicado na imprensa local, que aqui se anexa, muito a propósito, já que no livro, devido aos custos, não pude incluir esta e outras ilustrações.

E dito isto, retorno a tempos mais recuados. Chego ao dia 23-11-1890  e constato que foi ao batismo JOAQUIM, filho de José Pereira Bernardo e Leonor Pereira Vaz. Neto paterno de António Pereira Bernardo e de Ana Pereira Salgueirinho e materno de Joaquim Pereira Bernardo e Joaquina Silva.

Em 13-12-1892, foi bautizada a ANA, filha de José Pereira Bernardo e de Leonor Pereira Vaz, neta paterna de António Pereira Bernardo e de Ana Pereira Salgueirinho. E materna de (F...)  Maria Pereira Vaz. Apadrinharam Joaquim Pereira Vaz e Ana de Jesus.

E a referência a estes dados bastar-me-ia para constatarmos a aproximação dos BERNARDOS, dos SALGUEIRINHOS e dos VAZES, unidos não só por laços de amizade projetados nos sacramentos do batismo e casamento, mas também nas moradas próximas que chegaram à minha juventude, ou, na falta delas, a persistência toponímica nas cercanias.

Mas antes de recorrer à minha memória, vou ainda botar mão ao “Caderno Eleitoral da Freguesia de Cujó” feito em 1970, pela Junta da Freguesia, composta, então, por Zeferino Gonçalves (presidente), Francisco Duarte e José Duarte da Silva, para nele vermos se houve ou não continuidade das famílias BERNARDOS, dos SALGUEIRINHOS e dos VAZES, na aldeia.

Com efeito, nesse caderno encontramos recenseado AIRES PEREIRA BERNARDO, viúvo, pedreiro, de 67 anos de idade. ANTÓNIO PEREIRA VAZ, pedreiro de 43 anos de idade. ANTÓNIO SALGUEIRINHO, casado, pedreiro, 57 anos de idade. ANTÓNIO DOS SANTOS SALGUEIRINHO, casado, pedreiro, 38 anos de idade. FIRMINO LEONOR, casado, agricultor, 63 anos de idade. FRANCISCO PEREIRA BERNARDO, casado, pedreiro, 62 anos de idade. JOÃO BAPTISTA PEREIRA VAZ, viúvo, pedreiro, de 72 anos de idade. JOÃO DUARTE BERNARDO, casado, carpinteiro, 29 anos de idade. JOÃO SALGUEIRINHO, casado, pedreiro, 70 anos de idade. JOAQUIM SALGUEIRINHO, casado, pedreiro, 73 anos de idade. JOAQUINA LEONOR, viúva, doméstica, 67 anos de idade. JOSÉ BERNARDO DA SILVA, casado, pedreiro, 61 anos de idade. JOSÉ PEREIRA BERNARDO, casado, pedreiro, 42 anos de idade. JOSÉ PEREIRA VAZ, casado, barbeiro, 40 anos de idade. JOSÉ DA SILVA LEONOR, casado, pedreiro, 42 anos de idade. JOSÉ DA SILVA VAZ, casado, pedreiro, 39 anos de idade. JUSTINO PEREIRA BERNARDO, casado, carpinteiro, 58 anos de idade. SAMUEL DA SILVA VAZ, casado, pedreiro, 35 anos de idade. TOBIAS BERNARDO, casado, carpinteiro, de 63 anos de idade. ZEFERINO PEREIRA VAZ, casado, proprietário, 77 anos de idade.

Todos eles num total de 189 residentes recenseados neste caderno eleitoral, já por mim usado no livro que escrevi sobre CUJÓ, no qual deixei as referências ao número de pedreiros, agricultores, domésticas, etc. para onde remeto os leitores interessados, pois sou pouco atreito a “fazer chover no molhado”.

 

TERCEIRA PARTE

Porquê, então, destacar entre tantos, estes nomes dos BERNARDOS, dos SALGUEIRINHOS e dos VAZES, deixando omissos os restantes que, em Cujó, foram residentes e tiveram seguramente o seu protagonismo histórico na comunidade?

Pelo simples facto de no meu livro “Cujó, Uma Terra de Riba-Paiva” acima referido, me ter aparecido pela primeira vez o nome de JOSÉ PEREIRA VAZ enfiteuta foreiro do Convento das Chagas em Lamego, documentado numa escritura que me foi oferecida por ZEFERINO GONÇALVES, cunhado de JOSÉ DA SILVA VAZ, mais conhecido por “ZÉ DOMINGOS”. Eram terras “emprazadas” por “três vidas” e quem mais quiser saber sobre isso terá de ler o livro acima citado, onde descrevo esse tipo de arrendamento e trâmites processuais assinados entre as partes.

PRAZOSE não é despiciendo aproximar aqui o nome de JOSÉ PEREIRA VAZ (o enfiteuta que pagava os foros ao Convento das Chagas de Lamego), ao nome de DOMINGOS PEREIRA VAZ, o artista autor da CADEIRA PAROQUIAL da Igreja Matriz de Cujó e mais obras de arte, bem como do seu filho ZÉ DOMINGOS, cuja maestria (de pai e filho) já reportei em textos escritos e vídeo. Todos eles VAZES, família a que pertencia a minha avó materna LEONOR PEREIRA VAZ.

Claro que quando, nesse meu livro, tratei dos PRAZOS e regime de aforamento de terras feito a JOSÉ PEREIRA VAZ, nem sequer imaginava que a minha avó materna LEONOR PEREIRA VAZ pertencia à sua família, de contrário a isso teria aludido, na oportunidade. Mas como a HISTÓRIA resulta da investigação e se vai construindo com o resultado dela, aqui deixo agora essa relação de parentesco, pois ela bem pode esclarecer, por via genética, o que omisso ficou nos registos escritos ou perdido na memória humana. Onde quero chegar eu com esta advertência, por forma produzir conhecimento novo que ultrapasse o “dito e feito”?

É esse o papel do historiador, já que “fazer-história” não é somente recolher os factos, identificar pessoas e lugares, metê-los no fio de um rosário e já está. Não. Quando os documentos são omissos ou a memória humana se perdeu, cabe ao historiador preencher lacunas, estabelecer as conexões perdidas e, a partir dos dados trazidos pela investigação, produzir uma narrativa plausível, cerzir um tecido consistente e resistente aos críticos, aos célticos, ou desinteressados, manifestamente pouco atreitos a ler o passado e muito menos a dar o seu contributo esclarecido ao futuro, facilitando a vida aos vindouros.

ZÉ-ESCULTURASE remato: JOSÉ PEREIRA VAZ, o agicultor-enfiteuta. DOMINGOS PEREIRA VAZ, o artista-pedreiro-canteiro-marceneiro. JOSÉ DA SILVA VAZ, o artista-pedreiro-canteiro. Todos VAZES. Todos hábeis no manejo do arado, da goiva, do formão do martelo, do pico, da maceta e do ponteiro. Fosse na arte da lavoura, fosse na arte de pedreiro, carpinteiro ou marceneiro, a arrancar da pedra bruta as imagens que nelas se escondem, essa arte encontrou continuidade genética no neto de LEONOR PEREIRA VAZJOSÉ PEREIRA DE CARVALHO, filho de Salvador de Carvalho e de Gabrielina Pereira. É só ver o número de esculturas que ele tem expostas no pátio da sua morada e espalhadas por mais sítios públicos e privados.

E, dito isto, repesco para aqui também o que nesse livro disse sobre a “evolução urbana” da povoação, alvitrando que ela se terá desenvolvido a partir de diferentes núcleos que tiveram as “FONTES” como polos de atracão, num tempo em que a água, produto vital, só podia chegar às moradias transportada em canecos e outras vasilhas de madeira ou de barro.

Disse então, e aqui repito agora, que foi em torno delas, ou perto delas, que nasceram as primeiras casas, os primeiros aglomerados, com espaços vazios entre si destinados a canastros, eiras e lenhas.

E o quarteirão de moradas e palheiros delimitado pelas atuais Rua das Pombas, Rua da Fontinha, Rua das Eiras e Rua Escura (do Salqueirinho, o nome não vem por acaso) visto do GOOGLE EARTH até parece um condomínio fechado, destas famílias. (c. foto acima)

fonte SalgueirinhoFalei disso tudo e coloquei a FONTE DO SALGUEIRINHO (fonte de chafurdo) como principal abastecedora do núcleo populacional dos BERNARDOS, SALGUEIRINHOS E VAZES. Daí não ser propriamente por acaso que chegou até nós a FONTE DO SALGUEIRINHO e, até tempos bem próximos, o FORNO DO SALGUEIRINHO, forno de herdeiros, que tinha apenas uma barroca a separar os campos designados por esse topónimo, irrigados com as águas dessa FONTE e onde os meus pais tinham algumas parcelas de terreno, para ervas e couves.

Postas assim as coisas, vemos nesse quarteirão de casas e palheiros, na mesma rua e no outro lado dela, os BERNARDOS e os VAZES, ainda que eles se não circunscrevessem ali e se encontrassem dispersos pela povoação. O mesmo para os SALGUEIRINHOS, que por casamento ou outras razões, não é da minha lembrança morarem por perto, ainda que o seu nome ficasse ligado ao lugar, isto é à FONTE e ao FORNO.

Daí que, como toda a pessoa informada, seja contra o apagamento dos topónimos, pois eles, à falta de documentos escritos, são autênticos pergaminhos a informarem sobre famílias e lugares.

fORNODos BERNARDOS, além da minha mãe GABRIELINA que não recebeu esse apelido e morou no núcleo que integrava o FORNO DE FAMÍLIA que foi demolido pelo meu pai e é da minha lembrança, temos a nascente as casas do tio TOBIAS BERNARDO, filho de JOÃO PEREIRA BERNARDO, que tinham acesso ao núcleo do forno familiar pelas traseiras, antes de ali ter sido feita, de permeio, a casa da tia TOMÁSIA PEREIRA. A parede que hoje existe a cortar o acesso ao hortejo que está nas traseiras de uma das construções (palheiro e loja do gado, adquirida pelo meu pai) com uma portinhola para esse hortejo, bem sugerem que era por ali que os BERNARDOS, de cá e de lá, estavam ligados por essa via e dessa passagem se serviam para se visitarem ou fazerem uso do FORNO sem terem de contornar o quarteirão de casas que acima deixei demarcado a encarnado. Isto até chegarem os tempos aue imprimiram as mudanças por mim conhecidas e o FORNO DO SALGUEIRINHO ter substituído o que foi demolido pelo meu pai.

CATAVENTO

Uma das moradas que foi de JOÃO PEREIRA BERNARDO, herdada por TOBIAS BERNARDO e depois pelo filhos David e Conceição, na rua atualmente designada RUA DA FONTINHA, foi  comprada e  reconstruída para ser morada de uma das suas netas, minha sobrinha, filha do João Tobias e da minha irmã Maria dos  Prazeres. E, nas proximidades, quem pode esquecer as moradas do tio João Baptista Pereira Vaz e outros  VAZES que terão nascido e morrido a servirem-se da água da FONTE DO SALGUEIRINHO e a fazer fornadas de pão no FORNO do mesmo NOME?

 

QUARTA PARTE

Mas vamos ao nome dos meus avós JOSÉ PEREIRA BERNARDO e LEONOR PEREIRA VAZ. Vou deixar os arquivos paroquiais digitalizados e recorrer aos meus arquivos de memória para ilustrar um tratamento entre os habitantes, muito característico nos meus tempos de juventude e que se vai perdendo a olhos vistos.

Para isso, todavia, tenho de recuar à IDADE MÉDIA e lembrar como então se identificava quem era filho de quem. Assim: se nos documentos, manuscritos ou impressos, temos o apelido FERNANDES, sabemos que ele era filho de FERNANDO. Se temos o apelido JOANES, sabemos que ele era filho de JOÃO. Se temos o apelido MENDES, sabemos que ele é filho de MENDO. E, para não me alongar, o mais conhecido foi AFONSO HENRIQUES, filho de do Conde D. HENRIQUE.

Isto para justificar o costume de, em Cujó, o pai ou a mãe, para além de transmitirem institucionalmente e nos documentos os seus apelidos aos filhos, a verdade era que, na comunidade aldeã, associado ao nome próprio vinha sempre colado o nome do pai ou da mãe. Dois exemplos: o João Tobias, meu cunhado, filho de Tobias BERNARDO. O Zé Aníbal e o António Aníbal, filhos do tio Aníbal. O Zé Maximino, filho do tio Maximino. José, João, António e Joaquim Tibérios, filhos do tio Tibério. Eu próprio, Abílio do tio Salvador e os meus irmãos todos.

E nesta forma de tratamento notório foi o papel que teve o nome da minha avó, Leonor Pereira Vaz. Todos os meus tios, filhos dela eram conhecidos por LEONORES.

Maria Leonor (a minha tia e madrinha), a Ana Leonor (minha tia) o João Leonor (meu tio) a Joaquina Leonor (minha tia) e até os meus primos filhos da tia Ana Leonor  (que sabemos ter sido batizada em 13-12-1892) por exemplo, o José da Silva (vulgarmente conhecido por Zé da Gaita) é referido no caderno eleitoral de 1970 com o nome José da Silva Leonor.

Nuns casos pontificava o nome do pai e noutros o nome da mãe, o que leva a presumir que tal se devia ao papel dominante assumido no seio doméstico por cada um dos progenitores. E esse papel se Projetava depois para o público, por essa via desse tratamento.

ENTRADA LOGRADOURO.1Expostos estes pormenores, com sabor claramente medieval, que dizem mais respeito à Sociologia do que à História, volto ao quarteirão de casas onde se integram aquelas que foram dos meus pais, atualmente em ruinas. Tudo sugere que esse complexo pertenceu aos BERNARDOS e aos VAZES, fossem as casas e palheiros com entradas pelas atuais ruas das Pombas e da Fontinha, algumas delas com janelas viradas para o grande logradouro e hortas a confinarem com o mesmo, seja pelo amplo logradouro onde está a EIRA que, conjuntamente com EIRA DAS FERREIRAS, deram o nome à rua que leva à FONTE DO SALGUEIRINHO e à IGREJA.

E, naquela zona, pelo que foi dito e ainda se pode ler naquele complexo de moradias, os BERNARDOS (que não ficaram pelo núcleo inicial, tal como todos os outros, hoje dispersos por toda a povoação) apesar de não serem possuidores de habitações cuja arquitetura as distinguisse da humildade das suas congêneres vizinhas de paredes meeiras, dispunham de um logradouro invejável, todo ele vedado com duas entradas apenas.EMTRADA LOGRADOURO-2

Um autêntico lameiro nestes tempos que correm, ali aquele espaço que foi terreiro de correrias de crianças e de jogo da malha e do pião. Um espaço de alarido e algazarra, virou habitáculo de silêncio, espaço sem vida, tal como as casas onde nasci e me criei. São os trilhos da HISTÓRIA. São os efeitos da emigração e da desertificação.

 

EPÍLOGO

Disse o meu pai que o meu avô JOSÉ PEREIRA BERNARDO e o seu irmão JOÃO PEREIRA BERNARDO eram homens fortes e altos. Opinião sua que dou por certa, sabedor que sou da qualidade de sua memória. E eu, baseado embora nos registos escritos, preferindo sempre ficar-me no sério balouçar na corda da plausibilidade do que na esticada corda das certezas infundadas,

disse que, se à PIA BATISMAL eram levadas crianças, masculinas e femininas, para receberem o nome próprio de BERNARDO e de BERNARDA, é porque tais nomes não envergonhavam, antes pelo contrário dignificavam a família que tais apelidos tinham. No fio da História houve sempre nomes mais recomendáveis e apetecidos do que outros. Já discorri bastante sobre o nome PELÁGIO, vulgaríssimo na Idade Média, entre nós, e atualmente desaparecido. Foi na crónica com o título «O CULTO DE HERÓIS E SANTOS». Parece pois, que à estatura física desses dois homens se pode associar a sua estatura moral. E, como costuma dizer-se nos casamentos, quem tiver alguma coisa a dizer, que diga agora ou então “que se cale para sempre”.

FONTES ORAIS-REZE, com a isenção que o historiador deve imprimir na narrativa que produz, não foi por ter encontrado o registo da entrada na cadeia comarcã de Castro Daire, de Daniel Pereira Bernardo e Fortunato dos Santos, acusados de “furto e ofensas corporais” que me obrigam a mudar a apreciação. Primeiro, porque conheci e convivi com o tio Fortunato dos Santos, meu vizinho, a ouvir, boquiaberto, as aventuras que viveu como soldado na PRIMEIRA GRANDE GUERRA. Segundo, nunca se constou, na aldeia, que ele fosse amigo do alheio. Terceiro, se da honestidade do tio Fotunato eu dou testemunho vivo por escrito, extensivo que seja o mesmo critério a Daniel Pereira Bernardo, o historiador, fazendo o enquadramento no tempo dos actos praticados, sabedor de que “cortar um molho de lenha” num terreno baldio “gomado” era uma infração à lei, facilmente conclui que, então como agora, a JUSTIÇA, simbolicamente representada por uma mulher de olhos vendados, bem podia tirar a venda, abrir os olhos e meter na cadeia não quem desastradamente rouba um molho de lenha, mas quem ardilosamente assalta bancos e se apropria das poupanças dos depositantes, resultantes de muitos anos de suor e trabalho.

Assim, como assim, feitas estas apreciações com todas as indispensáveis ressalvas, não pretendo esvaziar o ditado popular, sempre pronto a ser disparado pelos arqueiros de serviço, em momentos como este: “no melhor pano cai a nódoa”.

Enfim, tendo já histriado e publicado matéria bastante sobre a minha ascendência paterna a propósito da minha avó Florinda, com este meu texto sobre a minha ascendência materna, deixo equilibrado o fiel da balança que pesou as minhas origens.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.