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quarta, 14 outubro 2020 21:03

MONTEMURO - VISITA GUIADA

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HISTÓRIA 

Quem rodar na estrada 321 que liga Castro Daire a Cinfães e vice-versa, nas proximidades de Picão e da Carvalhosa, mais ou menos a meio desse troço, encontra os sinais de trânsito a apontar para o Rossão e a Gralheira. E seguindo essa estrada, irá encontrar as razões desta crónica.

PRIMEIRA: já em zona planáltica verá, à sua esquerda, um morouço de penedos coroado por uma AZEVINHO que fica mesmo em frente da estrada que, à direita, dá acesso ao “Parque Eólico Arada-Montemuro.

SEGUNDA: a cerca de 800 metros mais adiante encontrará a CAPELA DA CRUZ DO ROSSÃO que se levanta no cruzamento de estradas que levam ao Rossão, Carvalhosa e Gralheira.

 TERCEIRA: seguindo a estrada da Gralheira, cerca de 300 metros depois da Capela, deriva, à esquerda, um caminho carreteiro que leva às tapadas e lameiros existentes na vertente nascente da serra. No topo do primeiro outeiro, junto ao muro que separa a tapada do velho caminho, atualmente entupido de mato, por falta de uso, estão duas CAMPAS ANTOPOMÓRFICAS. Vamos por partes.

 

 

PRIMEIRA PARTE

(CAPELA DA CRUZ DO ROSSÃO)

CAPELA-REDNo largo do CRUZAMENTO, acima referido, levanta-se, vetusta e segura, de planta quadrangular e construída em granito, cobertura em pirâmide,  a CAPELA DA CRUZ DO ROSSÃO. Na padieira da porta, virada a nascente, está inscrita uma data, cujos dois primeiros números foram recentemente avivados a ponteiro, mas os restantes ficaram intatos um pouco “delidos”. Mas, sem esforço consegui ler 1807, sendo que o último número está quase apagado.

Não longe da capela, junto à estrada, metida no solo verdejante do lameiro, existe uma pedra de forma aproximadamente cúbica, com sinais evidentes de ter sido o plinto da CRUZ que deu o nome ao sítio. Na parte superior tem a recrava vazia da cruz desaparecida e numa das quatro faces, presumivelmente a frontal, outra recrava de “alminhas” sem elas. Em toda esta face, em redor da abertura para as “ALMINHAS” está inscrita uma legenda indecifrável rematada, no fundo, com data 1742, sendo que o 4 está inclinado, como vi noutras datas, uma delas em Cujó,  dificultando a sua leitura.

PLINTO-2 - CópiaDeixando, por isso, que os especialistas em EPIGRAFIA decifrem o que resta da mensagem ali inscrita, dado o estado em que se encontra, antes que os dentes da erosão mastiguem todas as letras, manda-me o dever, colocar aqui, lado a lado, as duas fotos que tirei na minha visita. A primeira, tal qual foi capturada pela câmara, e a segunda com as letras que julgo ver destacadas a encarnado.

E, para além da data, ao fundo, - 1742 - parece-me ver ao lado da abertura destinada às ALMINHAS o nome de “CRISTOVA (M)...”

Ora, sendo aquele templo conhecido por “CAPELA DA CRUZ DO ROSSÃO” à semelhança do que acontece na designada “IGREJA DA ERMIDA DO PAIVA”, mesmo sem datas, claro fica que, cronologicamente, a CRUZ precedeu a CAPELA, tal como, nas margens do Paiva, sem datas indicadoras, a ERMIDA precedeu a IGREJA, como defendi no livro «MOSTEIRO DA ERMIDA», editado em 2001 (esgotado).

CAPELA E MOTA-REDZNas comunidades cristãs, a implantação de cruzes nos cruzamentos deviam-se a várias razões. Uma delas era para sinalizar morte de homem assaltado por bandoleiro que à pergunta de a “bolsa ou a vida”, respondeu com a vida em vez da bolsa. Outra por ser lugar de passagem frequente de muita gente e, como tal, propício a sugerir aos vivos o padre-nosso ou a ave-maria para sufrágio das “almas do purgatório. Outra, para afugentar as bruxas que, nos cruzamentos e sítios descampados como aquele, tinham por companhia os ventos que com elas bailavam e no seu  sopro levavam os satânicos e maléficos feitiços que faziam contra o mundo.

Sítio arejado e de largos horizontes, no topo das linhas de água que, em sentidos opostos, correm na vertente do Rossão e da Carvalhosa, lugar de encontro de gados e pastores, ali se faz uma feira anual no primeiro domingo de julho, recomeçada em data incerta, depois de muito tempo paradas.  Nela o gado bovino espelha no momento da "chega de bois” a relação do homem com a natureza e com os animais.

E, semelhantemente a todas as feiras e romarias antigas de montanha,  não raro era ali o tempo e o lugar para “ajuste de contas” de lavradores e comerciantes que ruminavam rixas o ano inteiro e dali saíam aliviados, às vezes ensanguentados, depois de descarregaram no casado do adversário os motivos que os levara a travarem-se de razões. Ainda que à vezes acontecesse, raramente recorriam aos tribunais, pois, com tal “ajuste de contas” ambas as partes desavindas se davam por satisfeitas e dirimidas ficavam ali as ofensas.

 

SEGUNDA PARTE

(CAMPAS ANTROPOMÓRFICAS)

CAMPA-REDZ-2Deixado o cruzamento e a CAPELA DA CRUZ DO ROSSÃO, a caminho da Gralheira, cerca de 300 metros depois, deriva, à esquerda, bem visível, um caminho carreteiro que leva às tapadas e lameiros existentes na vertente nascente da serra. No topo do primeiro outeiro, junto ao muro que separa a tapada do velho caminho que derivou do primeiro e mais puído, estão duas CAMPAS ANTOPOMÓRFICAS.

O meu amigo da Carvalhosa, Amândio Esteves, a residir na área da Grande Lisboa, que assiduamente acompanha as minhas publicações (escritas e em vídeo) depois de ver o vídeo em que falei das CAMPAS, apressou-se a informar-me, via telefone, que elas ficam no sítio designado por «URZES» e as atuais tapadas (que já foram lameiros) são propriedade da sua prima, Maria das Neves Esteves, vindas do seu antepassado Avelino Esteves.

LEONOR-2012-REDZNão é a primeira vez que visito estes monumentos. A penúltima foi em 2012 acompanhado da minha sobrinha Elda Maria, médica de profissão,  e da sua filhota Leonor, então estudante,  que se prestou a deixar-se fotografar numa delas, tal qual aqui vemos. Foi um belo passeio de família pela serra. 

Escavadas na rocha, inclinadas, com furo vazadouro na extremidade fundeira, existe na Internet e fora dela, informação bastante sobre estas obras humanas, mas nem toda ela concordante no que respeita à sua cronologia.

A mais antiga remete para o século VII da nossa ERA, portanto antes da chegada dos mouros que só aportaram na P. Ibérica no século VIII. Proto-cristãs para uns, cristãs para outros, o certo que sabemos é que serviam para inumar os mortos. Dispersas pelos montes e tapadas, ora isoladas, ora aos pares, ora agrupadas, muito há ainda que estudar e que explicar sobre elas. Já fiz crónicas escritas e vídeos daquelas que visitei no concelho de Castro Daire, nomeadamente, nas cercanias de Soutelo, Vila Boa e da Moita, pondo as minhas reservas nestas últimas quanto à sua função de sepulturas. Vi-as mais como sendo  lugares de sacrifício – humano ou animal -  do que de sepultura de  gente.

E, já fora do nosso concelho, também fiz vídeo sobre a NECRÓPOLE DO CARVALHAL, às portas VILA NOVA DE PAIVA, alojado no Youtube.

 

TERCEIRA PARTE

(O AZEVINHO)

MONTEMURO-AzevinhoA rematar a “trilogia” deste meu passeio pela serra do MONTEMURO coloco o AZEVINHO de que já fiz crónica escrita e vídeo. Em ambos disse que ele exerce sobre mim um fascínio inexplicável e isso está à vista.

Não vou repetir tudo o que já dito e escrito foi, mas necessário se torna enquadrá-lo no espaço e sublinhar a sua resistência solitária num habitat tão agreste, vencendo não só as intempéries, mas também e cumulativamente, a tesoura caprina, animais que, trepando o esfacelado penedo, o sujeitavam a uma permanente e indesejada poda.

Ruminantes lambisqueiros e trepadores, as cabras vencem todos os obstáculos para darem ao dente. E não enjeitam a silva, o tojo e mais arbustos de morfologia agressiva. Não. A cabra, um dos primeiros artiodáctilos a serem domesticados (c. 7000 a.C.) mordisca tudo o que lhe dá gosto em duplicado. No momento de comer e no momento de remoer, deitada à sombra e a pensar sabe-se lá o quê, a trazer à boca a comida mastigada guardada no armazém. Nessa situação dá gosto ver o ruminante a mexer o maxilar e acabar a refeição colhida a andar e a trepar.

EólicasIsto no tempo em que eu guardava gado e havia rebanhos na serra do Montemuro e arredores,  fossem de criadores nativos, fossem de transumância vindos da serra da ESTRELA. Transumância Autêntica, não Transumância Folclórica dependente da mesa do orçamento. Adiante...sou um lobo ibérico em vias de extinção que, pelo Montemuro, ainda vai dando sinais de vida uivando e alertando os envolvidos de que, quando se extinguir o subsídio, extinto fica o folclore, sem retorno da atividade pastoril, nem economia rural sustentável relacionada. E não é preciso ser Nostradamus ou Bandarra, pois o tempo se encarregará de mostrar isso mesmo. Esta crónica é um documento para MEMÓRIA FUTURA. A minha câmara filmou grande parte da serra, mas não captou a figura de uma cabra que fosse. Só mato, muito mato pronto a ser roído.

Ora, dito isto, com tal e antiga vizinhança diária, o AZEVINHO, ainda que a sua espécie lhe permitisse atingir 12 metros de altura e 300 anos de vida, podado sem piedade, convencido estava de não passar do arbusto ornamental verde-rubro, a embelezar aquele morouço de penedos que lhe serviam de habitáculo e de abrigo.

FOLHA AFRESSIVAE, dada a sua longevidade e situação geográfica, ouviu as flautas dos pastores e os berros que livremente eles dirigiam aos rebanhos. Ouviu as preces e as pragas dos roçadores de lenhas e matos para estrumes que frequentemente em seu redor faziam vida. Ouviu os ensejos dos feirantes que, anualmente, se juntavam na FEIRA DA CRUZ DO ROSSÃO, todos eles esperançados de bem venderem e bem comprarem o que tinham a mais e o que lhes fazia falta. Ouviu e viu a passada larga de caçadores de perdizes a bater terreno e a paciência do caçador de coelho, parado em cima de qualquer montículo, à espera do laparoto receber tiro, saído da toca subterrânea ou da cama camuflada por tojo, carqueja ou sargaço. Ouviu o canto da cotovia e viu o seu voo encastelado, sempre a subir, até perder-se no céu.

Gente da serra. Gente rija. Gente brava. Nesses tempos idos, para esta gente, a caça não era desporto nem distração. Era uma necessidade, um modo de ferrar o dente num naco de carne fresca para “desenfastiar” da carne fumada, sempre poucochinha, daí o aforismo: “foi por ser poupadinho que este meu porquinho me chegou ao entrudinho”.

Gente rija. Gente brava. Gente da serra em cujas veias corre sangue Celta e de outras tribos que a povoaram ou cirandaram por ela. E se ao historiador não cabe fazer o teste sanguíneo dos nativos atuais para identificar o seu ADN físico,  é do seu ofício encontrar “elos” culturais de ligação entre os atuais habitantes e os seus antepassados. E por cá passaram Iberos, Celtas, Celtiberos, Lusitanos, Romanos, Vândalos, Suevos, Alanos, Visigodos e Mouros. Ena, tantos, tudo estudado na Escola Primária.

O AZEVINHO é um desses elos. É ele que nos liga, claramente, aos Celtas e Romanos, segundo estudos feitos e publicados por gente da especialidade.

ABÍLIO1 - CópiaPlanta decorativa e de folha perene, agressiva, os Celtas usavam-na como SIMBOLO DA IMORTALIDADE. Os Romanos seguiram essas crenças nas suas festas do solstício de inverno, as Saturnais, festejando os tempos da "Idade de Ouro", o tempo de abundância, da paz e de igualdade. Era uma das festividades mais populares em Roma ligada à agricultura. E não falta quem as associe ao Carnaval atual, dada a diluição das regras sociais vigentes durante essas festividades, tempo em que os escravos assumiam o estatuto de gente.

Os cristãos, herdaram tudo isto, passaram a usar o AZEVINHO no natal, festa familiar onde, simbolicamente, as bagas vermelhas significam «o sangue de Cristo» e as folhas agressivas a “coroa de espinhos”. E também se trocam prendas, como nas Saturnais Romanas. Mas que andanças! Mas que caminhos civilizacionais, desde os Celtas às Saturnais e Natais.

As comunidades ditas “pagãs” viam no AZEVINHO um “espanta espíritos” e eu bem me lembro de se espetarem ramos de AMIEIRO nas portas e janelas de habitação, em tempos de trovoada. Cria-se que, com esses ramos e a ajuda da Santa Bárbara, a casa livre ficava de “raios e coriscos”. E eu bem me lembro da oração que a minha mãe rezava todos os dias à noite “contra os espíritos malignos que andam no mundo para perdição das almas”.

Que caminhada. Que tempo decorreu do ramo de azevinho “espanta-espíritos” nas comunidades pagãs, às palavras cristãs ditas pela minha mãe em oração, a surtirem o mesmo efeito. Que tempo vai das “liberdades” vividas nas saturnais romanas, pagãs, entre patrícios e escravos e as “liberdades” cristãs nas noites de São João, noite de igualdade e de tropelias feitas à margem das regras sociais vigentes.

É isso. O historiador não faz prova de transportar consigo o ADN físico desses nossos antepassados, mas deixa aqui "elos" bastantes do ADN cultural que determinam o nosso pensar e procedimentos quotidianos. Pois. Quem se der ao cuidado de ver girar (ou fazer girar) a roda da HISTÓRIA, mesmo sem ser oleiro, logo verá que nela se molda, girando, a criatura que do barro se vai levantando.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.