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sexta, 23 outubro 2020 14:31

CUJÓ - GENTE DA TERRA

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GENTE DA TERRA

Na minha crónica anterior relativa aos meus ascendentes remotos e próximos por parte da minha mãe - OS BERNARDOS - veio a talhe de foice falar do tio FORTUNATO DOS SANTOS, um vizinho meu, e, de caminho, aludi às aventuras que ele me contava enquanto soldado incorporado nas tropas portuguesas que participaram na PRIMEIRA GRANDE GUERRA.

rol - Cópia

No CADERNO ELEITORAL DE 1970, a que também aludi, consta o seu nome dando-lhe 74 anos de idade. E com 77 anos consta também  ZEFERINO PEREIRA VAZ, outro “quijôto” que, como ele, também andou por “franças e araganças” de armas nas mãos. E não foram só estes. Cujó forneceu à GUERRA de “14-18” outros cidadãos mais, cuja identificação deixo ao cuidado dos meus ilustres conterrâneos, a fim de serem incluídos num “MEMORIAL DOS COMBATENTES” e não apenas aqueles que faleceram na GUERRA DO ULTRAMAR.

Todos eles, os que, de armas na mão, obrigados ou por vontade, deram o “coiro” pela PÁTRIA, os que faleceram na guerra e os que voltaram, os que sentiram na pele o formigueiro do COMBATE, travado, embora, em tempos diferentes, merecem ser lembrados e respeitados. Todos eles, os que, descalços ou de tamancos, pisaram o chão de CUJÓ, esse chão que a juventude actual da terra, nem cheira, nem imagina. Por isso investigo e escrevo HISTÓRIA, a «ciência» formativa em que me «formei».

Nesse CADERNO também está escrito a lápis um rol de um peditório, com o nome dos moradores e a sua colaboração, sem qualquer explicação e destino dos dinheiro e/ou produto dado em espécie, conforme as posses.

Para essa mesma juventude de hoje cotejar «o viver» desses tempos com «o viver» dos tempos que vivem, dei-me ao trabalho de exemplificar com a foto acima e ao lado.

Mas esse não é o enfoque deste meu escrito. A narrativa se encarregará de deixar aos meus estimados e interessados leitores a descoberta dos elos que entrelaçam os NOMES, AS PESSOAS E AS CASAS.

Fonte Simplicio 2O07 - CópiaPois é. Se bem se lembram, na minha crónica anterior, remetendo para o meu livro “Cujó, Uma Terra de Riba-Paiva”, afirmei que a “evolução urbana” da aldeia se teria desenvolvido em torno das FONTES, ou nas suas proximidades, dando lugar a NÚCLEOS separados, cujos espaços de permeio iam sendo ocupados, conforme as necessidades sentidas, mas inteligentemente  deixando livres para canastros, lenhas e eiras os espaços que chegaram até nós.

É só fotografá-los e mantê-los como documentos históricos, como pergaminhos que nos atestam, sem letras, não só a forma de vida dos nossos antepassados, mas também os caminhos de “evolução urbana” da povoação. 

Nesse livro deixei documentado todo esse meu labor de historiador que, além de elencar e descrever factos, procura conpreendê-los e justificá-los.

É sabido que CUJÓ se tornou uma aldeia conhecida nas redondezas como sendo terra de MESTRES-PEDREIROS. E não era só fama. Nessa arte me iniciei também com eles, em PEIXENINHO (de que já fiz vídeo) antes de me iniciar na ARTE DAS LETRAS.

PORTA LARGAE vem a propósito referir que num trabalho académico que fiz na UNIVERSIDADE DE LOURENÇO MARQUES com o título “O ESPAÇO NA ARQUITECTURA” inclui a técnica usada pelos PEDREIROS DE CUJÓ e a sabedoria empírica inerente, colocadas nas “torças” (noutras terras padieiras) de portas largas. Mestre que soubesse do ofício, tendo presente que o peso das pedras assentes sobre essas torças as partiriam pelo meio, jamais cometeria o erro de não aliviar esse peso através do processo aque aqui documento em fotografia, ao lado. Duas pedras trabalhadas, assentes lateralmente, um fecho ao centro, como nos arcos de arquitetura evoluída, um vazio a separar as peças acasaladas pelo fecho e, fosse qual fosse o pesso que viesse de cima, a torça aliviada estava dele e duraria uma eternidade.

Ora, se assim era, e se tal sabiam estes MESTRES-PEDREIROS, cujos exemplos não faltam nas obras que construíram, como se justifica o PRMITIVISMO demonstrado na fachada da casa que escolhi para mostrar que, a par das obras levantadas com pedras fatiadas dos penedos, trabalhadas a régua, esquadro, pico e ponteiro, também havia construções, muros divisórios de propiedade, muros de socalco e até HABITAÇÕES onde parece não ter havido pico e ponteiro a morder as pedras assentes.

ESTEVESOra ponham os olhos nas pedras lavradas da FONTE DO TOJAL (que deixei em cima)  e não muito longe dela a moradia, cuja fachada, atesta aquilo que digo. Pedra sobre pedra, ela pode muito bem ser uma das primitivas habitações da aldeia e integrar um dos núcleos evolutivos de aue falei. Mas, seja ou não, ela espelha humildade, habitáculo de quem se dá por feliz não dormir ao luar, abrigado das chuvas e dos frios. Gente rija.

Não curei de saber, nem isso me seria possível, quem foram os seus primeiros habitantes. Nem vou dizer quem eram os que ali residiam no meu tempo de juventude. Esses, e os actuais, ficam ao cuidado dos curiosos e estudiosos que perdem ou ganham algum do seu tempo a pensar na vida da NOSSA TERRA E DAS NOSSAS GENTES.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.