Trilhos Serranos

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sábado, 03 outubro 2020 14:28

CONFISSÃO DE UM PAGÃO

Escrito por 

O AZEVINHO

 

Decreto-Lei n.º 423/89, de 4 de Dezembro - proíbe, em todo o território do continente, o arranque, o corte total ou parcial, o transporte e a venda de azevinho espontâneo, Ilex aquifolium L.

No concelho de Castro Daire, quem roda na estrada 321 em direção a Cinfães, se, logo depois da aldeia de Picão, virar à direita, em direção à CRUZ DO ROSSÃO, pouco antes de chegar a essa mítica e histórica ermida, vê, à sua esquerda, um destacado afloramento granítico fraturado em fatias disformes pelos guilhos e marretas do Tempo, esse artífice invisível que compete com os mais hábeis mestres na arte de partir pedra. Eu, por exemplo, sempre a partir pedra.

 

PRIMEIRA PARTE

MONTEMURO-AzevinhoFraturado assim, é um autêntico morouço de penedos insolitamente coroado por um verdejante e solitário AZEVINHO que, na sua luta pela sobrevivência, contra os ventos, frios, neves, codos de inverno e dos calores da tineira do verão, vivendo as amplitudes térmicas da região, encontrou, nas talisgas desse rochedo, força e vida secular, assumindo laivos de imortalidade.

Antigamente a ligação de Picão à Cruz do Rossão, era feita por um caminho carreteiro que, saído da aldeia, passava pela Fonte da Pedra, assim designada por ali existir uma penedo fraturado que exibia, nas suas faces, algumas gravuras naturais, disformes, errada e temporariamente consideradas gravuras humanas, por académicos menos atentos à morfologia das rochas em redor.

Foi sol de pouca dura. Conhecedor do sítio, atento ao que por cá se vai fazendo e dizendo sobre a HISTÓRIA LOCAL, foi-me mais fácil desfazer esse “erro académico” (em texto e em vídeo) do que despertar os nossos autarcas, Presidentes de Junta, de Câmara e outros, para a humilhante vassalagem que prestam a troco de um «prato de lentilhas», baixando a cerviz aos detentores dos novos domínios senhoriais medievais - os SENHORES DAS EÓLICAS - que, em pleno século XXI, vedam o território, com cancelas ou sem elas, impedindo a livre circulação pela serra que de lés-a-lés sempre  foi usufruída pelos naturais ou forasteiros, turistas ou estudiosos.

 

SEGUNDA PARTE

2-Azevinho-Serra-1Dito isto, saiba-se que muito antes de existirem por ali os geradores eólicos que vieram a povoar a serra e proibir que nela se circule livremente, já ele, aquele morouço de penedos coroado pelo AZEVINHO, se levantava do solo e marcava a diferença entre os demais afloramentos rochosos e arbustos nativos em redor. Parecia e parece  um eremita solitário a pregar no deserto.

E fosse pela sua solidão, fosse pelo atrevimento de ter assentado arraias em sítio tão agreste, ou fosse ainda pelo seu ser em si, essa planta, uma espécie botânica com iluminados e sacralizados pergaminhos históricos, sempre exerceu sobre mim um fascínio inexplicável.

Sempre que por ali andava sozinho ou em passeio com a minha mulher e familiares, era mais certo ir empoleirar-me naquele morouço de penedos, a fazer-lhe companhia e, com ele, ver a aldeia da Carvalhosa e os horizontes terráqueos e celestes que dali se descortinam, do que ir fazer novena em torno da ermida da CRUZ DO ROSSÃO. Vá lá saber-se porquê.

Por ali passei muitas vezes ao longo dos anos que levo de vida e se nem sempre lá pus os pés, sempre lá pus a vista. Lá tirei fotografias com a família, documentos que testemunham o que penso e digo.

4-ELDASítio arejado e de largos horizontes, dele beneficiaram, seguramente, os pastores que por ali apascentavam os seus gados, em tempos idos. Má sorte a sua. Onde há pastores há gado e onde há gado há cabras, esses ruminantes lambisqueiros que vencem todos os obstáculos para darem ao dente. E não enjeitam a silva, o tojo e mais arbustos de morfologia agressiva, por forma a afastarem os predadores. Não senhor, a cabra, um dos primeiros quadrúpedes a serem domesticados pelo homem (c. 7000 a.C.) trepava pelos penedos fora e toca a mordiscar as folhinhas verdes, por mais picos que tivessem. E assim podado, à dentada, o AZEVINHO - é dele que falo - , lá se ia enraizando, fortificando e ramificando nas talisgas dos penedos onde não chegava a tesoura caprina. E, com tal vizinhança, ainda que a sua espécie lhe permitisse atingir 12 metros de altura e longevidade de 300 anos, podado assim diariamente, convencido estava de não passar de arbusto e de ornamental ramalhete verde-rubro, arredondado a embelezar aquele morouço de penedos que lhe serviam de habitáculo e de abrigo.

E nessa sua condição, de eremita paciente e sábio, ouviu as preces e as pragas dos roçadores de lenhas e matos para estrumes que frequentemente, à semelhança dos pastores, em seu redor faziam vida. Ouviu os ensejos dos feirantes que, anualmente, se juntavam na FEIRA DA CRUZ DO ROSSÃO, todos eles esperançados de bem venderem e bem comprarem o que tinham a mais e o que necessitavam. Assistiu de perto à pancadaria travada entre os frequentadores da feira que ruminavam rixas de toda a espécie durante o ano inteiro e aproveitavam aquele dia para, à cacetada, fazerem o “ajuste de contas”. Ouviu e viu a passada larga de caçadores de perdizes a bater terreno e a paciência do caçador de coelho, parado em cima de qualquer coisa, à espera do laparoto receber tiro, saído da toca subterrânea ou da cama camuflada por tojo, carqueja ou sargaço.

TERCEIRA PARTE

E passaram séculos. Ele vigilante, entalado nas talisgas do rochedo fraturado, a enfrentar as marés do tempo, e eles, cabritos, cabras, romeiros, feirantes, caceteiros, caçadores, todos mortos. Os Celtas usavam-no como símbolo da IMORTALIDADE. E imortal parece, efetivamente, ser. 

AZEVINHO-FRUTOEu sou um daqueles mortais que ele viu e ouviu. Que sentiu o palpitar do meu coração e o calor dos meus afetos. Algo de Celta prevalece em mim. Gosto do monte, da serra e do vale. Gosto da Natureza. Deslumbro-me com os contrastes do relevo e das cores, da variedade de plantas e arbustos. Cada um, uma divindade. Para mim, é como se atrás de cada penedo solitário, de mil segredos depositário, porque não dizê-lo? estivesse sempre uma maga celta, uma virgem pronta a deixar de sê-lo, exalando o inebriante perfume do rosmaninho, da maia, do feno de todo o ambiente envolvente. É o mundo. É a gente.

Em cada farrapo de nuvem fugidio a beijar as cristas das serras do Montemuro e da Nave, eu vejo a Fada Morigan, tempo distante, a velar pela fecundidade do mundo vegetal e animal de que faço parte integrante, no qual me passeio e me divirto, choro e rio.

Andar pela serra à caça acompanhado ou em passeio solitário, desperta em mim o instinto selvagem pré-histórico, aquilo que a civilização não apagou na minha relação com a terra e com os animais, o elo que me prende aos mais longínquos antepassados, aos ancestrais modos de sobrevivência e relações humanas na sua relação  com a natureza.

Eu e os celtas. Os celtas e eu. Eu, o azevinho e os celtas.

FOLHA AFRESSIVAPlanta decorativa e de folha perene, agressiva, os Celtas usavam-na como símbolo de imortalidade. Os romanos seguiram essas crenças nas suas festas do solstício de inverno, as Saturnálias, festejando os tempos da "Idade de Ouro", o tempo de abundância e de igualdade. Era uma das festividades mais populares em Roma ligada à agricultura. Afinal, a atividade em que me iniciei em Cujó e até aos 18 anos pratiquei, esse meio de subsistência para nós camponeses, pastores e lavradores.

Os cristãos, herdaram tudo isto, passaram a usar o AZEVINHO no natal, festa familiar onde, simbolicamente, as bagas vermelhas significam «o sangue de Cristo» e as folhas agressivas a “coroa de espinhos”. E também se trocam prendas. Mas que andanças! Mas que caminhos civilizacionais, desde os Celtas às Saturnais e Natais.

Afinal, o fascínio inexplicável que azevinho exerce em mim, não é tão inexplicável assim. Filho da cultura e da civilização, ele faz renascer em mim o cristão e o pagão, os tempos presentes e os tempos que lá vão.

E esse arbusto de poderes sobrenaturais, cuja apreciação sagrada remonta às civilizações pagãs pré-romanas, que viam nele o “espanta espíritos” também os Romanos o tinham por símbolo de saúde, de paz, de felicidade e de proteção. Assim o atestam as Saturnálias, festividade realizada entre 17 e 23 de dezembro, onde se trocavam presentes. Isso mesmo, tal qual se faz entre os cristãos na FESTA DO NATAL. É Isso, para quem não acredita na HISTÓRIA, eis a força dela, eis a roda do oleiro a moldar a criatura que, rodando, do barro se vai levantando.

EPÍLOGO

ABÍLIO fALA-1Quando damos voz à SERRA DO MONTEMURO. Quando falamos de pastores, agricultores, caçadores, romeiros, animais, feirantes e gente mais. Quando damos alma, vida e cor a tudo o que nos rodeia, a tudo o que é espontaneamente nosso, eia,  a câmara de filmar se encarrega de mostrar, em SILHUETA, o ROSTO HUMANO que perto deste AZEVINHO descansa e passa despercebido ao olho vivo. Único, exclusivo, protegido por lei, condenado à extinção pela natalícia avidez humana, este “ex-libris” montemurano tem agora não só a proteção legal, mas também a garantia de ver afastados de si os ruminantes - as cabras - que outrora o não deixavam crescer e tomar corpo de árvore. Chegou o seu tempo. Protegido por lei  e livre desses predadores e podadores caprinos - a folclórica transumância, invenção municipal recente jamais lhe fará mossa - o ramalhete verde-rubro que coroou aquele morouço de penedos começa a levantar a crista e a querer ser gente v.g. a libertar-se da vassalagem a que, durante séculos, noite e dia, estava submetido por tal tirania. Enfim, começa a assumir o estatuto da atribuída IMORTALIDADE e mais seria se, nestes tempos que tudo elevam a PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE, houvesse por perto gente de cultura e sensibilidade que conhecesse a orografia, a geografia, a botânica e a HISTÓRIA LOCAL, enfim que atendessem à sua resiliência num habitat tão adverso, que respeitassem a sacralidade que ele representou a na histórica SAGA HUMANA, desde os tempos pagãos, Celtas, Romanos e Cristãos. Que simplesmente olhassem à sua SINGULARIDADE. 



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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.