Trilhos Serranos

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domingo, 12 abril 2020 13:03

ODE À CIÊNCIA

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PANDEMIA (9)

Em “setenta” fiz uma ode à CIÊNCIA. E neste tempo de clausura (século XXI) que ninguém aguenta em consciência por ser anti natura, num só instante volto ao passado distante para cantá-la novamente.

Eu era ainda estudante e glorificava a fulgurante viagem à Lua e o conhecimento do universo. E digo, então, em prosa e verso, numa linguagem crua:

 “O mundo não é mais a terra dos HebreusLUA

A Europa, a África, a  América, a Ásia,

A Oceânia, a Antártida.

A Terra torna-se Lua e a noite torna-se dia.

O bobo não acredita

Mas a bola que à volta do Sol gravita

É só um pontinho igual

A tantos outros dispersos

Na gramática sideral.

Gramática sem a qual,

Enfim,

O livro do Universo

Por vasto que seja o saber

Jamais se poderá ler

Mesmo sabendo grego e latim”.

Assim, eu glorificava a ciência e a inteligência humanas metidas nas sondas e foguetões a caminho do desconhecido, cientes que longe ou perto estava um livro aberto à espera de ser lido.

ELDAAinda não havia nascido a minha sobrinha Elda Maria que médica a ser viria em terras de Sua Majestade, a Rainha da Inglaterra, no tempo de um coroado vírus malfadado estabelecer o seu reino, o seu império no planeta Terra.

E ela, a minha sobrinha, médica de profissão, nas terras da rainha, depois de ter sido em Portugal, faz o que pode e sabe contra o mal que virou pandemia. Ela, aquela menina, que em pequenina acariciei ao colo, cresceu e hoje com os seus pares (tantos!) nos fatos de astronautas (esses heróis dos meus encantos) combatem o valentão pequenino que, sentado a mesa lauta, trinca e tranca velho e menino, indiferente aos lutos e prantos.

Por agora a ciência “anda à nora”. E ele, o traste, na humanidade faz desbaste, rente, sem remédio que o mate. E nesta sua avidez, sem fronteiras nem meta, ferra a sua dentadura e se empanturra no planeta inteiro, fugindo inteligentemente à CIÊNCIA que eu lampeiro canto.

VIRUS-2Entretanto (o meu perdão. Nesta sua matança ele tem um lado simpático, a meu ver. Indiferente ao luto e à dor, sem olhar ao estatuto social do poluidor, ele comeu a poluição, limpou a atmosfera, pôs fim ao consumismo exacerbado, colocou o dedo na ferida do ser pensante, na valentia e no medo, na forma desregrada de estar de governantes e governados. E deu descanso aos sensores dos sismógrafos dispersos pelo mundo. Os gráficos de “sobe e desce” de “vai e vem” nervosos e crispados a tremer como corda de guitarra,  a anunciar tremores de terra, são a marca de uma nova ERA, uma linha reta sem sinais da algazarra e da farra que o mundo era. Enfim, acordou a governança. E por todos os lados, na sua andança, desautorizou o poder dos políticos, dos chefes religiosos, dos milagreiros e dos seus mensageiros. Travou romarias e romeiros e, sem lérias, pôs aos aviões em terra, acabou com férias e viagens a feiras importadoras do bom e do mau. Deixou as estradas vazias. Reformulou indústrias. Pôs produtos novos no mercado. Espevitou o faro dos virologistas em busca de uma vacina. Em tudo fez tábua rasa, fechou toda a gente em casa, dia após dia. Parou o mundo, acabou com a rebaldaria do consumo desenfreado, lixo por todo o lado, pôs termo ao hábito do «usa e deita fora». Enfim deu início a uma NOVA ERA. E negá-lo não pode quem viu, viveu e lide com tudo isto. Cá para mim, digo, o marco cronológico de Antes de Cristo (A.C.) deixou de ter sentido. E igual valor as iniciais A.D. (Ano Domini, Ano do Senhor). Agora, cronologicamente, será A.C. e D.C v.g. COVID-19, somente.

Glutão, o pimpão, coroa de rei, procura os manjares nos lares cheios de gerontes, daqueles que por aldeias, vilas, cidades e montes consumiram a mocidade e neles buscam o fim da vida com alguma dignidade. Pois. Só que:

 “Ali fechadas, onde o instinto da liberdade inscrito no código genético de todo o ser vivente, acicatado pelos anos, quantas vezes assume foros de revolta, pois em cada residente, curvado, derreado pelos invernos e tratos, existe o selvagem "homo eretus" das florestas. Existe o "homo sapiens" pronto a escapar-se na primeira oportunidade e a retomar a primitiva liberdade perdida. Só que, à vista destes sinais, detetadas tais intenções pelo caçador ou pelo cabo de ordens de serviço, as portas do covil são fechadas a sete chaves e, não haja ilusões, os soporíferos são misericordiosamente diluídos nas refeições. Depois a colmeia fica em paz. Não se ouve um zumbido de abelha. As abelhas em zombies se tornam e deambulam pelos espaços livres, pelos favos abertos, olhares vagos, vítreos, perdidos em alvos incertos. Seres sonâmbulos não conhecem ninguém, nem por alguém são conhecidas. Depois, para sossego e conforto dos demais residentes, se necessário for, as presas rebeldes são postas em cadeirões e sofás, onde, sentadas, num estado dormente por força dos fármacos, a cabecear no vazio, "sim, senhor...sim, senhor...sim, senhor"... gozam o único movimento que lhes resta dos lestos gestos do ancestral "homo habilis". É isso. Estes prisioneiros, frutos que são do avançado estádIo civilizacional da humanidade, nenhum deles se dá conta do tempo e do espaço em que adormece para sempre. Um número que se risca da estatística dos vivos. Uma vaga em aberto. É o viver e o morrer na civilizada comunidade urbana do século XXI, rodeada, não por lobos, mas por profissionais domesticados à feição da sociedade criada. Enfim, um aspeto apenas do preço das políticas levadas a cabo, ao longo da história, pelo "homo demens", pelo "homo degradandis". O responsável pela existência dos pequenos, médios e grandes aglomerados populacionais, onde a caça é outra. O cidadão que legisla sobre a organização e administração do território, inclusive venatório, sem distinguir um gaio de uma poupa. O "homo urbanus" que, literato ou não, considera o "homo rusticus" provinciano e primitivo só porque este, a viva voz ou em letra redonda (em vídeo, revistas, jornais, livros e Facebook) alardeia o seu apego à natureza e defende uma relação equilibrada e sadia entre TERRA GENTE e ANIMAIS”. 

HIPITAL-3Esperem, que há mais. Para não haver enganos, saibam todos que o texto acima, em itálico, foi escrito e publicado há cinco anos, em livro. Nessa altura, se poucos humanos o leram, não passou despercebido ao CORONA que, fazendo pela sua vida, lampejou em cada casa de recolhimento, hospital,  Lar e mais sítios de ajuntamentos, manjar sobejo, servindo-se das visitas, do carinho, do abraço e do beijo.

Noite e dia, faz neles uma razia, sem clemência. Por isso eu canto agora a MEDICINA CIÊNCIA e a reverência ao pelotão da ‘linha da frente” e da «retaguarda». Filho, pai e mãe, toda a gente que nos laboratórios, hospitais ou em casa, a cada instante, onde quer que seja, em prol do semelhante enfrenta e combate os mistérios ocultados pelo imperador que, na sua tenda, muito sociável (gosta muito de ajuntamentos), insaciável por matança, mais e mais almeja.

Mas, eu ciente estou de que ele vai perder. Pode entretanto comer muita gente, a mim incluído. Mas, antes de eu ter ido aqui deixo já uma certeza: não há impérios eternos, nem eternos mistérios. Nem coisa diversa é eu dizer que no viver e no morrer nunca gostei de impérios, nem de mistérios. E que a relação do Homem-natureza nem sempre foi uma relação de amor. Se, por ora, o imperador e a sua escolta levam a melhor, a CIÊNCIA dá-lhe a volta não tarda e “vice-versa”.

Mais nada. Mas apesar do luto e da dor que deu, eu anseio que tenha valido a lição dada à humanidade por este imperador, coroado, mau e feio, mesmo que democrata. Inteligente, pequenino, malfazejo, assassino de tanta gente, graúda e miúda, segundo ouço e vejo, vale-se de não ser visto a olho nu. Pois se fosse, eu, com as palavras em fio, mandava-o levar no cu, antes dele me tirar o pio.

Abílio/12/04/2020

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.