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quarta, 30 outubro 2019 15:54

REGIONALIZAÇÃO/DESCENTRALIZAÇÃO

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REGIONALIZAÇÃO

Nesta minha postura de académico rural e rústico, tenho quilómetros de escrita a defender a dama que dá pelo nome, REGIONALIZAÇÃO, DESCENTRALIZAÇÃO, neste país atacado, há séculos, pelo CENTRALISMO político, administrativo e cultural.

Fi-lo por convicção e estudo, cansado de ver o Portugal serrano entornar-se continuadamente para o mar, onde os conquistadores, povoadores e lavradores montanheses de outrora, à falta de qualidade de vida nas suas terras natais, inteligentemente procuraram na migração e em terra alheia a realização dos anseios que tolhidos tinham se se acomodassem ao sítio onde vieram ao mundo.

1.PISARIA

Passaram anos. E os nossos políticos e responsáveis pela governança do país, em tempos de Monarquia ou de República, muitos dos quais professores e educadores, com os mapas de Portugal nos seus gabinetes e secretárias, mapas político-administrativos, hidrográficos, orográficos, demográficos, económicos, mais não viam do que papel ilustrado, alheios e desinteressados na DESERTIFICAÇÃO INTERIOR, ultimamente muito apregoada, sobretudo depois dos fogos que deixaram marca HUMANA, em 2017 e 2018.

E vejam só. Eu que me postei a linha da frente dessa batalha, entrei ultimamente numa fase de reflexão e recuo. É que, ao constatar que, em pouco mais de 30 anos, o «Princípio de Peter» foi levado à prática nas nossas instituições, as mais delas geridas agora por oportunistas e incompetentes, mesmo que as suas lideranças e chefias se devam aos processos democráticos, temo que, pelo mesmo processo, feita que seja essa grande reforma POLÍTICO-ADMINISTRATIVA, as regiões venham a ter o seu destino entregue a gente de tal quilate.

3-PISARIAMau grado isso e face a este meu «estado de alma reflexivo», ainda vou sendo surpreendido pelas pequenas/grandes coisas que por cá se vão fazendo em defesa deste INTERIOR ESQUECIDO, em defesa e promoção dos produtos regionais e de uma identificação muito nossa.

E para falar disto nada melhor do que aproveitar o almoço e falar do prato escolhido e servido: “massa à lavrador”. Desta vez foi no “RESTAURANTE PIZZARIA ROCHA”, em Castro Daire, acompanhado de uma garrafinha de “REBELO GOUVEIA” da Adega Lamivinhos, em cujo rótulo identificador da origem e engarrafamento, foi pespegado, no canto superior, um SELO REDONDO, tipo BOTÃO, onde se lê “VINHO SELECIONADO PARA O RESTAURANTE PIZZARIA ROCHA”.

Saboreei o prato e degustei o vinho com muito gosto. Ambos me robusteceram o corpo e a mente. Pela primeira vez vi na minha mesa de refeição algo a assumir a sua IDENTIDADE REGIONAL de vizinhança - o vinho - e, cumulativamente, associar ao seu consumo e distribuição o “RESTAURANTE PIZZARIA ROCHA” que periodicamente frequenta, a fim de manter de pé o esqueleto com que vim ao mundo.

O prato “MASSA à LAVRADOR” estava CINCO ESTRELAS. O vinho “REBELO GOUVEIA” mereceu-me a mesma classificação. Mas apesar disso, e porque ainda não me envergonho de ser de CASTRO DAIRE (apesar de às vezes ter razões para isso), tenho de ser mais somítico no que respeita ao BOTÃO pespegado no rótulo da garrafa. Ali, onde se diz tratar-se de “VINHO SELECIONADO PARA O RESTAURANTE PIZZARIA ROCHA”, falta a palavra “CASTRO DAIRE”. Não se perdia nada se lá estivesse. A bem da Adega e do Restaurante seu cliente. Eu ter-me-ia levantado da mesa com um outro paladar «regionalista», ou, vá lá «bairrista».

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.