Trilhos Serranos

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segunda, 28 outubro 2019 14:14

NA ESFERA DOS ESTUDOS

Escrito por 

«EXTERNATO MARQUES AGOSTINHO» EM L. MARQUES

No texto que publiquei, há anos, relativo ao MANEL DA CAPUCHA, aquele protagonista andarilho e pedinte que corria feiras , romarias e povoados inteiros em redor das serras do Montemuro e da Nave, deixei clara a intenção de mostrar aos meus alunos a relação existente entre a LITERARURA e a VIDA, a partir de um conto da Sofia. Esse texto mantem-se alojado neste meu site a as cerca de DEZASSEIS MIL LEITURAS que dele foram feitas, até à presente data, são a prova da consecução dos objectivos por mim delineados.

 

1-MARQUES - CópiaE isso não se deveu a um capricho meu de docente, nascido em mim espontaneamente como na natureza nascem os lírios do campo ou as ervas daninhas. Deveu-se sim, à pretensão de exercer o melhor possível a profissão que abracei e de transmitir aos meus alunos os saberes que a mim me foram transmitidos pelos mestres e pedagogos que tive enquanto aluno que fui num dos Estabelecimentos de Ensino muito credenciado em toda a cidade de Lourenço Marques. Aprender o ensinado e aplicar conhecimentos velhos a situações novas.

E vem isto à colação tão só porque, passeando-me, ocasionalmente (consoante as necessidades de pesquisa)  pelas estantes da minha biblioteca, esbarrei com dois cadernos de APONTAMENTOS que me transportaram, num ai, a quilómetros de distância. Nada menos que a Moçambique, à cidade de Lourenço Matques (hoje Maputo), mais exatamente ao estabelecimemto de ensino conhecido por EXTERNATO MARQUES AGOSTINHO. Nele fui, primeiramente aluno e, depois, logo de seguida, professor. O então DIRECTOR, cujo  nome deu ao estabelecimento, agradado com as minhas prestações de estudante, mal entrei na Universidade, logo me contratou como professor, fazendo-me, assim, colega dos antigos mestres. E quão veloz é o pensamento, senhoras e senhores!  Lembrar-me deles todos e dos colegas de carteira foi um só momento. E nele incluída  a “descolonização” que dispersou todos pelo mundo a perder de vista.

2-MARQUES - CópiaObservei a CAPA plastificada, folheei os cadernos pausadamente e apareciei a esquematização manusescrita que neles deixei dos SABERES administrados e aprendidos. Ali sim!. Ali estudava-se e aprendia-se. A prova material disso, aqui fica devidamente documentada.

Ora, como tenho gastado muito do meu tempo de vida a «escrevinhar» e a falar de livros escritos por pessoas que de mim esperam “umas palavrinhas” sobre as obras que produzem (é só navegar neste meu espaço etéreo) não resisti a fotocopiar a CAPA de um desses CADERNOS (nº 2) e algumas das suas páginas, onde se podem ler os APONTAMENTOS que me habilitaram a assumir a difícil tarefa de PROFESSOR e, cumulativamente, a de humilde lenhador na floresta das letras, aquele que, de podão em punho, se arrisca a pisar trilhos, carreiros, veredas e abrir nela -  nessa floresta -  algumas clareiras por forma a honrar e a dignificar os estabelecimentos de ensino e os professores que me honro de ter tido, sejam os liceais, sejam os universitários.

Na rosto da CAPA vemos o logotipo do ESTABELECIMENTO e constatamos que este CADERNO se destinava aos APONTAMENTOS DE PORTUGUÊS nas aulas do 7ºANO, turma “A”. A rematar o meu apelido manuscrito  “Carvalho”.

3-MARQUES - Cópia Isso mesmo. Era por este apelido que eu respomdia à chamada, lá longe, naquelas terras banhadas pelo Índico. O nome próprio - Abílio - esse só seria retomado cá, nas terras transtaganas de Castro Verde, onde assentei arraiais com o estatuto de “retornado”. Lá e aqui, no meu concelho de origem onde regressei no ano lectivo de 1983/84.

Nas páginas do “miolo” (caderno com com linhas), eis-nos localizados no século XIX debruçados sobre o ROMANTISMO, sobre a significação do termo e as características que reveste esse movimento literário.

Esquematizado em números e alíneas, só não “aprende” quem não lê, ou quem considera que expor o seu pensamento num qualquer suporte de escrita, dispensa o conhecimento da HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA e dos autores cuja obra os notabilizou nesse ramo de saber e arte. Ora veja-se e ajuíze-se.

4-MARQUES - CópiaAPONTAMENTOS manuscritos com caneta de tinta permanente, eu me espanto com a minha caligrafia. Eu me espanto por ter deixado de usar essa ferramenta de escrita e, tal como estou a fazer agora, a clicar no teclado digital do meu Ipad, e a deixar aqui escritas estas ideias, sem fazer uso de caneta, papel ou tinta.

Ao que chegou a ciência, minha gente! E quanto devemos nós a essa forma arcaica de “manuscrever” pensamentos, ideias, técnicas. Nós, os que ainda temos a capacidade de olhar para o passado e reconhcer os caminhos que andámos até aqui chegarmos.

Curiosa coisa esta. Optei por deixar aqui os APONTAMENTOS sobre o ROMANTISMO e o REALISMO, dois movimentos literários ligados à VIDA e à ARTE.

a) O PRIMEIRO, até parece que deixa este meu registo eivado de saudade. Pois seja. Quem de nós, 80 anos feitos, não se deixa enlear romantica e subjectivamente pela saudade dos tempos idos, lembranças de amigos perdidos que nossos companheiros foram nas encruzilhadas da vida?

5-MARQUES - Cópiab) O SEGUNDO, , passado esse devaneio sentimental, remete-nos para a vida real e, com os pés assentes na terra, mostra-nos que a VIDA não se fica pela LITERATURA e, de uma maneira ou de outra, tem de se enfrentar com REALISMO, tal qual é,  sob pena de sucumbirmos a depressões sucessivas, ou nos tornarmos em MORTOS-VIVOS presos a um PASSADO que PASSOU.

Assim como assim, estes CADERNOS DE APONTAMENTOS são DOCUMENTOS AUTÊNTICOS que falam de um tempo e de um ESTABELECIMENTO DE ENSINO que abriu horizontes a médicos, professores, advogados, juízes, funcionários públicos e sei lá quantos profissionais mais que, seguramente, no mundo do trabalho, se honram de ter ali estudado.

É a pensar em todos eles, conhecidoss e desconhecidos, que dedico estas minhas linhas e o “fa-sìmile” destes meus APONTAMENTOS, fazendo votos que eles sejam vistos com o ROMANTISMO e REALISMO que o “estado de alma” de cada um deles lhes permita reviver o TEMPO PASSADO ou viver o TEMPO PRESENTE, com a felicidade merecidas. Onde quer que se encontrem e quem quer que sejam.

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.