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domingo, 27 maio 2018 15:39

CASTRO DAIRE - GENTE DA TERRA XIII

Escrito por 

ORLANDO AFONSO COELHO CARDOSO


Conheci-o na PAPELARIA MONTEMURO, há muitos anos. Nem podia ser noutro sítio. Docente colocado na Escola Preparatória de Castro Daire, viciado no estudo e na leitura, mal cheguei ao burgo, procurei espaços onde houvessem livros e mais coisas para ler. Esta LIVRARIA e PAPELARIA foi um desses espaços.

 Era e é seu proprietário o senhor Orlando Cardoso, nascido em 1936 e embarcado para Angola em 1954,

ORLANDO-1donde regressou definitivamente em 1982, alguns anos depois da independência daquela ex-colónia portuguesa.

Lá, nesse território, radicou-se no Golungo Alto, dedicando-se ao comércio de café. Com ARMAZÉM e frota automóvel própria (sete/oito carros permanentes) recolhia o grão nas fazendas da redondeza, produzido por agricultores nativos e outros, vendendo “por grosso” às firmas do ramo, incluindo os exportadores com sede em Luanda.

Pessoa muito estimada na região onde dominava o MPLA, com os contratempos decorrentes de uma guerra civil travada entre angolanos, acabou por “retornar” à metrópole, como tantos outros, pois temeu vir a ser apanhado no fogo cruzado, apesar da consideração e estima que por ele tinham todos aqueles que o conheciam nas redondezas.

Lá longe, deixando Castro Daire em 1954, a bem dizer pouco mais do que menino, bem no meio do século XX, lembra, com um brilho nos olhos muito especial, as cartas que recebia da sua mãe escritas pela Dona Catarina Pitada, como veio a saber e me contou, a viva voz no vídeo que disso fiz e alojei no YouTube de que se anexa aqui o respetivo link:  https://youtu.be/Tc-OTNTYIN4.

 O analfabetismo grassava, então, na sociedade portuguesa e Castro Daire não fugia à regra. Esta senhora, discreta e sabedora do alfabeto era, seguramente, o cofre de segredos pessoais de muito gente vilã. Escrever cartas para filhos, maridos e familiares ausentes é saber dos assuntos e dos afetos que ligam destinatários e remetentes. Quem escreve cartas destas tem de merecer a confiança de quem lhe encomenda o serviço.

ORLANDO-2Catarina Pitada era pessoa de poucas posses e o seu trabalho era remunerado com víveres, roupas e quejandos. Ao ouvirmos as palavras do senhor Orlando Cardoso sobre esta senhora vemos o carinho e a admiração que ele tinha por ela. Pudera! Lá longe da sua terra, a chegada de uma carta remetida pelos pais, lá naquelas terras quentes e tropicais, era como se nela fosse lacrada uma porção de ar da serra do Montemuro, um pouco da juventude que cedo ele teve abandonar, saudades dos pais e dos amigos e procurar vida fora daqui. E “aquela letra tão bem feita” levou-o a interpelar a mãe quem tão bem escrevia. Teve resposta pronta. A Dona Catarina Pitada.

O senhor ORLANDO CARDOSO, estabelecido, assim, de novo, em Castro Daire, longe das plantações de café, em Angola, abandonado as terras quentes e esse ramo de negócio, passou a vender livros e mais artigos de papelaria. Gentil e atencioso para com os clientes e amigos, neste ano de 2018, vai mantendo aberta a porta da loja, apesar da queda verificada no comércio local e a influência que a leitura digital impôs sobre a leitura analógica.

Como homem de respeito e prestável à comunidade que é, na década de 90 do século XX, veio a integrar as listas para os órgãos sociais da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Castro Daire. Encontra-se aí comigo, que também integrei as listas, no  triénio de 1991/1993. Deixei isso referido no meu livro “Castro Daire, os Nossos Bombeiros, a Nossa Música”, um livro de 514 páginas de história, onde, como não podia deixar de ser, ficaram registadas as palavras do senhor Leonel Marques Ferreira, referindo-se à sua pessoa:

«O senhor Orlando Cardoso vai desenvolver na Associação um trabalho profícuo, pois sei do que ele é capaz e disso tenho conhecimento, aquando da sua passagem pela Câmara Municipal, como vereador. Como se constata – prossegue – não obstante cada senhor Diretor ter a sua opção político-partidária fica provado que a Direção da Associação, contrariamente ao que alguns afirmam, não pauta a sua atuação, enquanto órgão colegial e diretivo, por opções políticas, mas sim com isenção e rigor».

TRÊS AMIGOSEra verdade. O senhor Orlando tinha integrado as listas do PSD para o Executivo Municipal, mas isso não o impedia de integrar os órgãos sociais de uma prestimosa Associação, que era a dos Bombeiros Voluntários.

Aconteceu que, passado quase um trimestre após as eleições  o senhor Orlando teve de tomar uma atitude esclarecedora acerca das funções que fora chamado a exercer, através de uma pertinente e incómoda pergunta:

«O que estava ali a fazer e para que cargo tinha sido eleito. Isto porque, durante esse tempo todo, não lhe tinha passado pela mão qualquer papel ligado ao cargo de tesoureiro. Portanto de duas, uma: ou assumia o cargo «a sério» e era ele o responsável por aquele pelouro ou deixava de ser membro daquele coletivo».

Foi-lhe, então passada a pasta e a partir daí, diferentemente do que acontecia antes, ele não só apresentava em todas as reuniões um balancete do «deve» e do «haver», mas também todos os diretores tomavam conhecimento da documentação que se relacionasse com as aquisições e despesas entretanto feitas.

Um homem sério. Ambos integrámos também os órgãos sociais da RÁDIO LIMITE, por isso posso garanti-lo. Eu na função de Presidente da Assembleia Geral e ele na função de Tesoureiro da Direção. Se assim agissem todos os responsáveis pelas nossas instituições políticas e sociais, locais e nacionais, os dinheiros públicos seriam, com efeito, honestamente bem aplicados. E Castro Daire, a andar nas bocas do mundo, seria sempre por boas razões e não o contrário. É o que pretendo fazer com estas crónicas com o título GENTE DA TERRA.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.