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sexta, 25 maio 2018 11:58

CASTRO DAIRE - GENTE DA TERRA XII

Escrito por 

CARLOS AUGUSTO DUARTE PINTO

Conheci-o, há um bom par de anos, perto do Café Central, como engraxador, pronto a prestar o seu serviço a quem precisasse ou quisesse. Foram poucas as vezes que assentei a sola dos sapatos no “pousa-pés” do seu banco de trabalho, mas pela conversa entabulada com ele e pela sua idade, deu para entender que o senhor Carlos Pinto seria uma prestável fonte oral que eu devia aproveitar na investigação da história de Castro Daire antigo.

 ABEL-3 - REDVim a saber que iniciou a aprendizagem da arte de sapateiro em São João da Madeira, onde se limitou manipular e a encerar as linhas, aprendizagem que constituía o ABC de todo e qualquer menino que escolhesse ou se sentisse vocacionado para oficial ou mestre de tal arte.

Regressado à terra-mãe, pouco depois, foi nas diversas oficinas do ramo existentes em Castro Daire, que aprendeu a profissão até assentar arraiais e se reformar na oficina do senhor António Silva, sita ao lado dos Paços do Concelho, oficina atualmente propriedade do senhor Abel Ferreira, como já demonstrei numa entrevista que lhe fiz em vídeo alojado no YouTube, trabalho que, confirmei há pouco tempo, já ronda perto das QUINZE MIL VISUALIZAÇÕES. («https://youtu.be/m5DkWBnNTEs»). É obra e prova numericamente de que valeu a pena pôr no mundo o nome de CASTRO DAIRE e das GENTES DA TERRA. Fi-lo “pro bono”, sem avença com o Município, nem ao serviço de qualquer instituição que, usando dinheiros públicos, justifica a sua existência içando a bandeira do DESENVOLVIMENTO REGIONAL.

D.Lúcia-1 - RED - CópiaNesse vídeo, como neste texto, fica registado que, nos pequenos meios de província, em tempos idos, a par das farmácias, forjas de ferreiro, barbearias, oficinas de tamanqueiros, as velhas oficinas de sapateiros eram autênticas escolas de vida, de informação e de troca conhecimentos. Cada qual com a sua clientela, pessoas de estatuto social diferente. As farmácias eram pouso assíduo de médicos, juízes, oficiais de justiça e funcionários da administração. Nos outros espaços acorriam todos os que ali eram levados pela força da necessidade e profissão: lavradores para ferrar cavalos e burros, senão os tamancos calçado deles próprios que eram ferrados com chapas de ferro e com testeiras de latão. Quer dizer, por aqueles espaços e também pelas tavernas, passava a vida política e social do meio. Ali se falava do custo vida, das zaragatas, dos crimes, dos julgamentos, das sentenças, das feiras, das festas e romarias.

A atestar o que digo, na oficina do senhor Abel Ferreira, a última do género na vila de Castro Daire (que a bem dizer devia ser preservada como Museu, o alerta aqui fica para o vereador do Pelouro da Cultura) lá estão ainda os cartazes a forrar as paredes interiores da pequena sala. Destaco dois. Aquele que alude à FEIRA DE SÃO MATEUS, de Viseu, no ano de 1971, onde vemos a fotografia de LÚCIA MOREIRA, honrando, com o seu traje, formosura e juventude as GENTES DA TERRA. E também a foto de um avião numa praça rodeado mirones, relativo à SEGUNDA GRANDE GUERRA, aquela que deflagrou em 1939, exatamente no ano em que nasci.

Carlos-2 - REDZPois foi nesse espaço e neste ambiente vilão que o senhor Carlos Pinto desenvolveu o gosto pelo saber que ultrapassa as quatro paredes daquela sala.

Sabendo-me nos trilhos da investigação da HISTÓRIA LOCAL, convidou-me, um dia, ir à sua morada, com varanda virada para o “Largo Espírito Santo”, pois tinha algo para me mostrar. Acedi e verifiquei existirem numa pequena estante alguns livros de autores clássicos, nomeadamente Júlio Verne. Que os tinha lido todos. E nos seus álbuns de fotografias repousam retalhos de história local, em imagem. Foi isso que me mostrou. Uma dessas fotos reporta-se ao “ÓRFEÃO DR. CARLOS CERDEIRA” que ele integrou com muito orgulho, em tempos idos. A meu pedido, prestou-se a entoar alguns farrapos de modas cantadas que lhe ficaram na Carlos-1 - RED. - Cópiamemória. A voz não o ajudou muito, mas valeu a sua boa vontade e disponibilidade. Fiz disso vídeo (link: «https://youtu.be/BqWwFs34IR8») e, mais uma vez o nome de CASTRO DAIRE E DA SUA GENTE foram postos no mundo. Pessoa humilde, mas tão digna disso, como qualquer outra.

A rondar um século de vida, com quase 96 anos dela, lúcido, aos cuidados da família, com bengala de gastão de prata, gira ou não nas ruas de vila com a ligeireza de um pião e não passa um dia que não vá ler os jornais expostos no escaparate de PAPELARIA ESTEVES, ao lado do Restaurante Brasília. Contam-se pelos dedos da mão as pessoas que, com a sua idade, mantém o vício da leitura da imprensa diária. Surpreendi-o nesse seu cuidado. Fotografei-o desprevenido. Depois, mostrei-lhe as fotos e perguntei-lhe se podia fazer uso da sua imagem nos meus trabalhos. Que sim, senhor. Podia.

É o que estou a fazer e, desta forma, mais uma vez a colocar no mundo o nome de CASTRO DAIRE e das suas GENTES. De um homem que, tendo sido um “cirurgião de calçado” (designação irónica que me foi sugerida por um colega de ofício já falecido) gosta de ler, falar e ouvir. É um gosto ouvi-lo responder às perguntas que lhe faço todas as vezes que o encontro.

Foi através dele que consegui a foto de CARLOS EMÍLIO DE MENDONÇA OLIVA, um dos proprietários do SOLAR DOS MENDONÇAS, onde hoje funciona o CENTRO DE INTERPRETAÇÃO DO MONTEMURO E PAIVA. Seu padrinho de casamento, consta num dos álbuns que guarda com muita estima e foi de lá que eu a copiei. É aquela que ilustra grande parte da série de crónicas que publiquei com o título em epígrafe.

Abílio/maio/2018

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.