Trilhos Serranos

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quarta, 23 agosto 2017 14:24

CASTRO DAIRE - GENTE DA TERRA (cc)

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HISTÓRIA VIVA

No último parágrafo da minha crónica anterior, relativa ao medalhão com a efígie do Padre Jesuíta Sebastião Vieira, da autoria do professor José Luís Fernandes Loureiro, de Castro Daire, informei que a ave a esvoaçar sobre a figura era um grou, «ave que, nos países orientais,  carrega em si algo de mágico e místico, de esperança e de fidelidade, de especial beleza a inundar todo o meio envolvente. Andou bem, pois, o artista na escolha que fez, materializando em bronze, o voo de todos estes conceitos».

 

MEDALHAREDZEstas palavras mereceram no Facebook um comentário muito simpático, por parte do meu amigo Bártolo Ferreira, natural de Mões, sublinhando que se o artista «andou bem» na materialização do voo de todos estes conceitos, ideias e valores», eu também não andei mal escrevendo a notícia, porquanto, ela não «é menos valiosa, do ponto de vista cultural, que este medalhão». De tão simpático que é, o comentário mereceu a citação acima feita e extensão gráfica às colunas do último número do jornal "Notícias de Castro Daire", página 5.

 Mas no mundo há de tudo. E se tal comentário se reveste de uma generosidade  genuína e sincera, não faltou quem, sub-repticiamente, em conversa de café, talvez fixado nos clássicos formatos circular ou oval das medalhas, me tenha bichanado, meio a sério, meio a brincar, que o medalhão, retiradas as figuras lavradas na fácies, mais parecia uma vulgar «lata de sardinha de conserva» do que a «obra de arte» que eu descrevi e divulguei.

Sem saber se o reparo visava retirar valor ao meu apontamento ou diminuir a obra em si, ripostei que sim senhor. Era evidente. E não tenho por costume negar as evidências. O formato inovador, desviando-se do clássico circulo e da clássica oval, podia chocar com ideias feitas, mas nem por isso (e até por isso), eu mantinha o juízo que expendi, valorizando a obra e o artista. 

LATA-rEDZClaro que vi no reparo feito, mais uma «provocação do que uma «má intenção», mas para evitar equívocos (mantendo a postura que tenho face qualquer obra de arte: literaturaarquiteturaescultura, etc), que é valorizar o conteúdo  em detrimento da forma, senti-me desafiado a ir falar com o artista e perguntar-lhe quais as suas fontes de inspiração. Não cheguei a fazê-lo. Era o que faltava! Refleti sobre o assunto e não tardei a navegar no oceano das ideias, das lembranças, das associações e dos estudos em busca de nexo, consciente ou inconsciente, entre as produções humanas, pois sabido é que a «inspiração» de qualquer artista, sobretudo dos mais talentosos, não está num qualquer «receituário médico», nem em qualquer «ementa» de restaurante.  

E nessa navegação (chamando a mim o disparate de procurar nexo onde nexo pode não existir) entre tantos navegadores, historiadores, poetas, escritores, soldados, vice-reis, governantes e missionários, veio à crista da onda o Padre Sebastião Vieira, que viveu e morreu no tempo da primeira «globalização»  feita pelos portugueses. Estávamos na formação e consolidação do Império Português, lá pelas Áfricas e lá pelos Orientes. E se a Conquista de Ceuta, em 1415, foi o primeiro passo desse império, o 25 de abril, de 1974, seria o último. Império começado no século XV duraria até ao século XX. Com a descolonização dar-se-ia o o retorno, em massa, dos portugueses, mas por lá ficariam, levantados ou diluídos, os nossos usos, costumes, tradições e cultura. Enfim, o nosso  património material e imaterial. 

E de tudo isso, lá nos confins do mundo, perdidas entre densas florestas, falam ainda hoje, as ruínas das nossas fortalezas, feitorias templos. E com tudo isso, lá nos confins do mundo, onde primeiro chegaram os biscoitos e o peixe seco, embalados em barricas de madeira, chegariam mais tarde, dentro de embalagens metálicas, produtos de terra e mar, entre os quais a lata de sardinha.

Aqui chegado, encontrado o elo perdido de uma corrente infinda estendida na barra cronológica da História, sem ir perguntar ao artista qual a sua fonte de inspiração, vi nexo entre a forma e o conteúdo da sua obra, do seu medalhão.  Vi nexo entre a globalização do século XV e a globalização do século XX. Vi nexo de ligação entre gentes e povos remotos. Vi nexo de empatia entre dois castrenses: um dos séculos XVI/XVII, empenhado em expandir a  e outro do século XXI, empenhado em expandir a arte. 

Mas, como se isso não chegasse, navegando eu sempre no oceano das ideias, das analogias, das lembranças e dos estudos, atento aos tempos passados e aos tempos que presentes, uma chamada telefónica, via telemóvel, interrompeu-me o pensamento. Levei a mão ao bolso e peguei num pequeno objeto, igual a tantos outros que andam por aí de mão em mão (quer de adultos, quer de jovens)  a navegarem neste outro império das comunicações à distância, ao alcance de um clic. Escusa bússola e astrolábio. A mão não precisa de apertar o remo para fazer avançar o barco, basta ser ágil com o polegar e indicador.

- Está sim, Abílio, é o próprio...e único!

IMG 1370 - CópiaO telemóvel, de marca SAMSUNG, tem o formato semelhante ao de  uma lata de sardinhas. Ei-lo chegado do oriente, dali, da Coreia, das terras vizinhas do Japão, onde Sebastião Vieira missionou e foi martirizado. Assim mesmo. Reparem na foto ao lado. E alguém se perguntou sobre a fonte que inspirou o designer deste objeto? E para quê perguntar se o importante é que o aparelho funcione e que o conteúdo incorporado desempenhe cabalmente as funções para que foi concebido? Quem pode afirmar ou negar que esse designer antes de começar a fazer, linhas, traços e curvas, se regalou com o conteúdo de uma embalagem «GENERAL», expedida, não pelo nosso D. Manuel I, «Rei da Pimenta», do século XVI, mas por «Dom Manuel, Comércio de Conservas de Peixe, Mariscos ou Similares Lda.» com sede em Matosinhos?

Pois é. Princípio do Império. Fim do Império. Globalização após globalização. Motivações comerciais,  culturais e de fé, diferentes ou semelhantes, todas elas de passo certo com os tempos e com as aspirações humanas.

 Cá por mim, mesmo de passo trocado na forma, procuro não ficar para trás e valorizar o conteúdo, o produto final da criatividade, da imaginação, o que de mágico, de místico, de esperança, de fidelidade e de beleza humanas se projeta no simples voo de um  grou nipónico de cabeça vermelha, (Grus japonensis), ou de uma cotovia-real (cotovia-montesina) também dita calhandra (Melanocorypha calandra) e também laverca, de poupa triangular... chriu...chriu...chriu, voando a pique em direção ao céu ou, curiosa e atenta, a descansar num penedo, a ver quem passa. A última que vi filmei-a pousada no «Cruzeiro do Briadoiro», em terras de Mós-Eiris. É só ver o vídeo alojado no Youtube.

O resto, dito a sério ou a brincar,  é despeito, mediocridade, incompetência ou inveja, atitudes muito próprias de quem nada faz e cujo exercício de cidadania, informação e cultura, se ficam pela preocupação do numerário que recebem ao fim do mês e do IRS que pagam ao fim do ano.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.