Trilhos Serranos

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terça, 14 maio 2024 21:31

POESIA COLORIDA

Escrito por 

POESIA A CORES

Seja verão, primavera, outono ou inverno, estaciono o carro perto do adro da Igreja e, obrigatoriamente, passo pela moradia que foi de padres, curas e abades tridentinos e secundinos. Construída em alvenaria gratítica, um quintal pegado, não há ali couves para caldo, mas há plantas de adorno entrelaçadas em torno,  com flores e cores diversas, no tempo delas, sempre belas a desafiarem poetas e pintores.

 

TORRE-2CAmante das gentes e da natureza,  não vou adiante, não passo em frente. Paro, olho, miro e, num instante, tiro a câmara de fotografia da carteira para, nesta minha atitude rotineira,  reter a beleza colorida e quente que veste aquelas paredes frias, seculares,  vencedoras de calores e de invernias (quantas já vão elas?) e admiro a arquitetura tradicional, as portas e as janelas daquela velha CASA PAROQUIAL.

Da mesma rua, há quantos anos, senhores? não é engano, já  a vi vestida e já a vi nua, conforme os gostos, saberes, sabores e vida dos habitantes e das estações do ano. E de tanto ir à missa em criança, chiça!, de tanta prática, vem-me à lembrança as perguntas que, inocentemente, um pingo de gente - talvez rapazote - fazia aos brocados de prata e ouro da dalmática vestida pelo sacerdote, a pregar resignação, humildade  e pobreza, mas a luzir riqueza, opulência e deslumbrante beleza. E eu, então, num dia, num momento, numa epifania, virei pagão, deixei de ouvir a “palavra”, deixei de ouvir o sino e passei a ver o divino em tudo o que me rodeia, em tudo o que é belo, em tudo o que é matéria, em tudo o que é ideia. E, incrédulo, com o aroma da rosa e o fedor do quelho,  cheguei a velho. 

E agora, com esta idade, paro, escuto e olho aquele entrelaçado, aquele brocado de flores e cores, ano após ano. E, coisa jamais pensada algum dia! Abandonada a antiga prática, outra epifania: sem coro clerical, ó gente, ouço, nitidamente, o gregoriano pautado por aquela dalmática natural, brocados de ouro e prata tecidos pela natureza, livremente serpenteados naqueles pedaços de penedos, sem infernos, sem céus, nem limbos,  nem medos. 

Avancei. Mas não satisfeito em levar para os meus arquivos um documento assim, com esse “look” colorido e serpenteado, repleto de cogitações, lembranças, emoções e significado, apressei-me em divulgá-lo no facebook, enrolado em versos e a desafiar os meus amigos dispersos a identificarem a casa fotografada, aquela que eu gostaria de ver pintada e, sem favor, pintaria se fosse  pintor. Decorria o ano de 2019. Foi assim: 

A FOTOGRAFIA

casaNão é a minha praia

Abusar da fotografia

Aqui, no meu mural

Inda que nele haja

Quem entre e saia.

Mas não me fica mal

Contemplar o belo

E levar esta moradia

(Olhem que beleza!)

Assim vestida

Pela natureza

Ao mundo inteiro

Até onde puder sê-lo.

Não é treta.

Se eu manejasse o pincel

Como manejo a caneta

Deitava fora o papel

E escrevia-a numa tela

Sem precisar do tinteiro,

Meu desejo primeiro

Mal pus os olhos nela.

Abílio/2019 

PINTURA-ODETE CORREIA

E com poucos  COMENTÁRIOS e LIKES se ficaram o meu texto e foto nesse ano de 2019. Mas quem nega que o mundo se move, depois de Galileu? Se eu essa casa tinha retratada e era meu gosto vê-la pintada, remeti, via Messenger, o objeto da minha vista para uma artista da paleta e da caneta, de seu nome Odete Correia. E ela, que toma assento na página “LITERATURA E POESIA” administrada pelo Professor Amadeu Carvalho Homem, eia! ali, onde se depositam e consomem saberes e emoções tantas, ali, naquela floresta de letras,  onde, de podão em punho, de quando em vez, sem grande merecimento e pouco encanto, também deixo a minha rústica pegada de tamanco,  ela, surpreendida com a beleza divinal deste pedacinho de  paraíso terreal, fez-me a surpresa de pôr em tela aquela CASA PAROQUIAL. Face ao que, muito sensibilizado, por obrigação humanista e ateia, aqui partilho a sua disposição de semear, à mão cheia, por toda a parte, sem receio,  a sua paixão, engenho e arte.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.