Trilhos Serranos

Está em... Início Crónicas ASSOMBRAÇÕES
segunda, 13 setembro 2021 16:32

ASSOMBRAÇÕES

Escrito por 

ASSOMBRAÇÕES

No longínquo dia 15 de maio de 2001, escrevi e publiquei no jornal «Notícias de Castro Daire» o saboroso texto que, revolvendo os meus arquivos, me apareceu assim, hoje mesmo, a modos que uma «assombração». E por assim ser, aqui o transcrevo na íntegra, tal e qual:

 

«NOITES TERRESTRES: O MISTÉRIO DA CASA ASSOMBRADA

JANELA-1 - CópiaO programa de Carlos Cruz “Noites Marcianas” que, ultimamente, tem preenchido os serões dos portugueses que sintonizam a SIC, programa onde têm tido assento figuras com muito tino ligadas ao mundo do sobrenatural, do além e do aquém, cada qual contando as suas estórias e/ou fazendo uso do saber esotérico que dominam graças aos estudos que fizerem nesse ramo de saber e/ou dos “dons” naturais com que nasceram, acicataram-me a contar, aqui, neste pobre mas digno jornal de província, uma estória que bem podia juntar-se às que ali tem sido reveladas. Estória autêntica, verdadeira, sem tirar nem pôr, passada comigo que julgo não ter nascido com dons especiais para ler o invisível, ouvir o inaudível, nem sou especialista em saberes ocultos, um desses especialistas que, por Portugal inteiro, mesmo sem a cumplicidade e publicidade que lhes dão os grandes órgãos de comunicação social, vão tendo clientela assegurada. Vamos a isso:

O caso foi que, nas minhas andanças pelo mundo, tive, em certa ocasião, de habitar uma casa sita na periferia de uma pequena vila rural. Depois de lá estar a morar vim a saber pela boca do anterior inquilino, um cidadão brasileiro que em Portugal procurou emprego, que essa casa tinha assombração. Fora, aliás, essa a razão por que ele deixara de morar ali. Estava cansado de ouvir as pancadas nas portas e janelas que, de noite, lhe interrompiam o sono. Era certo e sabido que, certas noites, por volta da meia noite, mais coisa menos coisa, se dava conta de uma visita inesperada, indesejada e desconhecida. E todas as vezes que tal sucedia era uma noite estragada, uma noite sem sono. Ele ficava num estado de espírito sobressaltado, de angústia, de interrogação, de cagaço. Como o facto se repetia frequentemente, deixou de dormir. Não aguentava mais. Um dia, pagou a renda do mês ...e ala para outro sítio, livre de assombrações.

Ele tinha razão. A assombração, ou lá o que era, expulsando o anterior inquilino brasileiro, manteve a ideia de me expulsar também a mim. Mas eu é que não estava pelos ajustes. A renda não era cara, a casa ficava perto do meu local de trabalho e não me agravada nada ter de procurar outra residência.

Constatado o facto resolvi enfrentar a situação. Resolvi combater esse ser invisível. Resolvi fazer-lhe uma espera. Resolvi manter-me acordado para não ser apanhado de surpresa. Usei a táctica do caçador que surpreende a peça que deseja caçar. A táctica do soldado que, de atalaia, sentidos despertos, aguarda a chegada do inimigo. E ele chegou.

Meia noite em ponto. Ao longe ouvem-se as doze badaladas do relógio da torre. E quase em simultâneo:

- Tum...trum...trumm...tum...

São pancadas na porta da entrada? Ou nas janelas dos quartos que ficam contíguos? Saio da cama. Dou um salto e especo-me na porta do quarto com um pé dentro e outro no corredor. Silêncio. Mais silêncio. E outra vez:

- Trum... tum...trum...

Dou uns passos em frente com a respiração suspensa. Colado à parede do corredor, especo-me novamente. Sem ponta de ar a entrar-me nos pulmões, aguardo pacientemente que se repitam as pancadas. E elas repetem-se:

- Trum...tum...tumm !

Mais uns passos. Encosto-me à porta de entrada. Espero novamente. Nada. A assombração, ou lá o que era, devia ter-me topado. Devia ter ido embora ou então estava a brincar comigo.

E estava eu nestas congeminações quando o trum...trum..trum se repete. Dei um salto, sobressaltado. Pronto. É naquele quarto. Entro nele de rompante. Silêncio. Quase não respiro. Não quero deixar escapar o mais pequeno ruído. Quero detectar a mais subtil vibração, localizá-la onde quer que fosse.

Mas a assombração estava disposta a castigar-me. Agia com intervalos. Curtos, mas que me pareciam intermináveis. Naqueles escassos minutos, com a introdução vivida e contada pelo brasileiro, eu vi um filme de longa metragem. Um filme que remontava aos meus tempos de criança, às estórias de bruxas, lobisomens, almas penadas, seres fantásticos notívagos que preenchiam os serões da minha aldeia alumiados pela trémula chama da candeia a petróleo que, para manter-se viva e cintilante, se agarrava com tenacidade ao pavio mal era soprada por uma suave brisa vinda sem se saber de onde. Naqueles escassos minutos passaram por mim séculos de história humana, com todas as suas grandezas e fraquezas. Calafrios. Cabelo levantado. Pele de galinha. Eu estava de pijama. Era inverno e o frio cortava como navalhas. Ao sair da cama apressadamente não calcei, sequer, os chinelos e o chão da casa, para ajudar, era de tijoleira. Tremia como varas verdes. Era do frio, ou era do medo? Uma coruja, piando na vizinhança, entrava também em cena. Outra ajuda! Mas aguentei. Desistir naquela altura é que não. As emoções que estava a viver, com arrepios, suores frios e calafrios, não me obscureceram totalmente a razão. E o iluminado verso de Camões “é fraqueza desistir de coisa começada” incitava-me a desvendar o mistério. Incitava-me a permanecer ali, hirto e firme como uma barra de ferro, dali não arredava, desse para o que desse. Atento como um coelho e quedo como um penedo, só não consegui imobilizar o queixo, cujo movimento acelerado se traduzia num matraquear de dentes, só visto e ouvido.

ALICATE-1 - CópiaE novamente:

- Ttrum...trum... trum...

Já dentro do quarto virei-me para a única janela que lá existia.. Puxei a cortina repentinamente. A janela estava fechada. De luz apagada, como sempre estivera, pronto para tudo, não arredei pé. Assombração, fantasma, demónio, espírito maligno, o que seria? Não tinha comigo nenhum crucifixo, o santo lenho, um agnus-dei, nem outra qualquer arma de combate contra esses brincalhões invisíveis que passam a vida a chatear o parceiro, que passam as noites a atenaza quem descansa. Percebi, então, como é difícil lutar contra adversários invisíveis.

-Trum...trum..trumm...

Era ali mesmo, naquela janela. Pus a mão na vidraça e apercebi-me imediatamente da folga que tinha o fecho. À força do vento ela entrava em vibração e daí o estardalhaço. Que alívio. Respirei fundo, fui buscar um alicate, fiz o ajustamento necessário na lingueta do fecho e acabou-se a festa.

Pouco tempo depois contei ao brasileiro o sucedido, mas ele não acreditou. Qual, alicate qual nada. Assombração é assombração e se eu acabei com ela era porque tinha dons sobrenaturais. Devia fazer uso deles em prol da humanidade.

- Que sim, pois tinha – respondi eu para não abalar as suas crenças tropicais.

Nunca mais pensei nisso, mas passados estes anos todos, face ao que vejo nas «Noites Marcianas» (e não só), já me passou pela cabeça seguir-lhe o conselho. Sempre ganharia mais com isso do que a escrever uns livros e uns artigos para jornais.

Estou, contudo, hesitante. Mas se me resolver a tal, inspirado no “Oráculo de Belini” até já pensei no logotipo, no título e no texto que ficariam bem na placa de bronze posta à entrada do meu consultório.

Logotipo: um alicate.

Título: Oráculo Abilini”.

Texto: “PAGANTE - ?-?-9-?-Pedro e Paulo- 9-?-?-?-?-?-Pater noster-?-?-?-?-?-9-vade retro-9-?-?-?-?-cruzes canhoto-9-?-?-?-?- ANDANTE “».

PS. O leitor não leve a sério o que acaba de ler no último parágrafo. O facto de eu andar a estudar as siglas da Ermida e a tentar decifrar o seu significado esotérico deu-me volta à mioleira. Por momentos fiquei marado. Marado de todo. Espero que isto não me volte a dar, mas se voltar, peço ao senhor diretor que, usando do bom senso, sob pena do jornal perder o crédito que granjeou junto dos seus leitores, não deixe sair a público este tipo de toleimas. Por favor, pois se assim for, a escrever somente maradices e merdices em troca mereça, “morra e pereça” o dia em que isso acontecer»

 

Ler 76 vezes
Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.