Trilhos Serranos

Está em... Início Crónicas A POMBEIRA
sexta, 17 setembro 2021 17:01

A POMBEIRA

Escrito por 

TURISMO

O primeiro contacto que tive com as “CASCATAS DA POMBEIRA”, no concelho de Castro Daire, foi através dos POSTAIS ILUSTRADOS (a preto e branco) que correram mundo, divulgando tudo o que de notável e pitoresco existia no município. Isto, graças à iniciativa de alguns comerciantes locais que, procedendo assim, levavam longe, via CTT, o nome da sua FIRMA, mas também o que de mais atrativo havia turisticamente em redor de nós, fosse património natural ou fosse património edificado.

 

fonte dos peixesDo PATRIMÓNIO NATURAL lembro dois ÍCONES impressionantes: a CARVALHA DO PRESÉPIO que desapareceu com o vendaval que ocorreu em 1987, cuja CERTIDÃO DE ÓBITO deixei na IMPRENSA LOCAL, incluindo o BOLETIM MUNICIPAL, e as CASCATAS DE POMBEIRA que, for força da mini-barragem feita a montante, no rio Vidoeiro, desviando as águas para a nini-hídrica sita junto à PONTE DA ERMIDA, perderam, definitivamente a sua IDENTIDADE, deslizante e cantante, restando apenas o “rasto físico” geológico e orográfico da sua existência, encosta abaixo.

E não têm conta as vezes que, na companhia da minha esposa, Mafalda Carvalho, nos deslocámos ali, ao topo de Lamelas e, virados para Codessais, nos postámos no enfiamento visual das CASCATAS, mirando-as de cima abaixo para, em silêncio, como se estivéssemos numa sala de cinema a céu aberto, deixarmos não só que os olhos voassem sobre o vale até uaufruirem  toda aquela beleza viva e coleante de montanha, mas também que pelos ouvidos nos entrasse a sinfonia produzida pelas águas em queda, música chegada até nós com os sons e tons diversos que resultavam das correntes de vento que, ora em sopro brusco, rápido ora lento, subindo ou descendo o vale e as encostas opostas, servia de maestro ao conserto que chegava até nós, descendo, cantante e saltitante,   encosta abaixo.

Só visto, ouvido e sentido. Mas, goste-se ou não,  esse encanto morreu definitivamente estrangulado pelas ferozes mãos do PROGRESSO.

Depois disso tudo, depois de ter essa experiência ao vivo, com o POSTAL ILUSTRADO que corria mundo, os trilhos da investigação e pesquisa conduziram-me aos CADERNOS escritos por um cidadão natural de Farejinhas que deu provas, em vida, de não só conhecer o concelho que o viu nascer, mas também divulgá-lo pelos meios que tinha ao seu dispor e alcance, seja jornais e postais.

AiresDe seu nome AIRES PINTO MARCELINO, nasceu 18 de junho de 1875, em Farejinhas e veio a falecer em 15 de janeiro de 1954.

Deixei a sua BIOGRAFIA (resumida) no meu livro «IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA EM CASTRO DAIRE-I» onde destaco as suas posições em defesa da República, nos tempos agitados que foram os da queda da Monarquia e da implantação de um novo regime político.

Escrevinhador” incansável sobre quase tudo o que de interessante, histórico e pitoresco existia adentro dos limites do concelho, algumas das vezes sem o rigor exigido pelo historiador, outras nem tanto, não se lhe pode negar o acervo de informação que nos legou e todos lhe devemos estar gratos, salvaguardados que sejam alguns exageros que ressaltam da sua prosa, levado certamente pelo exacerbado amor que votava à sua/nossa terra natal.

Já escrevi uma vez, e aqui repito, que, se ele pecava na falta de rigor quando abordava factos históricos, assim não acontecia em tudo onde ele punha os olhos. A sua retina e a descrição daquilo que via, era mais fiel do que algumas das mais sofisticadas câmaras fotográficas que hoje se encontram no mercado. Constatei isso quando descreveu a paisagem que se descortina da ERMIDA DE RODES, virado para a Várzea de Reriz e na descrição que aqui deixo manuscrita, em fotografias, das «CASCATAS DA POMBEIRA».

Devo somente dizer que alguns dos seus escritos originais chegaram ao meu «espólio» pela mão do senhor Júlio Alexandre Pinto, do senhor José Seixas e do Dr. João Duarte de Oliveira, naturalmente por entenderem que a «tenda se quer na mão de quem a entenda».

As fotos que publiquei no «GAP» integram o CADERNO Nº 9. Foram tiradas a partir do manuscrito original e, portanto, são uma RELÍQUIA para a HISTÓRIA DA POMBEIRA.

motaFazendo um resumo desse seu texto,  deixando as referências da distância que separa a vila daquele sítio, diz ele, depois de lá chegar:

Linda manhã de outono límpido e quente. Botas ferradas, codaque ao tiracolo, prontos para a partida. Apareceram logo companheiros, mais cinco, desses que vão por ver e ir com os outros…mas lá vamos a caminho da Pombeira (o “VENHAM MAIS CINCO de Zeca Afonso era canção do porvir). Curioso, não?

Discute-se se subir ou descer até que se concordou descer, porque diz o ditado que “para baixo todos os santos ajudam”. Passo cadenciado e firme. (…) as duas margens do rio cortadas no granito áspero e duro, quase a prumo, como duas gigantescas cortinas naturais, sem espécie de vegetação, a não ser a robusta urgueira, musgosa ou raquítica, parcamente vegetando entre as fendas dos penedos (…)

Quede de águaLá fomos descendo e subindo com as nossas botas sólidas e ferradas, o nosso forte varapau de marmeleiro, servindo de apoio, vontade firme, estômago quente, largo chapéu serrano, amparando o sol ardente, roupa leve, corpo livre, tudo nos dava o aspeto de um Humboldt valoroso e triunfante que fosse não subir as eminências da Pombeira, mas excursionar as iminências dos Andes (…) e aqui deparávamo-nos com uma enorme queda de água, descendo junta perto de vinte metros de altura, ali um grande pego cercado de gigantescos penedos, parecendo desabarem sobre aquele, além, um amontoado de penedos dispostos ao acaso, uns sobre os outros, cobrindo o curso do rio, formando assim uma espécie de ponte natural (…) chegados ao fundo, cá em baixo, à Quinta da Rocha que fica defronte do Jogadouro, sítio de onde se desfruta toda a panorâmica da Pombeira”.

Ora, por este texto se vê que a CASCATA DA POMBEIRA foi, como disse, em tempos idos, um assinalável ÍCONE que não só correu mundo através POSTAIS ILUSTRADOS (a preto e branco),  mas ficou também a ilustrar uma das partes do espaldar da FONTE DOS PEIXES, a par da CARVALHA DO PRESÉPIO, painel de azulejos saído da Cerâmica ALELUIA, de Aveiro, em 1957.

Aleluia-1957E como é meu timbre fazer HISTÓRIA COM GENTE DENTRO, mal ficaria não louvar o trabalho de leitura e de investigação a que conduziu a publicação no «GAP» do texto que nos deixou Aires Pinto Marcelino.

Além do nome daquele “proprietário do moinho” que não regateou as uvas da sua quinta aos “caminheiros” para eles refrescarem a boca,  que mais não fora, só por isso, eu me congratularia por ter tornado público um texto que jazia morto nos meus arquivos.

Já o disse e aqui o repito. Este texto, com a assinatura de Aires Pinto Marcelino, é um DOCUMENTO para a HISTÓRIA desse sítio, seja qual for o FUTURO DO PROJETO DE ATRAÇÃO TURÍSTICA que venha a desenvolver-se em torno das CASCATAS que, quer se queira, quer não, foram estranguladas pelas manápulas do PROGRESSO.

.
Ler 198 vezes
Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.