Trilhos Serranos

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segunda, 15 fevereiro 2016 22:41

AS LETRAS NÃO SÃO TRETAS

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Letras? Que longo caminho, o delas. Ora galopando, ora trotando, ora a sós ou a granel, atravessaram espaço e tempo, até chegarem a nós, silenciosas ou em tropel.  Caminhada longa e séria. A arqueologia, que acorda o que enterrado dorme, trouxe-nos da Antiguidade a escrita cuneiforme da Suméria e territórios do Crescente, a deslocação de animais e gente, as Tábuas da Lei, a Pedra de Roseta, cunhadas ou manuscritas, visíveis ou apagadas, chegaram-nos em papiros, em pergaminho e papel, sempre cuspidas por cunhas, espátulas, estilos, bicos das penas de pato ou aparo de canetas, com recurso a tintas e a cera. Falo de história. As letras nunca foram tretas. Gravadas, desenhadas, hieroglíficas demóticas ou cursivas, a par de factos autênticos passados, carregados de glória, elas registaram vidas, sentimentos, afectos, amores, sofrimentos, paixões, declarações de guerra, tratados de paz, formação e queda de impérios, muitas fintas, muitas lendas e muitas petas, ditas e inauditas.

 letras-1 Mas, sobre o dito e o feito, há sempre quem não se vergue. E um dia, Gutemberg, cansado de vê-las assim presas à mão humana, resolveu soltá-las, replicá-las, fundi-las em chumbo, pô-las a correr o mundo, metidas em caixotins, prontas a serem impressas em jornais, livros e folhetins, muitos dos quais, sem serem lidos, tinham ingloriosos e malcheirosos fins. E não escapava, não, o heróico verso homérico, a notícia do dia ou a apocalíptica profecia do fanático João, que, estando à mão de toda a gente, recebiam o repelente carimbo da ocasião. Assim como assim, para o bom e para mau aproveitamento estava inventada a IMPRENSA e, dessa maneira, permitido foi a quem pensa divulgar arte e pensamento, fora da igreja, do mosteiro e do  convento, mesmo que dentro deles as letras continuassem vivas e ativas, através dos tempos. Registaram fomes, pestes, guerras, andaços, maleitas, mortandades, sangrias, maus olhados, dores de cabeça, espinhela caída. E um dia, um senhor ligado a fábricas de alimentação, massa de cotovelo e macarrão, com letras-2uma forte dor de barriga foi ao campo em flor e, à maneira do Pai Adão, joelhos curvados, rabo junto ao chão, impou e... zaz... aliviou a dor. Mas quando olhou para trás e viu um novelo de lombrigas todas a mexer enrodilhadas, teve a brilhante ideia de fabricar esparguete e logo a seguir, imitando Gutemberg, fabricar toneladas de letras soltas remetidas para armazéns e restaurantes. Acabavam comidas e em retrete, apesar do objetivo ser ensinar o alfabeto às crianças, não com lápis e caneta, mas com a colher, aberta a boca e vencer a estopada que era elas negarem a sopa. E assim, sem malícia,  as letras tornadas foram em massa alimentícia, e, nesse estado e estatuto, deixando os caixotins das tipografias, vadias e libertas de estudo, passarem a ser vendidas em saquinhos destinados não a bibliotecas, mas todo o sítio onde se servissem refeições.

Democratizaram-se.

Até então, somente na mão de tipógrafos, de notários, juízes, clérigos fornadas em Roma, de doutores saídos de Coimbra ou Salamanca, não falta analfabeto que as não coma, pois até onde o meu saber alcança, tornaram-se acessíveis à boca  de toda a gente. Nessa condição, se disso estou bem certo, as letras, em vez alinhadas em frase escorreita, em vez de lidas em verso, poema, elegia,  ode, soneto, romance, novela ou canção, passaram a ser comidas, engolidas e ...o resto... por aí abaixo, por aí acima, procure o leitor a rima. Nos dois casos, o objectivo era a alimentação: primeiro, o espírito, depois  o corpo: «alma sã em corpo são».

Sempre a evoluírem no tempo,  por caminho direito ou torto, elas aí vão ao longo da história, com censura aqui e ali na sua trajectória. Mas adquirida que foi vida própria, conquistando novos usos e espaços, cada letra, nos seus passos, passou a ter sentido sozinha e a nãoletras-3 ligar patavina à sua vizinha do lado. A consoante já não precisa de acasalar com a vogal e vice-versa, tal qual se vê no prato, em cada mesa. Acasalar para quê?  Uma colherada de consoantes ou uma colherada de vogais letras-1despernadas, tanto faz. Aos comensais, cada um com o seu gosto e jeito, tanto apraz. E, nuns instantes , mastigadas, salivadas, deglutidas, passam o estreito. E  sem necessidade de serem escritas e silabadas em verso, em soneto, elegia, ode ou canção, quadra ou terceto, só esperam o tempo da digestão e ...do resto.

O amigo que me lê, se brinca com as letras e as palavras estima, se é poeta, escritor, jornalista, contrário ao uso deste abecedário (não tem aqui cabimento o acordo ou desacordo ortográfico) se nesta minha deambulação à vista, vê  algo mais do que simples charada, se quer devolver às letras a dignidade merecida, tirá-las da pratada servida diariamente neste «biblos-mundi» que é o Facebook, aqui onde aparecem. com ou sem truque, enrodilhadas em temperos vários, com laivos de intelectualidade, se é poeta, dizia, e quer devolver às letras a dignidade, se vê no que digo e escrevo alguma coisa certa, aproveite o pretexto, rejeite a sopa de letras, rejeite a pratada, complete texto e verá que a escrita, o verso, a poesia,  a prosa, a rima são muito mais do que uma saborosa, individual e "massistral" cagada.




Abílio/fevereiro/2016

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.